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[atualizado] Taí uma boa surpresa. O cantor e compositor irlandês Damien Rice já gravou, na surdina, o seu segundo álbum, intitulado simplesmente 9 e com lançamento marcado para 6 de novembro. A primeira faixa de trabalho é 9 Crimes, uma balada ao piano em dueto com sua tradicional parceira, Lisa Hannigan (que também canta no mega-sucesso The Blower’s Daughter). Confiram, é bonita.

9 Crimes
(Damien Rice)

O primeiro disco, O, me marcou profundamente, e aconteceu com essa música (Blower’s Daughter) algo semelhante ao que narrei em relação ao comercial do Carlinhos: certo dia comecei a escutá-la na TV, e quando fui ver, era o comercial de Closer, filme que arremessou o artista para o estrelato mundial. O fato da música constar na trilha foi um motivo adicional para eu ver esse filme, que foi escolhido o melhor de 2005 pelos leitores do Globo Online.

Como se sabe, a música ganhou duas constrangedoras versões em português, a cargo de Simone e da dupla Ana Carolina e Seu Jorge, e foi parar na novela das oito.

Quando outra música do mesmo disco (a linda Cannonball) tocou algumas vezes no início de Páginas da Vida (era o tema do romance da falecida em Amsterdam), houve grande revolta em parte dos integrantes da comunidade dedicada ao artista no Orkut. Reclamaram da “banalização” e do fato do artista estar virando “modinha” (esta palavra é doce na boca de indie-chatos).

O que é engraçado é que quase todos os reclamões conheceram Damien Rice através de Closer ou da série de TV, Lost, que também incluiu a música na trilha. Cultura de massa do mesmo jeito. Mas um misto de síndrome do underground e arrogância classe-média os faz pensar que são melhores que os simples mortais que vêem novela.

Nem sei por que eu tô falando disso. Esse pessoal não merece atenção. Vamos aguardar o álbum, que promete. O álbum não decepciona, confiram.

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Quando o Dr. Watson conhece Sherlock Holmes, descobre que o detetive tem conhecimento zero em astronomia. Após saber os nomes dos planetas do sistema solar, Holmes responde: “agradeço, mas agora farei o possível para esquecer disso imediatamente”.

Eu que gosto de fuçar novas bandas de rock, adoto essa estratégia de amnésia seletiva. O cérebro não processa tanta informação despejada diariamente. O disco é apenas interessante, mas não emocionou? Tchau.

Por isso, em vez de apresentar mais uma das salvações do rock de sempre, prefiro falar de novo de The Upper Room, a melhor banda desconhecida da atualidade.

Mesmo entre os blogueiros há pouca gente que os cite. E no entanto, há tempos eu não escutava um disco que perseguisse com tanto afinco o pop perfeito, e chegasse tão próximo dele. Other People’s Problems, o trabalho de estréia, é uma coleção de belas canções de amor, cada uma, um single em potencial.

Eu fico pensando… nos Smiths, pois é. Johnny Marr estava pouco se lixando em ser revolucionário, queria apenas alcançar o acorde certo na hora certa. The Upper Room também, tanto que se define em seu site oficial como “quatro jovens de Brighton com uma missão muito simples: criar álbums clássicos, as mais puras canções pop, e roubar seus corações“.

Deste coração velho de guerra, eles já tomaram posse.

The Centre
(The Upper Room)

On the last day of the year
In the garden, very clear, but what I fear
Is that I’m losing what I held dear
But my goal is nothing at all

They said it’s pathetic
But I won’t forget it

She was the centre
You’re taking me
Towards the centre of my old life

Take an issue or a truth
Go and shout it from the roof
People call it self-abuse
But my goal is nothing at all

They said it’s pathetic
But I won’t forget it

She was the centre
You’re taking me
Towards the centre of my old life

(Don’t talk about it)

* * * * * * * *

Você pode baixar o disco no Arquivo M, meu novo blog, dedicado apenas a downloads de álbuns em MP3. O Velho do Farol continua com sua pauta normal, e espero falar mais de música (uma cobrança de alguns leitores, aliás).

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The House of LoveEsta é um banda inglesa bem pouco conhecida do público. Quando seu primeiro disco (”The House of Love”, simplesmente) foi lançado aqui em vinil, nos anos 80, lembro de ter lido uma resenha na extinta revista Bizz dizendo que o lançamento em si era um milagre, pois a banda era anônima até em seu país natal.

O Brasil vivia a febre do rock, pós-Plano Cruzado, e uma pequena gravadora, Stiletto, lançava as jóias do pós-punk e da new wave aqui, em edições encontráveis em qualquer magazine. Foi o tempo, para muita gente, de ouvir pela primeira vez Joy Divison, Nick Cave, Durutti Columm, The Fall e mesmo os discos menos conhecidos do New Order e Smiths.

Todo mundo comprou os seus bolachões, e um dos que mais causou impacto dessa leva foi o do House of Love (1988, Creation). Ninguém sabia nada sobre eles, mas não importava: o disco é uma coleção perfeita de canções de amor, intensas e ao mesmo tempo melancólicas; alterna rocks e baladas com equilíbrio, e tem melodias apaixonantes.

O som é influenciado pela psicodelia sessentista, com “muros de guitarras”, feedbacks, corinhos, etc, mas com uma energia e um peso vindos do pós-punk. O vocal de Guy Chadwick (também o principal compositor) impressiona, e todas as músicas são assobiáveis e tocáveis ao violão.

É difícil separar faixas, mas Chistine, que abre o disco e foi o único single, é um bom cartão de visitas para a banda: rock viajante com um belo arranjo em camadas, e que evolui para um êxtase de guitarras distorcidas. Man to Child e Love in a Car também estão entre as minhas preeridas. Escute abaixo.

1. Christine
2. Man to Child
3. Love in a Car


(clique no botão de play para ouvir)

Se tivesse surgido hoje, a banda talvez fosse aclamada como a salvação do rock. Na ressaca pós-fim dos Smiths, passou despercebida, com pouco ou nenhum sucesso comercial, e uma sucessão infindável de singles fracassados e sessões de gravação abortadas, até terminar de forma melancólica em 1993. Chadwick ainda tentou vários projetos, solo ou acompanhado, também sem sucesso.

Mesmo assim, o House of Love deixou várias pérolas em discos posteriores. Além desse debut, quase não houve mais edições nacionais: Call Me (do derradeiro “Audience with the Mind”) integrou a trilha sonora de Faraway, So Close! (Tão Longe, Tão Perto, filme de Wim Wenders), e I Don’t Know Why I Love You (do disco de 1990) fez parte de uma coletânea brazuca chamada “College Rock”.

“The House of Love”, o disco, está fora de catálogo, mas foi incluído integralmente na compilação 86-89: The Creation Recordings, juntamente com todos os singles lançados no início da carreira da banda.

Há um ótimo site não-oficial, The House of Love & Guy Chadwick, que compila a discografia completa. Segundo o site, a banda retornou para alguns shows no ano passado e está gravado um disco novo. É esperar para ver o que os quixotes apaixonados vão aprontar dessa vez.

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Paulo C. Barreto publicou em seu blog uma análise sobre programas de P2P, começando com uma advertência:

É claro que sei que você, ilustre leitor, só usa programas/serviços peer-to-peer para caçar e redistribuir programas livres/open source/freeware, os ebooks que você mesmo escreveu e as músicas que Lobão liberou há anos e anos. Dessa forma, já experimentou as grandes redes de troca-troca…

Hehehehehe.

Pode parecer incrível para muita gente, mas houve uma época em que não existiam programas de troca de arquivos. É isso mesmo! Para baixar músicas (com as conexões da época, impossível pensar em filmes), devíamos navegar por sites de MP3 que disponibilizavam sempre os mesmos links — quase sempre de bandas que estavam no playlist atual da MTV. Mas existiam exceções, pois podíamos armazenar nossos próprios arquivos MP3 em servidores gratuitos sem limite de armazenagem. Sim, não pense que é mentira! A bolha não tinha estourado, a RIAA não tinha se descabelado, e ainda era possível fazer uma piratariazinha inocente e jogar a conta para as pontocom.

Todo esse nariz de cera é desculpa para postar um texto meu antigo, que foi publicado em 1999 em meu próprio site de MP3. Com um pedantismo um tanto ignóbil, eu não me limitava a disponibilizar as músicas — tinha que escrever um texto “profundo” sobre a música ou artista em questão. Em meu favor, pode-se dizer que não existiam esses ótimos sites sobre cultura pop de hoje, e parecia inovador um site de MP3 que não tivesse “apenas” MP3.

O artigo abaixo é resultado de minha surpresa frente à magnífica cover de “Samba Makossa”, de Chico Science, gravada pelo Planet Hemp. É arrogante, desinformado e meio tolo. Mas veio de meu amor genuíno pela música. Um James Carville pop me mandaria esquecer da política: “é a música, estúpido”…

Planet Hemp - Samba Makossa


(clique no botão de play para ouvir)

Esta música foi lançada originalmente no primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos”. Após a morte de Chico, o Planet Hemp fez essa cover, apresentada pela primeira vez no Heineken Concerts de 1997, em um show onde Liminha foi anfitrião e convidou vários artistas produzidos por ele. A versão saiu depois não em disco do Planet, mas em “CSNZ”, primeiro disco da Nação Zumbi sem seu líder.

Em sua curta carreira, Chico Science apontou caminhos interessantes para o rock brasileiro, e também tocou em alguns nervos expostos do imaginário nacional, ao chutar para o alto a idéia de “nação cordial” destinada a um “futuro radioso” no panorama mundial.

A sua temática é outra: um país afundado até os joelhos na lama, lutando ingloriamente por uma identidade própria, e também com cada um lutando por sua sobrevivência a qualquer preço, num caldo de cultura parecido com o mangue tão falado.

Ao recusar as parabólicas convencionais e preferir enterrar a sua na lama, Chico estava dando uma pista que o identifica com a antropofagia de Oswald de Andrade: não podemos recusar o que vem de fora, mas não podemos aceitar do jeito que vem, que isso ainda vai nos matar. Pode ser um pouco confuso, e a crítica ao Manifesto Antropofágico já foi feita por gente bem melhor do que eu. Mas, sem dúvida, nosso estado de nação periféria e ao mesmo tempo aspirante a colosso da humanidade torna difícil qualquer tentativa cartesiana de interpretar este país.

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O Brasil é um lugar absurdo. Onde Sérgios Nayas podem ficar passeando à vontade na ponte aérea Rio / Miami, mas o Planet Hemp pode ser preso por dizer que fuma maconha. O Brasil é um país mestiço em que parte da elite se imagina branca e européia. E o Brasil também é um país “europeu” que quer ser eternamente visto como aquele primo exótico, pouco sério, habitado pelos “mulatos inzoneiros” imortalizados por Ari Barroso.

Jorge Luís Borges, argentino mas britânico de coração, disse certa vez que a América Latina não existe. O Brasil é parte da América Latina e… desculpem, mas o Brasil também não existe. É uma ficção, criada justamente para que não nos tornemos uma nação de verdade. Para justificar um passado de opressão e alienação. Somos um povo “alegre” porque nos esquecemos dos motivos para sermos tristes…

O cantor Nick Cave, australiano de nascimento, morou alguns meses no Brasil e disse que não entendia como as pessoas fingiam tanto ser alegres. Perguntavam para ele “como alguém tão triste podia viver no Brasil”, e ele ria, respondendo que o Brasil era o país mais triste que ele tinha conhecido!

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Chico Science não era realmente um grande compositor, mas tinha a percepção exata do zeitgeist tupiniquim, uma visão adiantada sobre o que, enfim, esse país precisa. Não de uma “carnavalização” eterna, uma “jorgeamadização” de sua cultura, mas da percepção direta de seu espírito trágico, de sua história de pilhagem e destruição, e de suas (outras) possibilidades enquanto nação jovem e pobre.

Vejam essa bela música: o malungo que pega a bronca por ter chegado atrasado à roda de samba não tem nada a ver com o mulato inzoneiro daquela outra (”Aquarela do Brasil”). Ser do samba não é um traço de cordialidade ou alegria… na verdade, tocar o pandeiro é manter-se inteiro, como diz a letra. Manter-se sendo o que é, sob pena de morrer, ou pior, se desgraçar. Só assim é possível entender o samba e toda a resistência dos negros para manter suas raízes, apesar da repressão dos brancos.

Chico queria pensar essas coisas todas (assim como seu ex-companheiro Otto, que “pensa muito, todos os dias”), e até por isso não tinha nem uma banda, mas uma nação. E não qualquer nação, mas a Nação Zumbi, signo dessa tal história de pilhagens, mistureba de sons só possível com um olhar antropofágico, e além do mais, a melhor seção rítmica do planeta.

Quando ouvi pela primeira vez a versão do Planet, na TV Cultura, tive a mesma sensação que me assaltou quando ouvi Marisa Monte cantando “Comida” dos Titãs. A sensação de existir um mundo dentro da música brasileira que eu não conheço, que às vezes só vem à tona quando um artista generoso nos dá uma nova visão sobre uma canção.

Assim como “Comida” se transmutou, de “brincadeira pop com poesia concreta”, em verdadeiro hino, na versão jazz-maracatu de Marisa, “Samba Makossa”, que ficava meio perdida entre as pérolas da Nação Zumbi, se afirmou agora o que verdadeiramente é: um clássico da música brasileira. E com direito a trechos do “Monólogo ao Pé de Ouvido”, o manifesto dos novos tempos que estavam por vir.

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