Este blog, que em breve estará se mudando para um provedor neutro em emissões de carbono, apóia a luta contra o aquecimento global, e por extensão condena todo o gasto inútil de energia, incluindo os posts ociosos, especulativos e desinformados da blogolândia brasileira sobre o trágico acidente da TAM.
Como eu disse ao Inagaki, nessa hora surgem milhares de especialistas em segurança de vôo. Todo mundo agora sabe o que é grooving e enche a boca para dizer que a falta das ranhuras na pista foi uma das causas do acidente.
[update] Eu não estou dizendo que o Ina fez um post desinformado ou ocioso. Divirjo dele, e (pra variar) já provoquei um atrito hoje, mas o linkei porque o respeito e pra ele dá vontade de responder. Os indignacionistas de verdade, que apenas psicografam sua desordem de pensamentos do momento, eu leio o primeiro parágrafo e descarto. [/update]
Será que essas pessoas sabem que a pista de Congonhas nunca teve grooving? E que funcionou por décadas dessa forma, sem acidentes deste porte?
A pista tinha problemas sérios, e eles foram objeto de uma reportagem de Luiz Carlos Azenha no Jornal Nacional, relatada ontem em seu blog. A engenheira e pesquisadora Marcia Aps mostrou que a pista não seguia os padrões internacionais de segurança.
Por causa disso, houve uma reforma, auditada pelo próprio IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) onde trabalha a pesquisadora, cuja tese de doutorado é sobre… aderência de pneus em pistas de aeroportos…
A lógica indica que a pista está melhor agora do que antes. É até possível que não esteja, mas isso só saberemos depois da investigação. Só o complexo de vira-lata do brasileiro é que explica essa desconfiança atávica contra os nossos melhores especialistas e a crença de que “nada pode mesmo dar certo aqui”.
Meu irmão já leu um relatório sobre um pequeno acidente aéreo aqui no Pará, há alguns anos, e me informa, impressionado, sobre a riqueza de detalhes da investigação, a cargo da Aeronáutica. Além das dezenas de páginas de questões técnicas, a comissão responsável investigou até a situação familiar do piloto, e um possível stress que pudesse ter interferido em sua performance.
Temos especialistas que trabalham a sério sobre causas de acidentes, e eles vão dizer, afinal, os motivos dos tristes fatos de ontem. Eu prefiro aguardar a palavra dos experts. Leigos e curiosos eu faço questão de ignorar.
Pode-se discutir, é claro, a conveniência da manutenção de tanto movimento aéreo em Congonhas, cujas condições de segurança são aceitáveis para os padrões internacionais, mas não ideais.
Mas sem dedo na cara dos outros, por favor. Vamos deixar de hipocrisia. “Segurança absoluta” non ecziste. Compatibilizar as questões de segurança com outras (financeiras e de operacionalidade) é uma decisão racional que tomamos todos os dias. Quem nunca comprou um carro sem air bag e freios ABS que atire a primeira pedra.
O que eu acho mais interessante é falaram em “tragédia anunciada”. Anunciada por quem, exatamente? Eu não vi nenhum dos que falam em tragédia anunciada, a terem anunciado antes! Cadê os posts, matérias e artigos indignados, falando sobre uma suposta inviabilidade de Congonhas, anteriores à tragédia?
Isso me lembra da Mãe Dinah. Ela se notabilizou por fazer previsões que eram anunciadas sempre depois que o evento previsto se realizava. Blogueiros e palpiteiros profissionais de jornal são hoje as Mães Dinah da segurança de vôo: sabiam tudo o que ia acontecer, mas só falaram sobre isso depois do fato consumado.
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O título é uma provocação e não, a foto da Maitê aí ao lado não é uma imagem sem nexo; explico mais embaixo.
Tem sido muito criticada uma passagem do Farenheit 9/11, de Michael Moore, onde ele mostra uma vida calma, “comum”, no Iraque pré-invasão americana, e depois o inferno que o país se tornou. Sofista! Manipulador! “Até parece que o Iraque era um paraíso com Saddam”… isso tem sido dito sem muitas variações por todo lado.
Não há a menor dúvida de que Saddam Hussein era um ditador sanguinário, que exterminava oponentes e tinha ambições imperialistas regionais. Não há a menor dúvida de que ele já teve um arsenal de armas químicas e planos de montar uma bomba atômica.
Mas também se sabe que o arsenal não existe mais, ou melhor, já não existia antes da investida norte-americana sobre o país. Esse fato poderia ter sido verificado antes da guerra, se o governo Bush tivesse dado tempo à equipe de Hans Blix. E também se tem certeza absoluta (sempre se teve, na verdade) que Saddam não tem qualquer relação com a Al-Qaeda.
Como Bush e os republicanos não têm mais como sustentar que Saddam era uma ameaça real para os Estados Unidos, partiram para outro discurso: que estavam levando a liberdade a um povo espezinhado por um ditador.
À parte o fato óbvio de que outros povos árabes, também espezinhados por ditadores, não têm recebido esse fervor libertário dos Estados Unidos (pois os tiranos em questão são seus aliados), fica uma pergunta que não quer calar: o que é pior, a santa paz celestial das ditaduras ou o caos de uma guerra civil fraticida, resultado direto de uma invasão militar justificada pela tal liberdade?
“Esse cara está abusando do relativismo moral”, deve estar pensando você. Para me socorrer é que cito a atriz Maitê Proença. Sim, ela tem se mostrado uma excelente colunista na revista Época, e nesta semana publicou um ótimo artigo, que já começa direto ao ponto:
A humanidade ama a ordem. Os americanos acham que o amor é pela democracia, mas não é. O homem prefere uma ditadura organizada à democracia baderneira.
Eu me lembro de receber, em 1983, um panfleto entregue por um militante estudantil na porta da minha escola, onde estava escrito que o Brasil era uma ditadura militar, que esmagava as aspirações populares e coisa e tal. Eu tinha 14 anos e olhei para o rapaz como se ele fosse maluco. Afinal, que raio de regime ditatorial era esse, que estava fazendo tanto mal, se a minha vida, e a de todo mundo que eu conhecia, era absolutamente normal, sem sobressaltos, sem nenhuma interferência maligna desse governo tão criticado?
Obviamente eu não tinha qualquer consciência política. Eu não percebia a manipulação da televisão em favor do governo, por exemplo.
Mas o fato é que as atrocidades da ditadura não chegaram até a porta da minha casa. E havia uma situação econômica razoável: minha mãe teve seu primeiro emprego de professora (aos 17 anos) ganhando seis salários mínimos, que era o salário normal de um professor iniciante. Dá pra ficar dizendo que o governo estava prejudicando alguém? O fato é que a vida estava boa para a gente.
Penso nos iraquianos lavando seus carros com gasolina, de tão barata que ela é num país tão rico em petróleo. Penso em milhões de iraquianos indo à escola, trabalhando, indo ao mercado, fazendo suas orações. O governo não era do Taleban, não obrigava as pessoas a seguirem regras fundamentalistas absurdas. Alguns desses milhões provavelmente desejavam que houvesse liberdade, mas, será que se dissessem a estes que o preço seria não-sei-quantos-anos de guerra civil, após uma invasão estrangeira, eles iriam achar isso (liberdade) tão importante? Pois, para os Marcus e Marias lá do Iraque, a vida estava boa.
Sim, ela ficou pior depois das sanções oriundas da primeira Guerra do Golfo, e isso se deu quando Saddam adicionou uma boa porção de caos à situação do Oriente Médio, com a invasão do Kuwait. O caos atrapalha a vida das pessoas, impede-as de trabalhar direito, impede-as de levar sua vidinha.
E tem sido isso que a doutrina Bush tem levado a um monte de lugares do planeta: caos. Uma confusão, gerada pelo embate de fundamentalismos, onde estar do lado certo parece mais importante do que fazer a coisa certa. Pois a coisa certa, nesse caso, não é impor seus valores, mas diminuir as tensões que provocam guerras, que provocam o caos que ninguém gosta. Mas o governo Bush tem adicionado mais pressão a uma panela que já está em ponto máximo, tanto na Palestina como na Venezuela, no Haiti, no mundo árabe inteiro, etc, etc, etc…
Então eu explico o título provocativo: não, é óbvio que eu não acho a liberdade uma coisa de somenos importância. Eu sou um libertário radical, mas a questão é: como chegar a essa liberdade? Muita gente bem melhor que eu já disse isso, mas o fato é que a liberdade não nos é dada de mão beijada, ela é conquistada. Você, que talvez não estivesse satisfeito com a ditadura militar brasileira, gostaria de ter seu governo derrubado por uma potência estrangeira, com milhares de mortos no processo, para que se restabelecesse a democracia? Eu não gostaria.
O Iraque precisa de liberdade, sim, é óbvio. O homem precisa de liberdade, mas, sou eu que vou impor a ele? Sou eu quem vai libertá-lo? Não, é ele que vai se libertar, se assim o desejar. A construção da democracia é um processo complexo, algo que nós, brasileiros, já deveríamos saber de cor e salteado, pois estamos vivendo um processo de construção da democracia riquíssimo nos últimos vinte anos.
O irônico da situação é que, no principal país do Oriente Médio onde está se dando um processo semelhante, seu governo está sendo apontado por Bush e companhia como integrante de um “eixo do mal”. Sim, o Irã.
O Irã não tem ligações com a Al-Qaeda, não tem patrocinado investidas terroristas contra o ocidente, e tem vivido um processo fascinante de embate político entre conservadores e progressistas, dentro dos estritos parâmetros de uma sociedade profundamente islâmica. Depois de duas ditaduras (uma laica e outra religiosa), o Irã já é uma potência econômica regional e periga se tornar nos próximos anos uma grande democracia de massas. E o que Bush faz? Ameaças de levar para lá o caos que levou ao Iraque.
Para responder antecipadamente a qualquer acusação de relativismo moral, me socorro de novo em trechos do artigo de Maitê Proença, onde ela, ao mesmo tempo em que analisa serenamente a preferência da humanidade pela ordem, demonstra uma preocupação ética compartilhável por qualquer um:
A Alemanha de Hitler é dos exemplos mais funestos desta preferência pela ordem. Hoje não gostam de falar nisso, mas na época, enquanto os métodos do ditador ordenavam e revigoravam uma economia despedaçada, trazendo tranqüilidade para a maior parte da população, os alemães acolheram seu nazi-líder de braços abertos.
Quando um grupo terrorista ataca uma escola matando crianças indefesas, o mundo se enche de repulsa, porque fica difícil imaginar o que está por vir nesse cenário de horrores.
Quando aconteceu, sem nenhum aviso, o ataque à base americana de Pearl Harbour, onde civis escutavam rádio e faziam churrascos com suas famílias, aquilo foi uma perfídia japonesa, nos moldes do terrorismo, que o mundo não perdoou.
Acrescento eu: o mesmo pode ser dito do ataque de 11 de setembro. A França, hoje tão execrada, estampou em manchetes: “somos todos americanos”, oferecendo sua solidariedade à nação agredida covardemente; e não foi diferente entre as pessoas comuns de todo o mundo. Em menos de um ano e meio essa solidariedade já tinha se esvaído…
Nossa musa bi-semanal arremata, reclamando uma legitimidade ética com a qual o governo americano não parece preocupado hoje:
Uma nação como os EUA, quando mente, mata, humilha e desrespeita a ética internacional em favor de interesses particulares, dá margem para o crime organizado, no mundo todo, autorizar-se a subir degraus na escala de crueldades. Se a meca da moralidade age de maneira espúria, ao terrorismo, que precisa escandalizar para chamar a atenção, sobram as portas do inferno.
E quem achar que esse texto é anti-americano, que vá ver se eu estou na esquina.
O David fez um comentário sobre um post meu que falava de Iraque, Espanha e terrorismo, afirmando que “o governo do PSOE vai ser obrigado, por reflexo, a mostrar braço contra o fundamentalismo islâmico e contra o ETA”, mas que “historicamente, os socialistas espanhóis escorregam nesse quesito”.
Em minha resposta, não posso dizer que divergi em muita coisa:
Fiquei contente com a reação do povo espanhol, não pelo fato de votar contra o PP, mas por ter respondido prontamente às mentiras e manipulações de Aznar. Acho simplório quem diz que a Espanha “se rendeu ao terrorismo”.
O fato é que fiquei contente e me dei ao direito de ser otimista. De esperar que o governo do PSOE vá ter a hombridade que o governo do PP não teve, ou seja, ouvir o povo espanhol - nesse caso, sua condenação ao terrorismo.
Sobre a perspectiva histórica do PSOE, bem, parece que houve alguns acordos secretos espúrios com gente ligada ao ETA, não? Não sei os detalhes da história.
Em outras ocasiões parece que não foi bem assim. Quando eu estava na Espanha se discutia muito a divulgação dos tais “papeles de Cesid”, que mostravam uma chancela do governo Felipe González a uma “guerra suja” promovida pelas forças armadas contra o ETA, após a tentativa de golpe de Estado nos anos 80.
Não tenho tempo de pesquisar sobre o assunto, mas concordo que o ambiente político não deixa outra alternativa ao PSOE a não ser o combate sem tréguas ao terror. No mínimo por cálculo político - o que rege aliás qualquer atitude de qualquer governo. Acho graça da simplificação da direita, que afirma que a esquerda é moralmente inepta para governar.
O império vem admitindo, paulatinamente, que foi uma grande balela o papo das armas de destruição em massa do Iraque. A amplitude da comédia é tal que me espanta que a credibilidade de W. Bush ainda permaneça em níveis “médios”. Nada que lhe garanta a reeleição, bem entendido.
O discurso oficial é que, mesmo sem as tais armas, o mundo ficou mais seguro sem Saddam. Será? O episódio de mutilação dos corpos de seguranças americanos é fruto de quê? Talvez do ódio amplificado contra os métodos do império. Eu não gostaria de ver compatriotas meus barbarizados dessa forma, e muito menos de perceber isso como resultado último de uma política míope. O Iraque está de pernas pro ar, e sem Saddam a Al-Qaeda encontra terreno fértil para entrar no país. Coisa que não aconteceria se os EUA se preocupassem mais com o Afeganistão — que está às moscas — e em combater realmente o terrorismo.
Mais cedo ou mais tarde alguém (Kerry?) vai ter que admitir que não basta afastar um ditador inimigo, mantendo os tiranos amigos. E que não funciona tentar impor valores políticos a uma região, sem diminuir as tensões que geram os seus conflitos. O governo americano vê a situação se deteriorar totalmente na Palestina e finge que não é com ele.
As novas bombas descobertas em Madri, que resultaram na morte de um policial e três terroristas, mostram as células islâmicas mais ativas do que nunca. Se o novo governo não esmorecer no combate a essa gente, terá depois autoridade moral para questionar a postura do império sobre o assunto. Retirar as tropas espanholas do Iraque, por que não?
Tenho uma ligação sentimental com a Espanha, e episódios como esse me fazem tolamente torcer por um pouco de lucidez em quem tem poder sobre isso. Sim, talvez o povo americano, que terá que refletir se o mundo ficou realmente mais seguro. Pra mim está tudo pior do que há um ano e meio. E não me consta que W. Bush esteja nem aí pra isso.
Mário Sérgio Conti, em texto publicado no No Mínimo, descreveu bem a relativa insignificância da política partidária nos dias de hoje, referindo-se à vitória da esquerda na França:
O agito foi relativo porque só ocorreu na imprensa. O dono do bar onde tomo o santo café de cada dia explicou que “os franceses são assim: numa eleição voltam na direita; na outra, na esquerda”. O que é uma maneira de dizer que a política é irrelevante.
O melhor comentário sobre o assunto é a anedota contada pelo Doutor Plausível:
Num vagão de trem, uma senhora diz a um senhor, “Cavalheiro, poderia abrir a janela? Se ficar fechada, vou morrer sufocada”. O cavalheiro abre a janela. Logo em seguida, outra senhora diz ao mesmo senhor, “Cavalheiro, poderia fechar a janela? Se ficar aberta, vou morrer de frio”. O cavalheiro fecha a janela.
Após alguns minutos, a primeira senhora volta a pedir ao senhor que abra a janela, e ele abre; a segunda pede que feche, e ele fecha. A situação vai ficando enfadonha, até que uma criança que está ali tentando ler sua revista se levanta e sugere, ‘Faz assim: fecha a janela até esta dama morrer sufocada, depois abre até esta outra morrer de frio, e aí a gente pode viajar em paz’.
Política é assim. A cada dois anos é aquela encheção de saco, nhénhénhé pra cá, nhénhénhé pra lá, e o resto do país, q só quer fazer uma viagem tranqüila, tem q ficar aturando. Melhor dar uma chance pra todo partido. Os outros partidos já morreram no frio da incompetência, e agora é a vez do PT morrer sufocado.