Arquivo da Categoria Uncategorized

New Order

Não dá pra dizer que foi uma grande surpresa.

O New Order encerrou definitivamente suas atividades, segundo o baixista Peter Hook. Trinta anos depois que Hook, Bernad Summer e Stephen Morris uniram-se a Ian Curtis para formar o Warsaw, o ciclo se encerra.

A banda ainda terá algumas faixas lançadas na trilha sonora de Control, cinebiografia de Curtis dirigida por Anton Corbijn, com premiére mundial no Festival de Cannes, no próximo dia 17 de maio.

O New Order lançou seu último disco minimamente interessante, Get Ready, em 2001. Em 2005 saiu o irrelevante Waiting for the Sirens’ Call, que nem esquentou no toca discos aqui. Mas é como aquela tia que a gente gosta, não vê há um tempão, e quando morre a gente sente o choque. Esquecemos os anos de distância, e lembramos só dos momentos felizes do passado.

Deixarão saudades.

Procession
(New Order)

There is no end to this
I have seen your face
But I don’t recognize all these things
You must have kept behind
It’s a problem, you know
That’s been there all your life
I try to make you see the world without you
That just turned black and white
At night it gets cold and
You’d dearly like to turn away
An escape that fails
Makes the wounds that time won’t heal alone
Alone, alone, alone

There is no end to this
I can’t turn away
Another picture but the scene
It’s still the same
There is no room to move
Or try to look away
Remember, life is strange
Life keeps getting stranger every day
A mass of harmless attitudes
A type that won’t subside
No matter what they say
You knew your heart beats you late at night
Your heart beats you late at night
Your heart beats you late at night

Comments Nenhum Comentário »

Este blog fez seu terceiro aniversário este mês e, pra variar, eu esqueci da data. Antes que o mês acabe, faço o registro.

Há tempos eu desencanei de postar regularmente aqui, mas nunca me passou pela cabeça encerrá-lo. Ele é como a minha casa, ou a minha carteira de identidade. Quer saber quem é o Marcus, aquele cara cartesiano e sem muito senso de humor? Vai lá no Velho do Farol que você fica sabendo quem é.

Teve uma época em que eu pensava: “vou escrever todos os dias, ou pelo menos três vezes por semana no blog”. Mas, sobre o quê? Os assuntos da moda? Desencavar links? Contar a minha vidinha? Ah, manter a atenção do público é muito complicado. Eu me sentia como uma puta oferecida, hehehe.

(sem nenhuma crítica a quem cultiva o seu leitorado, por favor)

Abaixo vai o meu top 5 dos melhores textos, os que mais me deram prazer de escrever:

O Iraque não precisa de liberdade: uma provocação, e também uma análise sobre a diferença entre viver numa ditadura ordeira e numa democracia sangrenta. Escrito em 2004, continua bastante atual.

O Netscape morreu: a pretexto de falar sobre os estertores do antigo navegador de internet, eu conto, desde os primórdios, a minha descoberta do mundo virtual.

Finados: lembrando o Dia dos Mortos e refletindo sobre essa característica dos seres humanos de não querer esquecer aqueles que se foram.

Trintão sem noção: o mais próximo que eu cheguei de transformar o blog num divã. Todo mundo cresce, mas alguns se recusam a isso, e talvez tenham bons motivos.

O lírio mimoso: se esse blog não tivesse mais nenhum outro motivo de existir, esse meu passeio lírico pelo universo do Círio de Nazaré bastaria. Meu texto favorito de sempre.

Comments Nenhum Comentário »

O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) pagou um mico federal, esta semana, ao denunciar uma empresa que não existe, e que estaria defendendo a internacionalização da Amazônia.

Ele foi induzido a erro por uma matéria tosca de uma tal Agência Amazônia, que não obedeceu a critérios jornalísticos básicos.

A matéria acusava uma empresa fictícia (Arkhos Biotech) de defender a entrega da Amazônia para administração privada internacional, mas os repórteres sequer entraram em contato com os responsáveis pelo site da empresa (que não tem a menor aparência de ser verdadeiro) ou fizeram qualquer checagem sobre ela.

A Folha informa que este site, e vários outros, fazem parte de uma campanha de marketing viral para o lançamento de um jogo virtual ligado ao Guaraná Antarctica.

Precisei de uns três minutos para encontrar os sites Zona Incerta, que tem avançados recursos multimídia e foi obviamente criado por uma agência de publicidade; Efeito Paralaxe, suposto grupo ambientalista que luta contra a Arkhos Biotech, e que tem um design arrumadinho demais para um grupo desconhecido; e o Brasil vs. Arkhos, blog bem tosco como são os blogs em geral, que em seu último post linka todos os patos que caíram na história.

Até o momento em que escrevo isso aqui, o site da Agência Amazônia continua sem informar aos leitores que a notícia é falsa.

Durante a visita de presidente Bush ao Brasil, um grupo de ecologistas ficou na frente do hotel onde ele estava hospedado, protestando contra a Arkhos. Provavelmente se tratava de gente paga pela agência de publicidade.

Cartaz sobre comunismo

Não é a primeira vez que o senador Arthur Virgílio é enganado por hoaxes de internet. No início do ano ele foi um dos que caiu no golpe da foto acima, e pediu explicações ao governo sobre ela.

A foto, mostrando um cartaz em defesa do comunismo, patrocinado pela Petrobrás, é obviamente uma montagem de photoshop, mas circulou amplamente em blogs e comunidades do Orkut de direita “provando” que o governo é comunista.

Quem sabe esse episódio faça as pessoas tomarem mais cuidado antes de passar adiante uma notícia apenas porque “está na internet”.

Eu tenho uma certa psicose com notícias estranhas demais. Pra mim, são falsas até prova em contrário. Esta semana mesmo a Terra republicou uma notícia da revista de divulgação científica Discover, falando de um estudante que criou um mini-reator nuclear só com equipamentos comprados na internet (!).

Meu mentirômetro apitou na hora, até porque faltam poucos dias para o Primeiro de Abril, e a Discover tem tradição em fazer esse tipo de brincadeira.

Comments 2 Comentários »

Que as “reportagens” da revista Veja são mais opinião — i.e. emprenhamento de ouvido — do que jornalismo, a gente já tinha percebido. Que seu típico leitor se acha muito bem informado, mas tem dificuldades de ler criticamente o que a revista lhe entrega, a gente desconfia.

O que não se esperava é que a própria revista admitisse isso, na campanha publicitária abaixo, que é um primor de auto-ironia involuntária.

Link para o vídeo

Não que isso não expresse a mais pura realidade, mas… alguém podia desenhar pra mim? Chamar o público de burro é a nova moda agora?

Comments Nenhum Comentário »

A Rainha

Sabe aqueles filmes de cavalaria, que penetram na intimidade dos reis, rainhas e nobres, para mostrar o lado humano dos personagens históricos? A Rainha, de Stephen Frears, é um deles, com a diferença que os personagens ainda estão bem vivos e continuam até hoje nos mesmos cargos.

O filme estréia no Brasil em 9 de fevereiro, já deu o Globo de Ouro a Helen Mirren e deve colecionar na semana que vem várias indicações ao Oscar.

O núcleo da história são os sete dias entre a morte e os funerais da princesa Diana, e a relação atribulada entre a rainha Elizabeth I e o recém-eleito primeiro-ministro trabalhista Tony Blair.

Como se sabe, Elizabeth odiava Diana e resistiu o quanto pôde a transformar sua morte numa questão de Estado, pois Diana não era mais a Princesa de Gales. A rainha recolheu-se à sua casa de campo e não deu qualquer satisfação ao povo que chorava e se despedia da mais popular integrante da realeza.

Nas mãos de um diretor qualquer, teríamos um filme medíocre, mas com Stephen Frears vemos um delicado estudo psicológico — com profusos momentos de comédia, proporcionados pelo choque cultural entre a conservadora família real e seus súditos plebeus (representados por Tony Blair, sua esposa e a equipe de governo).

O que é mais gratificante no favoritismo de Mirren ao Oscar de melhor atriz é que sua performance não é espetaculosa nem tem qualquer exagero. É um trabalho cheio de sutilezas em um papel de grande profundidade.

Apesar de trabalhar com uma história real envolvendo pessoas públicas, Frears construiu livremente os personagens, dando-lhes um aspecto tridimensional que seria impossível de captar apenas a partir de fatos conhecidos.

Assim, Tony Blair é ora um hábil estrategista político, ora um paspalho bajulador. Igualmente, Elizabeth I se mostra ora confusa sobre seu papel como chefe de Estado, ora tomada de uma cáustica lucidez.

Não há nem sinal daquela emoção apelativa tão comum em “filmes de Oscar”. É um trabalho sóbrio, mas que deixa o espectador com um sorriso bobo no rosto…

Comments Nenhum Comentário »

Eu nem ia falar mais sobre o filme Turistas — sobre o qual você leu aqui antes de todo mundo, aliás –, mas como o “debate” sobre ele tá uma coisa hilária, eu vou dar meu pitaco.

Já recebi várias cópias do spam pedindo boicote a ele. Mal escrito de dar pena, o texto diz que a produção “só visa denegrir nossa imagem”. Bobagem. É apenas um filminho classe Z que aproveita um belo cenário e uma lenda urbana interessante — o tal mercado paralelo de órgãos para transplantes.

Está havendo uma histeria patrioteira, mas eu acho mais engraçado o movimento contrário: pessoas que se consideram acima dessas “baixarias” e, para afirmar uma suposta independência, dizem que o filme “apenas mostra a realidade brasileira”.

Ou não o viram, ou estão mentindo descaradamente.

Baixei da internet uma cópia de qualidade sofrível — ainda não há um link aberto que eu possa indicar — e, acreditem, é um dos filmes mais idiotas que eu já vi em toda a minha vida.

Não dá pra não rir com os estereótipos fajutos. Os gringos pegam um ônibus de Salvador pra Recife e é um daqueles de linha urbana, sem poltronas reclináveis, e o motorista corre que nem um louco numa estrada estreita e sinuosa. O cara não usa uniforme e passa a viagem tirando meleca do nariz.

Uma das gringas está tirando foto de uma criança e o pai vem cheio de marra encrencar com ela. A explicação dela para os outros: “é que tem histórias de estrangeiros roubando órgãos de crianças e por isso há muita hostilidade contra turistas”.

Depois que eles pegam um boa noite cinderela e acordam apenas com a roupa do corpo, vão a uma vila próxima buscar ajuda e todos — eu disse todos — os habitantes da vila olham torto pra eles, não querem conversa, parece que os odeiam apenas por serem estrangeiros.

O bandidão principal manda os órgãos extraídos dos infelizes para um hospital público de Salvador, para serem transplantados em pacientes brasileiros…

Em resumo, um Brasil inventado, sob medida para uma historinha de terror. E nem como terror presta. É chato, as coisas demoram pra acontecer, e não é nada assustador. As cenas sanguinolentas são curtas e sem emoção.

Não precisa pedir boicote. O filme já boicota a si mesmo.

Comments Nenhum Comentário »

As Filhas da Chiquita[atualizado] Meu irmão foi ver na edição paulista do festival Mix Brasil o documentário As Filhas da Chiquita, que fala sobre a tradicional Festa da Chiquita Bacana, citada no meu texto sobre o Círio de Nazaré.

A festa existe há mais de 20 anos e é um dos principais eventos do calendário profano do Círio. Como eu disse no texto, muito antes de existirem paradas gay, os homossexuais de Belém já tinham uma festa onde podiam se expressar. Mas ela não tem um caráter de gueto: é enorme, e vai todo tipo de gente.

Infelizmente o filme não tem mais exibições marcadas para São Paulo, mas vai passar no Rio (Centro Cultural Banco do Brasil, dias 21, 22 e 23 de novembro), em Niterói (Centro de Artes da UFF, dia 28) e em Brasília (CCBB, 1º de dezembro). O trailer pode ser visto aqui. Abaixo, a bonita resenha que o André me mandou.

Update: Priscilla Brasil, diretora do filme, nos honrou com sua presença na caixa de comentários, e informou que este ganhou dois prêmios no Mix Brasil: Melhor Filme pelo júri popular e Menção Honrosa pelo júri oficial.

* * * * * * * *

Foi interessante ter visto o filme na mesma sessão de A outra filha de Francisco, cultuada comédia thrash e paródia de “Os dois filhos de Francisco”. O curta-metragem, apesar de cult, tem uma realização totalmente amadora e um fiozinho de história, praticamente uma piada de duas linhas, o que nos dá uns 30 segundos de risadas e longos minutos de enfado.

Depois vem o documentário sobre a festa paraense, e logo na primeira cena se vê a diferença: é cinema de verdade, com uma autora (Priscilla Brasil) que domina claramente a linguagem audiovisual. O filme abre com belas cenas aéreas do Círio, e uma trilha épica, para mostrar que aquilo não é uma simples festa religiosa.

Logo no início, somos apresentados ao Elói Iglesias (1), que é fio condutor de toda a história, e a dois personagens que vão fazer diversos contrapontos em vários momentos: Emília, senhora idosa e muito religiosa que acompanha o Círio de seu apartamento em Nazaré, e Márcio, travesti, cabeleireiro, discreto, religioso. Nós os vemos falando o que significa para eles a devoção à Nossa Senhora de Nazaré, e também cenas de suas participações nas procissões.

Em vários momentos se vê uma preocupação didática, de explicar certos detalhes para que os não-paraenses entendam. Aparece até um mapinha da procissão, com a localização da Catedral, da Basílica e do Bar do Parque. O Elói explica diversos detalhes do Círio e da Festa da Chiquita, e acho que só ficou faltando didatismo quando ele critica a “santa cover”, sem explicar direito o que é isso (2).

Eu acho que o documentário consegue captar com grande clareza o caráter totalmente contraditório da Festa da Chiquita. Para uns, ela é praticamente uma continuação do Círio, um espaço que é também de religiosidade, mas de um jeito muito mais divertido. Para outros, é um tapa bem dado na cara da igreja onipresente. Essa atitude bipolar a gente vê até mesmo em diferentes momentos dos depoimentos dos mesmos personagens, em trechos da mesma festa.

A posição oficial da igreja aparece nas palavras de um tal Padre Francisco, e aí não há dúvida nenhuma: homossexualidade é pecado, a festa é uma falta de respeito com a Santa, e ela não tem nenhuma relação real com o Círio. Dona Emília também vai um pouco nessa linha, mas como ela é uma leiga e não uma militante da fé, há um certo espaço para a contradição. Num dado momento, ela se mostra triste por causa da violência que os travestis sofrem na Praça da República, nos dias normais. O travesti Márcio não deixa dúvidas sobre a sua profunda religiosidade, e sua crítica implícita ao escândalo, no que a diretora contrapõe com as palavras de dois travestis que estão se preparando para dar show na Chiquita: elas querem é chamar atenção, levar “boo” (na deliciosa gíria gay paraense).

Uma das melhores cenas se passa dentro da Delegacia de Polícia Administrativa, quando Elói Iglesias vai pedir a licença oficial para o funcionamento da festa. Naquele prédio antigo, estranhamente bonito e decrépito, Elói é tratado pela delegada responsável com um misto de camaradagem e censura, o que é reforçado pelas reflexões dele, nas quais a polícia “é como o pai da gente”, que “sabe tudo o que a gente é”. Essa é a parte “política” do filme, onde a narrativa detalha alguns entreveros da festa com a lei, e é nesse momento que é mostrado o discurso do prefeito Edmilson Rodrigues quando foi entregar o prêmio Veado de Ouro. O prêmio aliás, também é motivo de uma extensa e divertida descrição.

Da Festa da Chiquita mesmo, não aparecem tantas cenas. Alguns show de travestis, algumas cenas sensuais na platéia, beijos gays, gente embriagada, e só. Mais extenso é o panorama de algumas pessoas antes do Círio e da Chiquita, se preparando para elas. Travestis, gays comuns, e pessoas do povo também. Esse é o único ponto em que eu achei que a diretora perdeu um pouco o fio da meada. Ao dar um grande espaço para o discurso popular, ela ficou enredada nas incoerências e na falta de critério do que dizem essas pessoas comuns. É um verdadeiro samba do crioulo doido, um tanto tedioso (pelo menos para mim).

A palavra que resume o olhar da diretora sobre o Círio e a Chiquita é uma: contradição. Na verdade, eu não estaria exagerando se isso fosse a própria definição de “ser paraense”. Sim porque o filme é paraense até a medula. É mais uma prova que existe sim um “paraensismo”, um modo de ser paraense que é diferente de ser nortista, amazônida ou brasileiro. O sotaque característico, a pele morena, a religiosidade mariana, a confusão de idéias e conceitos, está tudo lá. Pra mim, é surpreendente que esse olhar tão revelador tenha vindo de alguém de fora.

O filme tem partes muito engraçadas, e não cansa nem um pouco. Ele vai rolando e a gente até se espanta quando vê os créditos finais. Nestes, é dito que o círio foi filmado em 4 anos, de 2002 a 2005, e não houve patrocínio. Sem dúvida, um filme feito com grande esforço e sacrifício.

* * * * * * * *

(1) Elói Iglesias é cantor de MPB, com alguns sucessos a nível local. É o principal organizador da festa.

(2) “Santa cover” é porque a verdadeira imagem de Nossa Senhora de Nazaré, aquela que foi achada no rio, não é a que sai para as procissões. Ela fica num altar com vidro à prova de balas na Basílica de Nazaré, e durante a festa apenas é tirada do altar — numa cerimônia chamada Descida da Glória — e colocada numa berlinda dentro da própria igreja. A imagem que sai nas procissões é uma cópia, chamada de “imagem peregrina”, e durante o resto do ano fica guardada na capela do Colégio Gentil Bittencourt.

Comments Nenhum Comentário »

Obrigado por Fumar (Thank You for Smoking) é uma das melhores comédias do ano. O filme de Jason Reitman mostra a vida de Nick Naylor, lobista da indústria do cigarro, cujo trabalho é mostrar que esta não é tão ruim assim.

O filme não defende o tabagismo, e os magnatas do fumacê são mostrados de forma bem sarcástica. Mas vemos a hipocrisia dos críticos do cigarro, e um panorama do complexo jogo de pressões e convencimento da sociedade norte-americana.

O assunto principal, aliás, não é “cigarro”, e sim “convencer o público”. Pra isso vale tudo, e Naylor usa um arsenal de truques retóricos junto a redes de TV, comissões do Congresso e até entre usuários comuns. Ele é o funcionário modelo, que veste a camisa de sua empresa e tenta convencer a fumar jovens incautos em vôos da classe econômica.

Algumas das cenas mais interessantes são quando ele tenta justificar seu profissão para seu filho pré-adolescente, Joey. A cena abaixo não é particularmente engraçada, mas é muito relevadora: Joey aprende como vencer uma discussão sem ter razão.

O garoto participa do clube de debates no colégio, uma tradição norte-americana, onde os alunos se destacam por seu brilho argumentativo, independentemente da tese que escolham para defender. Gerações inteiras cuidadosamente adestradas para distorcer e desvalorizar os argumentos contrários.

Mas não é porque os gringos levaram a falácia a um nível quase científico que isso é exclusividade deles. Falácias são uma prática universal, tão disseminada que a maioria das pessoas as usa sem perceber. E a quantidade de truques retóricos disponíveis é enorme: um texto do professor Fredric Litto cataloga 45 deles — e ainda ficou faltando coisa.

Arthur Schopenhauer é um pouco mais modesto: seu opúsculo sobre a dialética erística (que na edição da Martins Fontes ganhou o nome de A arte de ter razão) analisa “apenas” 38 técnicas, mas de forma mais aprofundada.

Aliás, fujam da edição que a Topbooks fez do mesmo livro, chamada “Como vencer um debate sem precisar ter razão” e recheada de notinhas pentelhas do astrólogo Olavo de Carvalho — que não só tenta sequestrar o texto original, como se mostra um dedicado praticante daquilo que diz combater.

Comments Nenhum Comentário »

Todo mundo já deve ter visto, menos o atrasildo aqui, até ontem. Se tem alguém mais atrasildo que eu, alugue este filme com urgência. Machuca não é só um dos melhores filmes já feitos na América Latina, mas uma junção brilhante entre dois gêneros consagrados, o filme político e o romance de formação.

No Chile de Salvador Allende, uma amizade inusitada une Gonzalo Infante, um garoto ruivo e de classe média, e Pedro Machuca, de traços indígenas e muito pobre. Só se conhecem porque, no caro colégio particular onde Gonzalo estuda, o diretor, influenciado pelos ideais socialistas de Allende, admite alguns alunos pobres gratuitamente.

Gonzalo entra na vida de Pedro e descobre uma realidade muito distante de seu confortável mundo burguês.

Ao contrário de alguns filmes políticos brasileiros, onde os protagonistas são gente idealista de classe média, Machuca mostra as coisas como elas realmente são: a elite de um lado, a plebe do outro. Mesmo a amizade de duas crianças não está imune às diferenças de classe, que afloram num momento chave.

Figuras familiares vão se sucedendo: o esquerdista caviar que acha ótima a experiência de Allende, mas quer mesmo é fugir para uma boa vida no estrangeiro; a dona de casa alienada que não entende essa gente estranha que quer igualdade, e acaba se aliando à direita; e os burgueses canalhas de sempre.

Gonzalo observa a tudo atentamente, e vai dando um jeito de crescer no meio desse caos. Ele e Pedro dividem algumas descobertas, e o filme nunca perde de vista o lado humano de duas crianças tentando entender o mundo à sua volta.

E sim, é um filme que toma partido. Até porque, se não fossem as idéias meio bizarras do diretor da escola, nem teríamos essa história para contar. Contra-indicado para indiferentes e cínicos.

Comments Nenhum Comentário »

[atualizado] Alguns leitores, principalmente o Homero, têm questionado os meus posts contra a imprensa anti-Lula. Dizem que existe uma parte da imprensa que apóia o presidente: Carta Capital, IG, Caros Amigos.

O Homero chega a falar em “mentiras descaradas” da Carta Capital. Pedi-lhe que as elencasse, e ele não o fez. Já eu posso citar pelo menos três matérias de capa da revista Veja que foram simplesmente inventadas: o dinheiro das FARC para a campanha de Lula em 2002, o “ouro de Cuba”, e as contas bancárias no exterior de Lula e outros petistas graduados. As três matérias foram produzidas com base em documentos e depoimentos falsos.

Que a Veja pretende derrubar um governo democraticamente eleito, é óbvio. Já a campanha feita pelos órgãos das Organizações Globo e do Grupo Folha é muito bem camuflada. Ao contrário da Carta Capital, que vende apenas 60 mil exemplares e declarou apoio a Lula, estes dois gigantes da mídia tentam enganar o público, escondendo-lhe que estavam em campanha por Geraldo Alckmin.

Em 1954, a grande imprensa estava prontinha para dar apoio à deposição do presidente Getúlio Vargas. Em 1964, aplaudiu a derrubada de João Goulart. Em 2002, a grande imprensa venezuelana (e também a brasileira) apoiou igualmente a tentativa de depor o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Com todo esse histórico golpista, vêm os críticos de Lula dizer que ele é que é autoritário, por causa de algumas perguntas ríspidas de um delegado federal a jornalistas da Veja.

O sempre polêmico Alon Feuerwerker levantou a tese esdrúxula de que jornalistas não podem ser obrigados a prestar esclarecimentos perante a polícia. Aparentemente, estão num patamar que não é reservado a nenhum outro cidadão.

A confusão entre a PF e a Veja é, com certeza, um desgaste desnecessário e uma mostra de inabilidade política, mas dizer que é um atentado à liberdade de imprensa é um baita exagero. Nada foi feito contra a lei, e havia advogado e Procurador da República acompanhando o depoimento. A Veja está claramente tentando usar politicamente o episódio.

Todas as vezes em que é criticada, a imprensa reage chamando de autoritários os seus críticos. Na prática, considera-se intocável. Quando a própria imprensa aponta os seus erros, é um deus-nos-acuda.

A Rede Globo ficou tão preocupada com a matéria da Carta Capital mostrando as manipulações pré-eleitorais a respeito do dossiê, que obrigou seus jornalistas a assinarem uma nota desmentindo a matéria:

O abaixo-assinado foi escrito a pedido da cúpula do jornalismo da emissora e teria circulado pronto na redação para a coleta de assinaturas. A responsável pelo texto seria a própria Mônica Maria Barbosa. No dia em que as assinaturas estavam sendo coletadas, houve um princípio de discussão sobre o assunto na redação de São Paulo. Diante dos questionamentos dos jornalistas, Mariano Boni, um dos chefes da reportagem, rebateu dizendo que “quem não estiver satisfeito com a cobertura da Globo que pegue o chapéu e vá para a Record”. Do Rio de Janeiro, a editora-chefe do Globo Repórter, Sílvia Sayão, ligou para sua equipe em São Paulo dizendo que “seria bom se os jornalistas assinassem o documento”. (…)

Alguns profissionais que antes tinham assinado o documento pediram a retirada de seus nomes –- o que criou um forte constrangimento interno. Como vários jornalistas descreveram à Carta Maior, estava aberta ali a “caça às bruxas” dentro da Globo. “Não se trata de demitir quem não colocou o nome no abaixo-assinado, mas assim eles ficam sabendo com quem podem contar ali dentro”, disse um repórter. “Foi um jeito de colocar o guizo no rabo de alguns gatos”, disse outro.

Em alguns comentários de profissionais da Globo deixados nas páginas da internet que publicaram o abaixo-assinado fica claro como muitos realmente assinaram de forma espontânea o texto. Outros, no entanto, confessaram depois não ter percebido que isso seria usado como instrumento político pela empresa. Funcionaram como escudo para a chefia do jornalismo da Globo, principalmente para Ali Kamel, que ficou bastante exposto depois das reportagens de Carta Capital. (…)

Na semana em que o comunicado interno foi enviado, um repórter da emissora que trabalha no Rio de Janeiro viu Ali Kamel chorando na redação.

PS: a Procuradora da República que acompanhou o depoimento dos jornalistas da Veja na Polícia Federal disse que não houve intimidação contra eles.

Comments Nenhum Comentário »

Quando a TV Globo anunciou o formato de seu debate entre os candidatos a presidência, aparentemente idêntico ao de 2002 entre Lula e José Serra, eu imaginei que ele pouco influiria nos rumos da eleição.

Continuo achando, e também que a vitória de Lula amanhã está selada. Não houve vencedor ontem, e nem poderia haver. Esse formato de perguntas e respostas curtas sobre temas gerais permite apenas que cada um diga o que quer, sem ser efetivamente questionado.

Alckmin mentiu descaradamente pelo menos uma vez, ao criticar o projeto de gestão de florestas, segundo ele uma “privatização” das terras públicas. Não só o PSDB votou a favor do projeto, como este foi apoiado igualmente por madeireiros e ambientalistas. Acusar Lula de privatista é um gesto de desespero que me deixa até constrangido.

De qualquer forma, o debate não foi idêntico ao de 2002. Caso alguém não tenha notado, no debate de quatro anos atrás as perguntas eram neutras, não havia os “dramas pessoais” expostos em todas as perguntas do debate de ontem. Era um com a casa alagada, outro com os amigos assassinados, etc. Um chororô unânime, que certamente foi insuflado (roteirizado?) pela equipe da TV.

Um dos eleitores “indecisos”, inclusive, foi questionado em seu livro de recados no Orkut, por seus próprios amigos, sobre essa história da carochinha de que tem que pegar três ônibus para chegar à faculdade.

Comments Nenhum Comentário »

Firefox 2A Mozilla Corporation lançou anteontem a versão 2.0 do Firefox, o melhor navegador da internet. Se você usa o Internet Explorer e não conhece esta alternativa, saiba por que ele é um programa moderno, confiável e com muitos recursos.

O Firefox 2.0 é recomendável a todos. Está mais leve, mais rápido, e diminuiu o consumo de memória (reclamação freqüente entre seus usuários). Tem muitas novidades, principalmente no gerenciamento de abas, de feeds RSS, e no campo de busca. Possui agora avisos contra sites fraudulentos (phishing) e gerenciamento de sessões. Guias ilustrados sobre as novidades podem ser encontrados aqui e aqui.

Uma das principais novidades é a correção ortográfica, mas, para que ela funcione, é preciso primeiro instalar o dicionário em português brasileiro.

Dois dos artigos mais elogiados deste blog foram este, sobre o lançamento da versão 1.0 do Firefox, e este, falando um pouco da minha descoberta pessoal da internet e do Netscape, primeiro navegador que utilizei e que inspira o Firefox até hoje.

Para tirar dúvidas ou debater sobre o programa, uma opção é a comunidade oficial no Orkut, Firefox Brasil, da qual sou moderador, e que tem um pessoal muito bom participando.

Comments Nenhum Comentário »

O texto abaixo é de meu amigo Bennett, editor do fórum Joio:

Era questão de tempo. A IFPI anunciou ontem que irá começar a processar usuários de redes p2p também no Brasil. Estão tocando 8000 legal actions (categoria um tanto ampla) ao redor do mundo, envolvendo 17 países. (…)

Em território nacional, quem irá cuidar dos processos será a ABPD, que em entrevista coletiva mencionou, além de alguns dados numéricos altamente questionáveis, a intenção de processar vinte usuários de redes de compartilhamento. Todos, supostamente, em dado momento disponibilizaram para upload algo entre 3000 e 5000 músicas. A ABPD não parece estar interessada em quem tem disponibilizado um punhado de discos apenas.

Não se sabe muito bem, até agora, o que de fato ocorrerá, ou mesmo qual a estratégia jurídica da ABPD. O fato de que o CTS (Centro de Tecnologia e Sociedade) da FGV-RJ, apesar de previamente inscrito, foi barrado da coletiva da ABPD, sinaliza que a intenção é espalhar desinformação sobre quais ações serão tomadas. Ao que tudo indica, o objetivo da ABPD é, ao mesmo tempo, testar qual vai ser a resposta do Judiciário para os casos, e intimidar usuários de diversas redes. Shock and awe.

A imprensa nacional, em questões de propriedade intelectual, costuma repetir press releases sem o menor pudor e senso crítico. Uma parte que enxerga a situação por um outro ângulo é então impedida de participar da coletiva, por motivos óbvios. Quanto mais desinformação é espalhada, melhor para a indústria fonográfica. (…)

A questão de que redes teriam sido afetadas está longe de ser a única que se encontra nebulosa. A ABPD/IFPI diz não ter identificado os usuários, de modo que, teoricamente, eles só disporiam, no momento, de alguns números IP. Mas segundo me disse em correspondência pessoal Bruno Magrani, do CTS/FGV-RJ, a intenção parece ser processar civil e não criminalmente, e existe a possibilidade de que a ABPD já se encontre com os nomes dos usuários vinculados a cada IP.

Se de fato a ABPD já se encontra na posse destes nomes, há problemas sérios em relação ao fornecimento deles pelos provedores de acesso, sem ordem judicial. (…)

O CTS está com uma proposta de alteração do art. 46 da Lei de Direitos Autorais (…) Há uma petição online para apoiar essa alteração. Enquanto as coisas continuam imprevisíveis, não disponibilizem mais de 3000 arquivos em qualquer rede de compartilhamento. (…) Caso algum problema surgir, o CTS está estudando a possibilidade de, se não representar diretamente os réus, pelo menos oferecer algum tipo de assessoria jurídica. (…)

Interessante mencionar que esta ação da IFPI vem, curiosamente, na esteira de uma mega-operação anti-pirataria chamada I-Commerce. (…) Juntando um grupo de ações a outras totalmente diferentes — umas contra piratas de verdade, outras contra usuários de redes p2p — prossegue a associação da pirataria ao compartilhamento de arquivos, algo longe de ser coerente, mas que a imprensa segue perpetuando.

Não parece ter sido coincidência que a operação I-Commerce e o anúncio da IFPI tenham ocorrido em sucessão imediata. Sob o rótulo odioso da pirataria, é mais fácil atacar na mídia — e em juízo, se o juiz for desinformado — milhares de usuários de redes de compartilhamento. Estratégia de propaganda básica, mas eficaz.

Os efeitos, para o futuro: nulos, se estivermos considerando o impacto na proliferação de redes. Alguns compartilhadores serão processados e talvez condenados, ouviremos muita bravata da indústria do conteúdo, o compartilhamento quem sabe seja ainda mais estigmatizado pela imprensa, mas de resto, tudo continuará como antes. Não há mais volta.

(texto completo aqui)

Comments Nenhum Comentário »

Manchete desonesta de O Globo

[atualizado] Eu já achei O Globo um bom jornal. Continua sendo, aliás, mas em época de eleição tem gente pirando na batatinha. Vale tudo pra tentar eleger Geraldo Alckmin.

A notícia destacada na capa de hoje do jornal é a seguinte: Tasso Jereissati, presidente do PSDB, pediu à OAB e ao Congresso Nacional que “intervenham” na investigação da Polícia Federal sobre o dossiê. O PT reagiu dizendo que vai explorar a “complacência com o crime” da polícia de São Paulo.

O que é apenas um confronto entre as máquinas de spinning dos dois partidos tornou-se algo bem diferente no título desonesto e capcioso do Globo. “PT usará facção do crime para abafar dossiê” dá a entender que o partido usará os serviços do PCC para abafar a investigação. Não só isso não é verdade, como o Globo ainda não conseguiu mostrar ao distinto público qualquer indício de que a investigação está sendo abafada.

E teve gente, no post anterior, tentando negar que a grande imprensa está em campanha pelo tucano. Fazem-me rir.

PS: vazou hoje a gravação da conversa constrangedora entre o delegado tucano Edmilson Bruno e os jornalistas que receberam as fotos do dinheiro do dossiê. Parece uma conversa de mafiosos negociando muamba: combinam uma mentira coletiva e discutem providências para que a polícia não descubra a tramóia.

Comments Nenhum Comentário »

A pergunta se justifica quando tomamos contato com o que aconteceu de verdade na Ilha da Páscoa, uma das mais intrigantes histórias sobre a passagem do homem pela Terra.

Essa ilha, pequeno pedaço de terra literalmente no meio do nada (Oceano Pacífico, a 2000 km da civilização mais próxima), é famosa mundialmente pelos moai, enormes estátuas de pedra que a adornam.

São tão grandes e pesadas que durante muito tempo perguntou-se como aquele povo primitivo encontrado pelos europeus há séculos atrás poderia tê-las construído e transportado para seus locais atuais. O livro de Erich Von Daniken, Eram os Deus Astronautas?, fez um enorme sucesso há algum tempo especulando que estas e outras maravilhas do mundo antigo teriam sido presente dos “deuses”, na verdade seres de uma avançada civilização extraterrestre.

Hoje se considera perfeitamente razoável que foram mesmo os nativos que construíram as estátuas, já que elas são feitas de rocha vulcânica relativamente mole, que pode ser esculpida facilmente. Experiências recentes reconstituíram, usando apenas material que existe na ilha, o que poderiam ter sido as operações para movimentar os enormes blocos.

O povo que levantou as estátuas era desenvolvido, mas quando os europeus chegaram à ilha, encontraram apenas um punhado de nativos vivendo em cavernas. E sabem por quê? Porque eles tinham involuído como civilização após esgotarem seus recursos naturais.

A ilha, hoje quase inteiramente desmatada, era coberta por florestas na época em que os polinésios a ocuparam, há quase dois mil anos. A madeira era a base da sociedade, e usada nas casas e nos barcos e redes de pesca. Com o exaurimento das florestas, tornou-se impossível pescar e a sociedade entrou em colapso: escassez de alimentos, guerras e até canibalismo. Sem barcos apropriados, os habitantes da ilha ficaram presos a ela e definharam.

Que isso sirva de lição pra nós, que estamos numa Ilha da Páscoa em escala ampliada: o nosso pequeno planeta Terra. Não temos para onde ir, e estamos acelerando a depredação dos recursos naturais que nos mantêm vivos.

Em que cavernas vamos nos esconder, eu não sei. Mas vão ser poucos que conseguirão, e no caminho pra elas veremos uma versão ligeiramente mais selvagem da luta de classes estudada por um certo barbudo alemão.

Comments Nenhum Comentário »