Eu nunca entendi direito a obsessão que alguns jornalistas-blogueiros têm pela figura do banqueiro Daniel Dantas (preso hoje em mais uma megaoperação da Polícia Federal). O “orelhudo” parecia ser o responsável por tudo de ruim que acontece nos porões da República. Marcos Matamoros já tinha reclamado que toda a história parecia nebulosa e chata.
E você, caro leitor, pensa a mesma coisa? Não entende o que é que o orelhudo tem? Não agüenta mais ler matérias sobre ele sem entender patavina? Acha tudo isso muito maçante? Seus problemas acabaram!
Bob Fernandes e Samuel Possebon começaram a publicar hoje na Terra Magazine uma fantástica série de reportagens sobre as aventuras de Daniel Dantas no maravilhoso mundo da fraude, sonegação, espionagem e tráfico de influência. O texto é saboroso, e você, que como eu não entende nada das complexas operações cruzadas do mundo dos negócios, ficará por dentro de por que Dantas puxa tantos cordões ocultos do submundo político e empresarial.
Vão lá, sigam os links e leiam tudo. Não vão encontrar nada parecido na cobertura dos jornalões. Tem cenas quase inacreditáveis, como os empregados de um banqueiro cantando a Marcha Imperial de Darth Vader pelas suas costas; um ex-prefeito chorando miséria; e um ex-presidente demitindo a cúpula de seus fundos de pensão depois de uma reunião com a pessoa que eles combatiam.
A PF e o Ministério Público, sabendo das costas larguíssimas que Dantas tem, deram uma tacada de gênio ao vazar para o Jornal Nacional o comentário do banqueiro, de que só precisava de ajuda na primeira instância da Justiça, já que no STJ e no STF ele “resolveria tudo com facilidade”.
Com isso, deixam numa saia justa o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, que, frise-se, é amigo e ex-subordinado de Fernando Henrique Cardoso, o tal presidente que mandou os fundos de pensão pararem de brigar com Dantas. Mendes fica numa situação delicada se der um habeas corpus ao banqueiro, até porque tem blogueiro fazendo até concurso pra saber quando o orelhudo será libertado.
Provavelmente assustado com a revelação do JN, o ministro ligou imediatamente para William Bonner para amenizar o tom de suas críticas à investigação da PF.
Aguardemos a continuação das reportagens da Terra Magazine. O que dá pra saber é que vem muita coisa ainda pela frente.
Atualização: como esperado, o amigo de Fernando Henrique não deixou Dantas e os diretores do Opportunity esquentarem na cela.
Atualização 2: e graças a uma estratégia muito bem montada pela Polícia Federal, o orelhudo está de volta à prisão.
[atualizado] A Guerra do Iraque foi pra levar demoracia para um povo sofrido! Ô povo desconfiado! Não sabem apreciar as intenções nobres de uma superpotência boazinha!
Gigantes petrolíferas ocidentais — como a Exxon Mobil, Shell, Total e BP (British Petroleum) — estão em fase final de acertos com o Iraque para voltarem a explorar as reservas petrolíferas do país sob contratos firmados sem concorrência, revela o “New York Times”.
As companhias estão há 36 anos longe do país, desde que o ex-ditador iraquiano, Saddam Hussein, nacionalizou as concessões das empresas.
Atualização: o New York Times revelou que o governo norte-americano se envolveu profundamente na negociação dos contratos entre o governo (fantoche) iraquiano e as companhias de petróleo que ganharão a mamata de explorar o petróleo do país sem concorrência.
Só sendo ingênuo para não saber disso, mas é bom ver a coisa em letra de forma. Via Toda Mídia.
O governo do Rio Grande do Sul cancelou, sem decreto ou aviso oficial, os direitos constitucionais de reunião e manifestação no Estado.
Ameaçada de impeachment, por causa das gravações que mostram a participação dela no desvio de recursos públicos, a governadora Yeda Crusius nomeou o truculento coronel Paulo Roberto Mendes para comandar a Brigada Militar (a PM do Rio Grande).
Mendes, autor da frase “Não tem jeito, tem que ir pro paredão”, já comandou várias ações de repressão violenta a movimentos sociais, e certa vez foi questionado na TV pelo assassinato de um pedreiro pela polícia em Gravataí, quando comentou: “Às vezes, se preocupam com uma eventual pessoa que a polícia tenha matado”.
O coronel foi nomeado com ordens expressas de sufocar violentamente as manifestações que se avolumam contra o governo de Yeda. Sem apoio, sem argumento e sem moral, a governadora partiu para a ignorância.
De ontem pra hoje a Brigada Militar já deixou dezenas de feridos, dispersando manifestações pacíficas com cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogênio.
Enquanto isso, a grande imprensa prefere ignorar o assunto, ou faz pior, como a Falha de S. Paulo, que publicou uma matéria ridícula onde diz que a Via Campesina tentou fazer saque a um supermercado.
Nem o Zero Hora, integrante do grupo de mídia que ajudou a eleger Yeda governadora, comprou essa versão mentirosa dos brigadianos. O repórter da Folha não estava lá e escreveu a matéria baseado exclusivamente do que disse a polícia.
E você, que não mora no Rio Grande do Sul, talvez não saiba disso.
Ontem, no prosseguimento da crise de corrupção no Detran, o vice-governador Paulo Afonso Feijó (DEM) divulgou uma gravação de uma conversa sua com o chefe da Casa Civil da governadora, Cézar Busatto, onde este simplesmente admite que Yeda e os partidos que a apóiam se financiam com dinheiro público:
Um pequeno partido que ganha uma eleição dessas, precisa governar com maioria. E é um pouco o caso do PSDB no governo do Estado. Acaba tendo que fazer concessões a partidos aliados. Tu pegas tanto o Banrisul quanto o Detran. Eu não tenho dúvida de que é grande fonte de financiamento. Eu não creio que a governadora seja totalmente responsável por tudo isso. Quer dizer, é claro que ela é. Mas eu digo: o custo que teria romper com o Zé Otávio [Germano, deputado federal do PP]?
Este é só o trecho mais chocante da conversa, tem outros bem ruins além desse. O Rio Grande está uma terra em transe com os desdobramentos inevitáveis da crise, que devem ser ou a renúncia ou o impeachment da governadora. Estudantes cercaram o prédio da Assembléia Legislativa, e está marcada para a segunda feira uma passeata de caras-pintadas, que tudo indica será imensa e a pá de cal no governo da primeira mulher a ascender ao Palácio Piratini.
Mas veja o descaso dos grandes jornais brasileiros: apenas a Folha Online publicou em sua homepage chamada para o texto curto mas interessante de Josias de Sousa. Estadão e Globo Online fizeram apenas matérias internas; no caso do Globo, apenas uma notinha minúscula do Noblat.
Dá até pra tecer teorias conspiratórias de por que um governo do PSDB está caindo e tem tão pouco destaque, enquanto cada espirro dos aliados de José Dirceu contra a ministra Dilma Roussef ganha ampla cobertura. Mas isso fica pra outra oportunidade.
Atualização: agora que o Jornal Nacional finalmente lembrou que o Rio Grande existe, é capaz que o resto da imprensa acorde…
Quando a TV começou a passar, há alguns anos, vários filmes de propaganda contra as drogas, o tom era aquele dos anos 50: as drogas são o bicho papão, cuidado com seus filhos, etc. O slogan final: drogas, nem morto.
O cheiro de naftalina era evidente, e não podia dar certo, né? Qualquer pai ou mãe prefere um filho drogado a um morto. Ciente disso, a entidade responsável pela campanha mudou o enfoque, passando a dizer que quem usa drogas financia a violência do tráfico — discurso muito bem elaborado que hoje é repetido que nem papagaio por um monte de gente. Uma forma higienizada e moderna de demonizar o usuário.
A cocaína era vendida em farmácias no Brasil até a década de 1930. Na época o usuário não financiava a violência, porque os circunspectos boticários não precisavam se esconder em favelas e trocar tiros para garantir o seu honesto negócio de vender drogas.
Ou seja, a violência não é gerada pela existência de pessoas dispostas a comprar a droga, mas pela proibição do Estado.
Vamos fazer uma divisão de águas. Se você acha que usar drogas, em si, é algo tão horrível que mereça ser considerado crime, mesmo que não gere prejuízo a ninguém a não ser o próprio usuário, pare de ler agora mesmo. Não se preocupe, Deus protege os inocentes e também os obtusos, e com certeza se apiedará de sua alma.
Mas, se você acha que usar ou não drogas é uma decisão exclusiva da esfera individual de cada um, e mesmo assim repete esse discurso fajuto de usuário financiando violência, tem alguma coisa errada.
A idéia de que o cada um é responsável por si mesmo, ou seja, o primado da consciência individual, é um dos alicerces do Liberalismo, e este não foi um movimento de Ursinhos Carinhosos que pediram licença ao Estado opressor para ter liberdade de fazer o que bem entendiam. As revoluções burguesas mostraram que, se o Estado é injusto, o melhor a fazer é derrubar o Estado e fundar outro.
Mas agora, vejo gente inteligente achando que os usuários têm que ser uns Ursinhos Carinhosos, pedindo licença ao Estado para exercer o direito básico de consumir o quem bem entendem.
Não, meus amigos, quando o Estado te impede de exercer um direito, você pode até se conformar, se for um banana, mas se tiver hombridade, você tem o direito e até o dever de confrontar esse Estado.
E isso inclui, sim, dar dinheiro ao bandido, se for a única maneira. Digamos que eu seja um cubano querendo fugir de Cuba, e só quem pode me tirar de lá seja um mafioso daqueles de filme. Eu não tenho o direito de exercer a minha liberdade, só porque o meu dinheiro vai pra um bandido? Claro que tenho.
Todos sabem que na época da Lei Seca norte-americana a Máfia se fortaleceu com o comércio ilegal de uísque. Foi só permitir de novo o consumo que essa fonte de financiamento do crime secou.
Eu quero fazer àqueles que põem o dedo na cara dos usuários de drogas ilegais, mas tomam sua cervejinha nas sextas-feiras, a seguinte pergunta: se o Estado o proibisse de tomar a sua cerveja, você acataria? Deixaria de tomá-la?
Se a resposta é não, você é um hipócrita. Se a resposta é sim, você é um cordeirinho da violência do Estado.
O Jefferson convidou a mim e a outros blogueiros amigos para escrever sobre os 40 anos da morte do Che, comemorados hoje, injuriado que ficou com a matéria da Veja.
Não dei bola para a revista; já passou o tempo em que ela era relevante. Firmemente agarrada a um nicho reaça paranóico, fala agora apenas aos convertidos. Mas não pude deixar de notar, com certo interesse, o caráter inglório de uma batalha que não pode ser vencida. Veja tentando desconstruir o Che é como os soldados australianos correndo para a morte certa em Gallipoli.
Querem fazer o quê? Convencer de que o Che era um qualquer? Que bobagem. Qualquer pessoa que tenha contato com a história do Che, com as fotos dele, com os escritos que deixou, percebe de imediato que ele era extraodinário. Um soldado e um sonhador, um teórico e um poeta. Não tenha medo de usar clichês; eles podem ser simplesmente verdadeiros.
Você pode discordar das idéias dele. Eu também discordo de algumas. Mas negar o valor de quem tem valor é muito mesquinho.
O Che viveu e morreu coerente com o que pensava. Isso não pode ser dito da quase totalidade dos chamados grandes líderes. Não se corrompeu, não oprimiu, não se acomodou. “Não teve tempo pra isso”, dirá você. Que seja. Viveu muito, morreu cedo e deixou um belo cadáver — um pouco desgrenhado e sujo, talvez. Matou gente? Quando você me mostrar algum soldado que não matou ninguém, eu vou pensar na relevância desse argumento.
Talvez possa ser finalmente compreendido e estudado ao lado dos grandes revolucionários da América Latina, como Bolívar, Zapata, Sandino e Martí, quando aqueles que pensam com a cabeça na Guerra Fria já estiverem mortos.
O Wagner Moura disse em artigo no Globo que Tropa de Elite tem como mérito o de contribuir para o debate nacional sobre segurança pública.
Usou apenas 81 das 881 palavras do texto para responder “não” à pergunta feita pelo jornal: “Tropa de Elite é fascista?” Não apresentou qualquer argumento pra defender sua tese e passou os outros 90% do artigo mudando de assunto e expondo idéias opostas às do filme (legalização das drogas, por exemplo), fingindo que não o eram. A covardia é justificável; tentar fazer o leitor de trouxa, não.
Em português claro, “contribuiu para o debate nacional” significa “deu oportunidade para um monte de gente mesquinha, que cultua o ódio e apóia a tortura e execuções sumárias, pudesse dizer isso com todas as letras”.
Aos três minutos de filme, quando o capitão Nascimento diz que “sem o BOPE a criminalidade já teria tomado conta do Rio” veio o primeiro impulso de desligar a TV, mas eu tinha que resistir bravamente. Essa frase lógica e sensata, “não vi e não gostei”, não é uma opinião válida para alguns…
Não acreditem no que o Xexéo diz. O filme não se limita a apresentar uma situação; ele veste a camisa do BOPE, manipula o espectador durante 100% do tempo para dar razão ao ogro vivido pelo brilhante ator da Globo. A vibração do público com as torpezas do capitão não foi um acidente, mas algo cuidadosamente planejado.
A narração em primeira pessoa, claro, não significa que um autor se identifique com o personagem. John Fowles não compartilhava dos delírios psicopatas narrados por Frederick Clegg em “O Colecionador”, e por isso colocou muita coisa nas entrelinhas avisando ao leitor de que o narrador era um doido.
Já em Tropa de Elite não é feito qualquer reparo mais sério à pessoa do capitão Nascimento. O que vemos é alguém com alguns problemas, mas que no geral “faz o que tem que ser feito” — o que inclui execuções a sangue frio, tortura de crianças e de inocentes, etc. Tudo por motivos nobres, tudo justificado no contexto da história.
Quem são os únicos personagens no filme com um discurso minimamente articulado contra a violência policial? Os estudantes mais imbecis da história do cinema, que fumam maconha durante uma reunião de trabalho, dizem que os traficantes “têm consciência social” e compram a erva deles pra revender na faculdade…
Viu, seu idiota? Viu como esse pessoal dos “direitos dos manos” é tudo maconheiro sem vergonha? Não acredite neles, acredite no BOPE, porque o BOPE é que tem caras idealistas que arriscam a vida pra te proteger!
Tropa de Elite é um filme estereotipado, primário e maniqueísta. Tem até algumas boas cenas, mas o fio principal é puro discurso ideológico. O diretor João Padilha está mais preocupado em provar uma tese do que contar uma boa história.
O capitão Nascimento parece aqueles heróis do desenho Superamigos que ficam falando pelos cotovelos enquanto salvam o mundo. Não se contenta em ficar surrando o usuário de maconha; enquanto isso, aluga o torturado e o espectador com aquele discurso tolo e clichê de que “o usuário financia a violência”…
Por essas e outras, não consegui evitar um sorriso de satisfação quando a comissão do Ministério da Cultura resistiu ao cerco da opinião pública e escolheu para nos representar na disputa do Oscar o verdadeiro melhor filme brasileiro de 2007: “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”.
Na matéria do Globo que anunciou o fato, o comentário de um leitor resumiu o que eu pensava:
Não são apenas os spin doctors da oposição que só pensam “naquilo”. O assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, fez gestos obscenos quando o Jornal Nacional divulgou, na edição de ontem, que o Airbus da TAM que se acidentou em Congonhas teve diagnosticado um defeito há alguns dias. Veja o vídeo.
Não é a primeira vez que gente do primeiro escalão do governo se comporta como se estivesse no boteco da esquina, e não no comando no país. É o equivalente político-partidário de um são-paulino bêbado gritando “se fudeu corintiano”, após mais uma derrota do time de São Jorge.
A notícia sobre o defeito e o estranhíssimo comportamento do avião captado pelas câmeras da Infraero enfraquecem a hipótese de problemas na pista. Marco Aurélio achou que isso era motivo para comemorar.
É que nem o slogan do filme Aliens x Predador. “Não importa quem ganhe, nós perdemos”.
O que dá pra saber desde já é que a tragédia ceifou 192 vidas e, com certeza, uma carreira política: a de Marta Suplicy, ministra do Turismo. Acho que não há retorno eleitoral para ela. Não para cargo executivo. O PT pode tratar de pensar num outro nome para disputar a Prefeitura de São Paulo e, mais adiante, o governo do estado.
Mais didático impossível, né? O interesse de Reinaldo Azevedo e da oposição é exclusivamente os prejuízos político-eleitorais que a tragédia da TAM possa gerar ao governo.
Na minha terra isso se chama “urubu na carniça”.
Mais urubus: senti vergonha alheia dos jornalistas que foram obrigados a editar, na edição de ontem do Jornal Nacional, uma matéria que desrespeita o sofrimento dos parentes das vítimas, mostrando longamente e com detalhes os momentos de choro e desespero destes ao receber a confirmação da morte de entes queridos.
O direito de todos a um pouco de privacidade na hora da dor não vale nada quando se trata de promover sensacionalismo.
Liminar: a Leila questiona em seu blog e na caixa de comentários do post anterior sobre a ação do Ministério Público pedindo a interdição da pista de Congonhas. Chegou a haver uma liminar, que foi derrubada logo em seguida.
Mas a ação é anterior à reforma, que foi feita para corrigir os problemas bem conhecidos sobre a pista. Houve várias derrapagens no ano passado.
Por algum motivo que desconheço (embora desconfie), os indignacionistas sequer mencionam que houve uma reforma, ou seja, que a Infraero não ficou parada e agiu para melhorar a segurança do aeroporto.
Comodidade: o André, como sempre, fazendo um comentário muito sensato:
A minha humilde opinião é que o aeroporto de Congonhas deveria ser fechado, mas a verdade é que quase ninguém que viaja de e para São Paulo quer isso. Todo mundo quer comodidade. Ninguém quer andar 40 Km para chegar no aeroporto. O que o pessoal quer é sair do vôo e já estar quase em casa, em Moema, Campo Belo e outros.
Este blog, que em breve estará se mudando para um provedor neutro em emissões de carbono, apóia a luta contra o aquecimento global, e por extensão condena todo o gasto inútil de energia, incluindo os posts ociosos, especulativos e desinformados da blogolândia brasileira sobre o trágico acidente da TAM.
Como eu disse ao Inagaki, nessa hora surgem milhares de especialistas em segurança de vôo. Todo mundo agora sabe o que é grooving e enche a boca para dizer que a falta das ranhuras na pista foi uma das causas do acidente.
[update] Eu não estou dizendo que o Ina fez um post desinformado ou ocioso. Divirjo dele, e (pra variar) já provoquei um atrito hoje, mas o linkei porque o respeito e pra ele dá vontade de responder. Os indignacionistas de verdade, que apenas psicografam sua desordem de pensamentos do momento, eu leio o primeiro parágrafo e descarto. [/update]
Será que essas pessoas sabem que a pista de Congonhas nunca teve grooving? E que funcionou por décadas dessa forma, sem acidentes deste porte?
A pista tinha problemas sérios, e eles foram objeto de uma reportagem de Luiz Carlos Azenha no Jornal Nacional, relatada ontem em seu blog. A engenheira e pesquisadora Marcia Aps mostrou que a pista não seguia os padrões internacionais de segurança.
Por causa disso, houve uma reforma, auditada pelo próprio IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) onde trabalha a pesquisadora, cuja tese de doutorado é sobre… aderência de pneus em pistas de aeroportos…
A lógica indica que a pista está melhor agora do que antes. É até possível que não esteja, mas isso só saberemos depois da investigação. Só o complexo de vira-lata do brasileiro é que explica essa desconfiança atávica contra os nossos melhores especialistas e a crença de que “nada pode mesmo dar certo aqui”.
Meu irmão já leu um relatório sobre um pequeno acidente aéreo aqui no Pará, há alguns anos, e me informa, impressionado, sobre a riqueza de detalhes da investigação, a cargo da Aeronáutica. Além das dezenas de páginas de questões técnicas, a comissão responsável investigou até a situação familiar do piloto, e um possível stress que pudesse ter interferido em sua performance.
Temos especialistas que trabalham a sério sobre causas de acidentes, e eles vão dizer, afinal, os motivos dos tristes fatos de ontem. Eu prefiro aguardar a palavra dos experts. Leigos e curiosos eu faço questão de ignorar.
Pode-se discutir, é claro, a conveniência da manutenção de tanto movimento aéreo em Congonhas, cujas condições de segurança são aceitáveis para os padrões internacionais, mas não ideais.
Mas sem dedo na cara dos outros, por favor. Vamos deixar de hipocrisia. “Segurança absoluta” non ecziste. Compatibilizar as questões de segurança com outras (financeiras e de operacionalidade) é uma decisão racional que tomamos todos os dias. Quem nunca comprou um carro sem air bag e freios ABS que atire a primeira pedra.
O que eu acho mais interessante é falaram em “tragédia anunciada”. Anunciada por quem, exatamente? Eu não vi nenhum dos que falam em tragédia anunciada, a terem anunciado antes! Cadê os posts, matérias e artigos indignados, falando sobre uma suposta inviabilidade de Congonhas, anteriores à tragédia?
Isso me lembra da Mãe Dinah. Ela se notabilizou por fazer previsões que eram anunciadas sempre depois que o evento previsto se realizava. Blogueiros e palpiteiros profissionais de jornal são hoje as Mães Dinah da segurança de vôo: sabiam tudo o que ia acontecer, mas só falaram sobre isso depois do fato consumado.
O título é uma provocação e não, a foto da Maitê aí ao lado não é uma imagem sem nexo; explico mais embaixo.
Tem sido muito criticada uma passagem do Farenheit 9/11, de Michael Moore, onde ele mostra uma vida calma, “comum”, no Iraque pré-invasão americana, e depois o inferno que o país se tornou. Sofista! Manipulador! “Até parece que o Iraque era um paraíso com Saddam”… isso tem sido dito sem muitas variações por todo lado.
Não há a menor dúvida de que Saddam Hussein era um ditador sanguinário, que exterminava oponentes e tinha ambições imperialistas regionais. Não há a menor dúvida de que ele já teve um arsenal de armas químicas e planos de montar uma bomba atômica.
Mas também se sabe que o arsenal não existe mais, ou melhor, já não existia antes da investida norte-americana sobre o país. Esse fato poderia ter sido verificado antes da guerra, se o governo Bush tivesse dado tempo à equipe de Hans Blix. E também se tem certeza absoluta (sempre se teve, na verdade) que Saddam não tem qualquer relação com a Al-Qaeda.
Como Bush e os republicanos não têm mais como sustentar que Saddam era uma ameaça real para os Estados Unidos, partiram para outro discurso: que estavam levando a liberdade a um povo espezinhado por um ditador.
À parte o fato óbvio de que outros povos árabes, também espezinhados por ditadores, não têm recebido esse fervor libertário dos Estados Unidos (pois os tiranos em questão são seus aliados), fica uma pergunta que não quer calar: o que é pior, a santa paz celestial das ditaduras ou o caos de uma guerra civil fraticida, resultado direto de uma invasão militar justificada pela tal liberdade?
“Esse cara está abusando do relativismo moral”, deve estar pensando você. Para me socorrer é que cito a atriz Maitê Proença. Sim, ela tem se mostrado uma excelente colunista na revista Época, e nesta semana publicou um ótimo artigo, que já começa direto ao ponto:
A humanidade ama a ordem. Os americanos acham que o amor é pela democracia, mas não é. O homem prefere uma ditadura organizada à democracia baderneira.
Eu me lembro de receber, em 1983, um panfleto entregue por um militante estudantil na porta da minha escola, onde estava escrito que o Brasil era uma ditadura militar, que esmagava as aspirações populares e coisa e tal. Eu tinha 14 anos e olhei para o rapaz como se ele fosse maluco. Afinal, que raio de regime ditatorial era esse, que estava fazendo tanto mal, se a minha vida, e a de todo mundo que eu conhecia, era absolutamente normal, sem sobressaltos, sem nenhuma interferência maligna desse governo tão criticado?
Obviamente eu não tinha qualquer consciência política. Eu não percebia a manipulação da televisão em favor do governo, por exemplo.
Mas o fato é que as atrocidades da ditadura não chegaram até a porta da minha casa. E havia uma situação econômica razoável: minha mãe teve seu primeiro emprego de professora (aos 17 anos) ganhando seis salários mínimos, que era o salário normal de um professor iniciante. Dá pra ficar dizendo que o governo estava prejudicando alguém? O fato é que a vida estava boa para a gente.
Penso nos iraquianos lavando seus carros com gasolina, de tão barata que ela é num país tão rico em petróleo. Penso em milhões de iraquianos indo à escola, trabalhando, indo ao mercado, fazendo suas orações. O governo não era do Taleban, não obrigava as pessoas a seguirem regras fundamentalistas absurdas. Alguns desses milhões provavelmente desejavam que houvesse liberdade, mas, será que se dissessem a estes que o preço seria não-sei-quantos-anos de guerra civil, após uma invasão estrangeira, eles iriam achar isso (liberdade) tão importante? Pois, para os Marcus e Marias lá do Iraque, a vida estava boa.
Sim, ela ficou pior depois das sanções oriundas da primeira Guerra do Golfo, e isso se deu quando Saddam adicionou uma boa porção de caos à situação do Oriente Médio, com a invasão do Kuwait. O caos atrapalha a vida das pessoas, impede-as de trabalhar direito, impede-as de levar sua vidinha.
E tem sido isso que a doutrina Bush tem levado a um monte de lugares do planeta: caos. Uma confusão, gerada pelo embate de fundamentalismos, onde estar do lado certo parece mais importante do que fazer a coisa certa. Pois a coisa certa, nesse caso, não é impor seus valores, mas diminuir as tensões que provocam guerras, que provocam o caos que ninguém gosta. Mas o governo Bush tem adicionado mais pressão a uma panela que já está em ponto máximo, tanto na Palestina como na Venezuela, no Haiti, no mundo árabe inteiro, etc, etc, etc…
Então eu explico o título provocativo: não, é óbvio que eu não acho a liberdade uma coisa de somenos importância. Eu sou um libertário radical, mas a questão é: como chegar a essa liberdade? Muita gente bem melhor que eu já disse isso, mas o fato é que a liberdade não nos é dada de mão beijada, ela é conquistada. Você, que talvez não estivesse satisfeito com a ditadura militar brasileira, gostaria de ter seu governo derrubado por uma potência estrangeira, com milhares de mortos no processo, para que se restabelecesse a democracia? Eu não gostaria.
O Iraque precisa de liberdade, sim, é óbvio. O homem precisa de liberdade, mas, sou eu que vou impor a ele? Sou eu quem vai libertá-lo? Não, é ele que vai se libertar, se assim o desejar. A construção da democracia é um processo complexo, algo que nós, brasileiros, já deveríamos saber de cor e salteado, pois estamos vivendo um processo de construção da democracia riquíssimo nos últimos vinte anos.
O irônico da situação é que, no principal país do Oriente Médio onde está se dando um processo semelhante, seu governo está sendo apontado por Bush e companhia como integrante de um “eixo do mal”. Sim, o Irã.
O Irã não tem ligações com a Al-Qaeda, não tem patrocinado investidas terroristas contra o ocidente, e tem vivido um processo fascinante de embate político entre conservadores e progressistas, dentro dos estritos parâmetros de uma sociedade profundamente islâmica. Depois de duas ditaduras (uma laica e outra religiosa), o Irã já é uma potência econômica regional e periga se tornar nos próximos anos uma grande democracia de massas. E o que Bush faz? Ameaças de levar para lá o caos que levou ao Iraque.
Para responder antecipadamente a qualquer acusação de relativismo moral, me socorro de novo em trechos do artigo de Maitê Proença, onde ela, ao mesmo tempo em que analisa serenamente a preferência da humanidade pela ordem, demonstra uma preocupação ética compartilhável por qualquer um:
A Alemanha de Hitler é dos exemplos mais funestos desta preferência pela ordem. Hoje não gostam de falar nisso, mas na época, enquanto os métodos do ditador ordenavam e revigoravam uma economia despedaçada, trazendo tranqüilidade para a maior parte da população, os alemães acolheram seu nazi-líder de braços abertos.
Quando um grupo terrorista ataca uma escola matando crianças indefesas, o mundo se enche de repulsa, porque fica difícil imaginar o que está por vir nesse cenário de horrores.
Quando aconteceu, sem nenhum aviso, o ataque à base americana de Pearl Harbour, onde civis escutavam rádio e faziam churrascos com suas famílias, aquilo foi uma perfídia japonesa, nos moldes do terrorismo, que o mundo não perdoou.
Acrescento eu: o mesmo pode ser dito do ataque de 11 de setembro. A França, hoje tão execrada, estampou em manchetes: “somos todos americanos”, oferecendo sua solidariedade à nação agredida covardemente; e não foi diferente entre as pessoas comuns de todo o mundo. Em menos de um ano e meio essa solidariedade já tinha se esvaído…
Nossa musa bi-semanal arremata, reclamando uma legitimidade ética com a qual o governo americano não parece preocupado hoje:
Uma nação como os EUA, quando mente, mata, humilha e desrespeita a ética internacional em favor de interesses particulares, dá margem para o crime organizado, no mundo todo, autorizar-se a subir degraus na escala de crueldades. Se a meca da moralidade age de maneira espúria, ao terrorismo, que precisa escandalizar para chamar a atenção, sobram as portas do inferno.
E quem achar que esse texto é anti-americano, que vá ver se eu estou na esquina.
Zuenir Ventura comentou em sua coluna no No Mínimo a revelação feita por Elio Gaspari, de que tinha sido classificado como “perigoso comunista” pelo SNI, na época da ditadura, tendo inclusive corrido risco de vida. Sua ligação com os partidos comunistas, explicou, era inexistente.
Uma ducha de água fria para quem acredita em conspirações bolcheviques como as relatadas por Olavo de Carvalho. Mas paranóia tem cura.
O David fez um comentário sobre um post meu que falava de Iraque, Espanha e terrorismo, afirmando que “o governo do PSOE vai ser obrigado, por reflexo, a mostrar braço contra o fundamentalismo islâmico e contra o ETA”, mas que “historicamente, os socialistas espanhóis escorregam nesse quesito”.
Em minha resposta, não posso dizer que divergi em muita coisa:
Fiquei contente com a reação do povo espanhol, não pelo fato de votar contra o PP, mas por ter respondido prontamente às mentiras e manipulações de Aznar. Acho simplório quem diz que a Espanha “se rendeu ao terrorismo”.
O fato é que fiquei contente e me dei ao direito de ser otimista. De esperar que o governo do PSOE vá ter a hombridade que o governo do PP não teve, ou seja, ouvir o povo espanhol - nesse caso, sua condenação ao terrorismo.
Sobre a perspectiva histórica do PSOE, bem, parece que houve alguns acordos secretos espúrios com gente ligada ao ETA, não? Não sei os detalhes da história.
Em outras ocasiões parece que não foi bem assim. Quando eu estava na Espanha se discutia muito a divulgação dos tais “papeles de Cesid”, que mostravam uma chancela do governo Felipe González a uma “guerra suja” promovida pelas forças armadas contra o ETA, após a tentativa de golpe de Estado nos anos 80.
Não tenho tempo de pesquisar sobre o assunto, mas concordo que o ambiente político não deixa outra alternativa ao PSOE a não ser o combate sem tréguas ao terror. No mínimo por cálculo político - o que rege aliás qualquer atitude de qualquer governo. Acho graça da simplificação da direita, que afirma que a esquerda é moralmente inepta para governar.
Não me venham falar agora que os americanos não tiveram participação no golpe que derrubou João Goulart e detonou essa merda que emporcalhou o país por décadas. Que no máximo pensaram, só pensaram, em mandar um porta-aviões fazer farol no litoral brasileiro. Lincoln Gordon, me desculpe, mas sou testemunha da história. De um pedacinho mínimo, mas eu estive lá.
O autor, que morava em Governador Valadares, termina com uma referência ao êxodo de seus concidadãos:
E para mim é apenas justiça histórica que atualmente tantos valadarenses tentem penetrar no Império para sugar um pouquito de dólares e conseguir, na labuta ou na malandragem, o que consideram uma vida decente. Quando mandam um dinheirinho pra família que ficou pra trás, no calorão de Governador Valadares, não é remessa de dólares. É indenização indireta.
O império vem admitindo, paulatinamente, que foi uma grande balela o papo das armas de destruição em massa do Iraque. A amplitude da comédia é tal que me espanta que a credibilidade de W. Bush ainda permaneça em níveis “médios”. Nada que lhe garanta a reeleição, bem entendido.
O discurso oficial é que, mesmo sem as tais armas, o mundo ficou mais seguro sem Saddam. Será? O episódio de mutilação dos corpos de seguranças americanos é fruto de quê? Talvez do ódio amplificado contra os métodos do império. Eu não gostaria de ver compatriotas meus barbarizados dessa forma, e muito menos de perceber isso como resultado último de uma política míope. O Iraque está de pernas pro ar, e sem Saddam a Al-Qaeda encontra terreno fértil para entrar no país. Coisa que não aconteceria se os EUA se preocupassem mais com o Afeganistão — que está às moscas — e em combater realmente o terrorismo.
Mais cedo ou mais tarde alguém (Kerry?) vai ter que admitir que não basta afastar um ditador inimigo, mantendo os tiranos amigos. E que não funciona tentar impor valores políticos a uma região, sem diminuir as tensões que geram os seus conflitos. O governo americano vê a situação se deteriorar totalmente na Palestina e finge que não é com ele.
As novas bombas descobertas em Madri, que resultaram na morte de um policial e três terroristas, mostram as células islâmicas mais ativas do que nunca. Se o novo governo não esmorecer no combate a essa gente, terá depois autoridade moral para questionar a postura do império sobre o assunto. Retirar as tropas espanholas do Iraque, por que não?
Tenho uma ligação sentimental com a Espanha, e episódios como esse me fazem tolamente torcer por um pouco de lucidez em quem tem poder sobre isso. Sim, talvez o povo americano, que terá que refletir se o mundo ficou realmente mais seguro. Pra mim está tudo pior do que há um ano e meio. E não me consta que W. Bush esteja nem aí pra isso.