Os dois superstars da música pop islandesa fazem show amanhã (dia 28, sábado), com transmissão ao vivo pela internet, como parte de protestos contra a destruição da paisagem natural de seu país.
A Islândia é um paraíso ecológico, mas suas florestas estão ameaçadas pela poluição de alumínio. A questão ambiental do país já foi tema de algumas das mais emocionantes seqüências do belíssimo show-documentário Heima, do Sigur Rós.
O show gratuito (entitulado Náttúra) se realizará num parque próximo à capital, Reykjavik, e contará com a participação do também islandês Ólöf Arnalds, entre outros. Já tinha sido anunciado no início do mês, mas a novidade, anunciada apenas esta semana, é a transmissão via webcast pelo site Nat Geo Music.
Portanto anotem: amanhã, dia 28 de junho (sábado), das 16 às 19 horas (horário de Brasília). Não percam!
Trilha deste post: Jóga (do terceiro disco de Björk, Homogenic) e Inní Mér Syngur Vitleysingur (do novíssimo disco do Sigur Rós, Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust, que acaba de chegar às lojas). Clique para ouvir.
Este post foi escrito há muito tempo, e é só o primeiro entre vários que republicarei periodicamente a partir de hoje.
Isso é bom por três motivos: atende à minha preguiça monumental de escrever; resgata coisas boas que eu fiz no passado e que os leitores atuais não conhecem; e me permite colocar aqui no WordPress os comentários que os leitores fizeram no antigo endereço, e que eu não consegui resgatar (mas que continuarão lá enquanto o Blogspot e o HaloScan os hospedarem).
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Esta é um banda inglesa bem pouco conhecida do público. Quando seu primeiro disco (”The House of Love”, simplesmente) foi lançado aqui em vinil, nos anos 80, lembro de ter lido uma resenha na extinta revista Bizz dizendo que o lançamento em si era um milagre, pois a banda era anônima até em seu país natal.
O Brasil vivia a febre do rock, pós-Plano Cruzado, e uma pequena gravadora, Stiletto, lançava as jóias do pós-punk e da new wave aqui, em edições encontráveis em qualquer magazine. Foi o tempo, para muita gente, de ouvir pela primeira vez Joy Divison, Nick Cave, Durutti Columm, The Fall e mesmo os discos menos conhecidos do New Order e Smiths.
Todo mundo comprou os seus bolachões, e um dos que mais causou impacto dessa leva foi o do House of Love (1988, Creation). Ninguém sabia nada sobre eles, mas não importava: o disco é uma coleção perfeita de canções de amor, intensas e ao mesmo tempo melancólicas; alterna rocks e baladas com equilíbrio, e tem melodias apaixonantes.
O som é influenciado pela psicodelia sessentista, com “muros de guitarras”, feedbacks, corinhos, etc, mas com uma energia e um peso vindos do pós-punk. O vocal de Guy Chadwick (também o principal compositor) impressiona, e todas as músicas são assobiáveis e tocáveis ao violão.
É difícil separar faixas, mas Chistine, que abre o disco e foi o único single, é um bom cartão de visitas para a banda: rock viajante com um belo arranjo em camadas, e que evolui para um êxtase de guitarras distorcidas. Man to Child e Love in a Car também estão entre as minhas preeridas. Escute abaixo.
1. Christine
2. Man to Child
3. Love in a Car
Se tivesse surgido hoje, a banda talvez fosse aclamada como a salvação do rock. Na ressaca pós-fim dos Smiths, passou despercebida, com pouco ou nenhum sucesso comercial, e uma sucessão infindável de singles fracassados e sessões de gravação abortadas, até terminar de forma melancólica em 1993. Chadwick ainda tentou vários projetos, solo ou acompanhado, também sem sucesso.
Mesmo assim, o House of Love deixou várias pérolas em discos posteriores. Além desse debut, quase não houve mais edições nacionais: Call Me (do derradeiro “Audience with the Mind”) integrou a trilha sonora de Faraway, So Close! (Tão Longe, Tão Perto, filme de Wim Wenders), e I Don’t Know Why I Love You (do disco de 1990) fez parte de uma coletânea brazuca chamada “College Rock”.
“The House of Love”, o disco, está fora de catálogo, mas foi incluído integralmente na compilação 86-89: The Creation Recordings, juntamente com todos os singles lançados no início da carreira da banda.
Há um ótimo site não-oficial, The House of Love & Guy Chadwick, que compila a discografia completa. Segundo o site, a banda retornou para alguns shows no ano passado e está gravado um disco novo. É esperar para ver o que os quixotes apaixonados vão aprontar dessa vez.
Publicado originalmente em 19 de junho de 2004. Republicados dois comentários feitos via HaloScan.
Era o tempo da descrença, e era o tempo da esperança. Era o tempo de quebrar as estátuas, e o tempo de entronizar novos ídolos. Era a crise e era a oportunidade.
Nunca vamos nos recuperar daquele tsunami musical, a new wave. Todos aqueles clichês do rock-meninos-cabeludos-guitarras-distorcidas sendo pulverizados por uma geração quase inacreditável de artistas dos dois lados do Atlântico Norte, que transformaram o ecletismo, o desassombro, a vontade de experimentar, misturar sons e culturas, proclamar a morte do mundo como o conhecemos, e o nascimento de um outro, transformaram isso numa regra, a regra que balizaria a música pop daí pra diante.
Todo esse imenso nariz de cera é porque uma das bandas mais importantes daquela época, o New Order, acabou, como já abordei neste post, mas seu legado nunca será esquecido, e hoje a Europa é varrida pela onda indie dance, totalmente tributária do quarteto de Manchester. As bandas já não se limitam a fazer rock divertido pra dançar, como no britpop; injetam no próprio âmago de seu som os beats eletrônicos da dance music.
O rock teve o verão do amor em 1967, a música eletrônica teve o seu em 1989, com a explosão da acid house, e muita água passou debaixo dessa ponte. Hoje a ortodoxia é o sinal de morte de qualquer artista.
A minha banda indie dance preferida são os australianos do Cut Copy. Lançaram em abril o seu segundo disco, In Ghost Colours, um dos álbums mais fantásticos dos últimos anos. A geração MP3 talvez não saiba, mas “álbums” existem e podem ser um pacote completo de felicidade. Nada contra singles, três ou quatro minutos avassaladores tomando conta de uma cultura. Mas um álbum separa os homens dos meninos.
E com o Cut Copy esses meninos viram homens celebrando e fazendo festa. Um disco incrivelmente solar, incrivelmente pra cima, incrivelmente vontade de subir na mesa e pular e cantar junto.
É atualmente o único álbum que eu faço questão de escutar inteiro, do início ao fim, sem pular uma faixa sequer. Este procedimento é arriscado com 95% da música pop lançada hoje; não tente fazer isso em casa com qualquer um.
Já que falamos em New Order, não me digam que eles os imitam, porque uma coisa é imitar o clima, a ambiência de uma época, como faz a maioria das bandas do chamado “novo rock”, outra é emular o pop perfeito. Só se consegue isso… fazendo também pop perfeito. Melodias que parecem que nunca deixaram de estar em nossa mente: pra fazer isso não tem receita.
Reúna oito ou dez singles prontinhos pra serem prensados, três ou quatro vinhetas pontuando, e temos o melhor disco de 2008. Strangers in the Wind é só um dos motivos para você ouvir esse disco inteiro ainda hoje.
(clique para ouvir)
Strangers in the Wind
(Cut Copy)
These hands like strangers in the wind
These eyes float in the breeze
These hands like strangers in the wind
This voice calling to me
Run to the lights of the city
These moments pass and we’ll be there
(And she looks good)
Run to the lights of the city
(And she looks good)
This dance will last us forever
Forever
You could stay for what you came here for
A daze is what you’re falling for
Quem gosta de debater em fóruns online e curte cinema, quadrinhos, rock e jogos de computador, precisa conhecer o Joio. Na minha opinião, o melhor fórum de debates sobre cultura pop da internet brasileira.
Conheço o pessoal do fórum há muitos anos, virtualmente, desde o finado newsgroup do UOL, ainda na década de 90. Os debates são bem informados, mas totalmente irreverentes e politicamente incorretos.
Sob nicks estranhos tem gente que sabe do que está falando: Bennett é uma sumidade em quase todos os assuntos, e uma das grandes autoridades sobre direito e propriedade intelectual na internet. Quase Nada é simplesmente o melhor escritor sem blog que eu conheço, e ele mesmo é um personagem de ficção de primeira linha. Fábio Negro comenta em vários blogs legais e também escreve fantasticamente bem. Plague Rages é cineasta, jornalista e manda algumas matérias interessantes da Inglaterra.
Alguns assuntos rendem tópicos memoráveis, como a briga Nintendo Wii x Play Station 3, e o quebra-pau sobre a qualidade do último Indiana Jones, um tópico que ilustra bem o surrealismo a que chegam os debates lá.
Fica a dica. Dêem uma olhada na página inicial, com os destaques dos editores, e a página dos tópicos mais recentes. Ao contrário de certas comunidades no Orkut, que são casa da mãe Joana, o Joio tem uma política rígida contra flame wars (só pode fazer de mentirinha). Vejam o time de moderadores de lá… vai encarar?
Vamos combinar. Control, a aclamada cinebiografia do líder do Joy Division, Ian Curtis, é um abacaxi.
O diretor Anton Corbijn é um fotógrafo de primeira linha, e há belos enquadramentos ao longo do filme. Se fosse um livro de fotos seria perfeito; como dramaturgia é indigente.
A história do Joy Division, da Factory e da explosão da cena rock de Manchester é ótima e já rendeu uma obra prima (24 Hour Party People, ou A Festa Nunca Termina). Corbijn transformou-a num tedioso dramalhão familiar suburbano, dentro de quartos fechados, com personagens inexpressivos e péssima utilização da música.
Os momentos musicais são curtos e não se vê grande ligação entre as músicas do Joy Division e o personagem Ian Curtis; é como se não fosse ele que as tivesse composto. Nos momentos não-musicais os atores falam tão baixo e com tão pouca entonação que eu cogitei de Corbijn estar tirando uma de Robert Bresson…
Eu lembro bem da comoção que foi o lançamento dos discos do Joy no Brasil, no final dos anos 80. Em tempos pré-internet, eu e meus amigos tirávamos xerox de uma edição portuguesa das letras da banda, e pudemos nos assombrar com a profundidade lírica e existencial do jovem Curtis. Era um rapaz muito atormentado e desencantado com o mundo, e seu suicídio é coerente com sua obra.
Por isso é risível e ultrajante a insinuação de que ele se matou apenas porque tinha epilepsia, ou porque sua esposa não aceitou seus casos extraconjugais.
Bem, os links estão aí embaixo, vejam por si mesmos (o filme ainda não tem data de estréia no Brasil). Mas, se quiserem um retrato vívido e superdivertido da mesma história, não deixem de ver 24 Hour Party People. Esse sim, é indispensável.
“Shadowplay” foi regravada pelos Killers especialmente para a trilha sonora do filme. Clique para ouvir.
SHADOWPLAY
Autoria: Joy Division
Interpretação: The Killers
To the centre of the city where all roads meet, waiting for you
To the depths of the ocean where all hopes sank, searching for you
I was oving through the silence without motion, waiting for you
In a room without a window in the corner I found truth
In the shadowplay, acting out your own death, knowing no more
As the assassins all grouped in four lines, dancing on the floor
And with cold steel, odour on their bodies made a move to connect
I could only stare in disbelief as the crowds all left
I did everything, everything I wanted to
I let them use you for their own ends
To the centre of the city in the night, waiting for you
To the centre of the city in the night, waiting for you
Já disse antes que o Radiohead é a minha banda preferida, entre todas. Talvez não seja mais a número um; o Arcade Fire me conquistou com seus dois álbums impecáveis, perfeitos. Mas seguem tentando ser relevantes e fazer sentido num mundo tão desacostumado à coerência.
As surpresas em série envolvendo o lançamento de seu último disco, In Rainbows, foram tais que eu tive que atrasar esse post até conseguir digerir tudo. No dia 1º de outubro eu soube que o disco sairia no dia 10, sendo que as notícias anteriores indicavam ainda muitos meses de gestação.
Já se esperava que o lançamento seria desvinculado de qualquer gravadora, mas a possibilidade de escolher quanto pagar pelo download foi uma jogada de gênio, um tapa muito bem dado numa indústria fonográfica que acha que pode impunemente extorquir seus consumidores.
Paguei uma libra e meia pelo download, mesmo não precisando. Fiz questão de apoiar, com o meu dinheiro, uma iniciativa ousada como essa. Muitas pessoas pensaram como eu; só na pré-venda a banda arrecadou o equivalente a 20 milhões de reais.
E o disco… bem, esse é o problema.
Temo que os fatores extra-musicais estejam nublando um pouco a recepção dos fãs. Não é um disco excelente, apesar de produzido com muito bom gosto, e fugindo a certo experimentalismo vazio que fez eles lançarem algumas coisas chatas nos últimos anos.
Eu gosto da guinada artística do Radiohead. Acho Kid A um dos melhores discos de todos os tempos, e eu me lembro perfeitamente quando ouvi pela primeira vez Everything in Its Right Place. O século XXI estava como que começando pra mim, naquela ocasião; tudo parecia mais interessante e desafiador.
Mas eu não vejo excelência naquele disco a partir do que ele tem de estranho ou experimental; a surpresa pela mudança radical no som da banda persiste, mas o fundamental são as nove grandes canções, as harmonias cortantes, a fúria, o desespero e a melancolia que se alternam sem muita ordem. Rock cerebral uma pinóia.
Tentaram repetir a experiência em Amnesiac, mas uma safra menos inspirada de canções tornou o disco um objeto estranho. Some-se a isso a vontade deliberada de esconder algumas de suas melhores músicas (Cuttoth, Fog, The Amazing Sounds of Orgy) publicando-as apenas em singles e EPs de tiragem limitada ou sepultando-as em arranjos extraterrestes — é o caso de Like Splinning Plates, que no disco ao vivo tem um tom pungente e confessional ao piano, mas em Amnesiac ficou parecendo que a banda estava tocando dentro de uma câmara hiperbárica.
In Rainbows tenta, como o anterior, Hail to the Thief, o caminho do meio: blips e bloops eletrônicos + canções solenes ao estilo OK Computer. Eu achei mais ou menos; não vi aquelas melodias espantosas a que estou acostumado. É um disco coeso, agradável de ouvir, e com momentos de emoção; Thom Yorke continua cantando muito bem; mas não há nenhuma música que eu pense no primeiro segundo: uau! E é preciso amar as músicas desde o primeiro acorde.
Mas o disco tem sido tão unanimemente elogiado que eu mesmo desconfio da minha apreciação. Cada vez que eu o escuto, ele soa melhor, mas ainda não o suficiente. Não vou esperar semanas até que ele me pareça genial; prefiro publicar esse post e me livrar do assunto.
Você pode escutar abaixo All I Need, que tem sido escolhida por muitas rádios como faixa de trabalho não oficial do disco. É a que eu mais gosto, e tem um clímax épico que só não é perfeito porque acaba bem rapidinho.
Sou um grande fã de música eletrônica, e lembro exatamente do dia em que isso começou: ao ouvir pela primeira vez, nos idos de 1987, o clássico “Radioactivity”, do Krafktwerk, que mudou pra sempre a minha sensibilidade musical.
A ascensão do techno-rock, big beat e trip hop do final dos anos 90 levou a e-music para as massas, mas hoje, poucos anos depois, os principais expoentes do movimento mostram sinais de envelhecimento precoce.
Que mané Daft Punk. Que mané Chemical Brothers. A melhor banda eletrônica da atualidade é o duo sueco The Knife.
Os irmãos Karin e Olof Dreijer vêm construindo uma obra onde a aparente frieza dos sons artificiais é driblada por apuradas melodias, samples “orgânicos” e pelo extraordinário vocal de Karin.
É uma obra em movimento, desde o primeiro disco (2001), meio tosco e lo-fi, passando por “Deep Cuts” (2003) e seu pop ensolarado, até “Silent Shout” (2006), sofisticado, anti-comercial e bem dark.
Selecionei uma faixa de cada disco, pra dar uma idéia dessa evolução:
1. Parade
2. Heartbeats
3. Marble House
(clique no botão de play para ouvir)
“Deep Cuts” ganhou um Grammy, mas o Knife sabotou o prêmio, mandado duas mulheres vestidas de gorila (!) para recebê-lo. Várias letras têm um forte conteúdo político, e eles quase não dão entrevistas, não aparecem em seus próprios videoclipes, e em fotos e shows estão sempre vestidos com máscaras.
No entanto, Karin participou de cara limpa do belo vídeo de “What Else is There?”, sua colaboração com os conterrâneos do Röyksopp, e que tocou nas pistas de dança do mundo todo.
Outro momento de exposição foi o comercial do televisor Sony Bravia, que usou “Heartbeats” como trilha, numa cover acústica do também sueco José González. É um filme muito bonito e teve muita repercussão na Europa.
A última extravagância foi a turnê e DVD “Silent Shout, an Audiovisual Experience”, onde a banda apresenta novos arranjos para as músicas e usa uma impressionante colagem de vídeos e efeitos de luz contra-indicados para epilépticos — o que, tendo em vista as últimas turnês do Daft Punk e do Kraftwerk, também espetáculos cênicos e visuais, coloca o Knife de pleno direito no melhor da linha evolutiva da e-music.
O Sergio Leo ajudou a preencher uma parte do meu dia ontem, quando linkou esta linda matéria produzida pelo Washington Post e publicada pela revista Piauí com o nome “Pérolas aos poucos”. Não consegui tirá-la da cabeça depois.
Produzida é o termo correto, pois o jornal criou a notícia. Convidou o maior violinista da atualidade, Joshua Bell(foto), para empunhar seu violino Stradivarius de 1713 e tocar suas peças preferidas, icógnito, numa estação de metrô de Washington, a troco das moedas depositados pelos passantes.
A partir da reação do público, o autor faz interessantes reflexões sobre a “autenticação oficial” da grande arte junto ao público, a propensão das pessoas a novas experiências, o aprendizado da indiferença, etc. Leiam lá; são 8 páginas que valem a pena.
Uma catedral musical
A música que Bell escolheu para abrir e fechar sua performance, o quinto movimento (Ciacona, ou Chaconne) da Partita nº 2 em Ré Menor de J. S. Bach, é considerada uma das peças mais importantes da história, e a mais complexa e imponente partitura já escrita para um instrumento solo.
Você pode ouvi-la abaixo, na interpretação de Salvatore Accardo, gravada em 1976 (15:19 min).
(clique no botão de play para ouvir)
Minha relação com a música erudita é a de mero curioso. Vou a concertos, mas não sei identificar a importância de uma música; só sei dizer se gosto ou não. E é inegável que esta peça de Bach é muito bonita. Muito pungente; um tanto triste, lamentosa, mas um lamento altivo e solene.
Contemplação
Se eu visse um violinista de rua tocando tão bem, provavelmente pararia para assistir. Por isso, me permiti discordar de nossa maior referência em música erudita na blogolândia, Milton Ribeiro. Ele acha que o número de aficcionados em música erudita é tão pequeno que Bell seria ignorado em qualquer lugar do mundo.
Eu penso que a matéria do Post diz mais sobre o ritmo trepidante da vida moderna do que sobre a cultura do povo e seus conhecimentos sobre grande arte. E acho que esta pode sim se comunicar com o público não-iniciado, se ele tiver a oportunidade de assumir uma postura contemplativa.
Quando digo que pararia para assistir, não estou falando de uma hipotético usuário do metrô de Washington, mas de mim, Marcus Pessoa, que moro numa cidade sem metrô e sem músicos de rua, e tenho o hábito de sempre andar devagar e contemplando as coisas, inclusive a arquitetura barroca de minha própria cidade, como se fosse turista.
Uma das entrevistadas pelo Post, a engraxate Edna Souza, disse que se Bell tocasse na rua, no Brasil, todo mundo pararia. Eu tenho certeza que se fosse em Belém parariam mesmo, ao menos pelo inusitado da coisa. Bem diferente é pensar num habitante da uma metrópole, passando por mais um entre tantos músicos de rua, na entrada de uma agitada estação de metrô.
Toda vez que vou a São Paulo me espanto com as pessoas andando sempre apressadas, sem olhar para os lados. Não dá pra explicar só pelas distâncias e jornadas de trabalho esdrúxulas; é um estado de espírito mesmo.
O repórter do Post nos confirma o que já sabemos desde Saint-Exupéry: as crianças são as únicas que olham para os lados, que se interessam pela paisagem e o que ela tem a oferecer.
Elas não precisam conhecer a grande arte para se maravilhar com ela. Se as grandes cidades fossem espaços menos inóspitos, os adultos talvez pudessem sair de vez em quando de sua matrix particular e ser tocados por esse mesmo maravilhamento.
Em uma cena de Notas sobre um Escândalo, Steven, o amante adolescente de Sheba (Cate Blanchett), pega uma cópia em vinil do Kaleidoscope, de Siouxsie and the Banshees, e pergunta, “é bom?”
Sheba responde: “é uma obra prima. Não te ensinam essas coisas?“.
E eu fico pensando que aqueles que testemunharam a última revolução do rock (o pós-punk) já estão nos quarenta ou quase. E fico tentado a concordar com o Gaspar Noé, que o tempo destrói tudo. Depois fico achando a frase idiota, e que quem destrói tudo somos nós. E depois volto a pensar no quanto é reconfortante essa coisa de que havia um paraíso e nós o perdemos. Porque pelo menos existiu um paraíso algum dia. E não faz a menor diferença que isso não seja verdade.
Steven e seus coleguinhas, é claro, não sabem nada a respeito, mas talvez nem precisem. Vivem numa década onde a melancolia ácida daqueles tempos está sendo revisitada por uma nova geração de bandas de rock. O mundo está numa deprê coletiva, e pra mim quem melhor expressa esse zeitgeist são o Interpol e os Editors, cujos discos novos estão pra ser lançados, quase ao mesmo tempo.
A julgar pela primeira música de trabalho de cada um, os ingleses levaram a melhor. A faixa do Interpol é forte mas tem um certo sabor de autoplágio. Já os Editors compuseram uma obra prima de romantismo como nunca tinham feito antes; um crescendo magnífico que te deixa num estado bobo de contentamento.
Julguem por vocês mesmos:
1. Interpol - The Heinrich Maneuver
2. Editors - Smokers Outside of the Hospital Doors
Jorge de Anicii, o Cavaleiro de Cristo, descansa permanentemente em lugar de honra na minha mesa de trabalho, com sua pose mais gloriosa.
Dona Amparo, sabendo-me devoto do santo, e tendo conhecimento de que o devoto não deve comprar a imagem, mas ganhá-la de presente, trouxe-me-a de uma viagem a Aparecida. Tenho uma outra, maior, presente de um amigo, mas ainda não pude buscá-la.
Hoje, 23 de abril, é o dia de São Jorge. O santo guerreiro teria morrido há exatamente 1.704 anos, mas… a verdade histórica é o que menos importa, baby. Não se faça de bobo acreditando na infinidade de lendas sobre ele.
Pense no que ele representa no coração das pessoas; isso sim é importante. O espírito indômito. O inconformismo contra as injustiças. A coragem de enfrentar os poderosos. A força, a elegância, a graça.
Prestar esse louvor não faz de ninguém carola ou cúmplice de uma igreja corrupta. Jorge foi entronizado pelo povo e não por uma malta de bispos. Caso único na história.
Padroeiro de tantas cidades e países, é amado na Catalunha, e uma experiência inesquecível foi estar num 23 de abril desses na festa de Sant Jordi(seu nome catalão) em Barcelona.
Como homem sábio que era, Jordi patrocina também a cultura, e por ter salvo sua amada do dragão, abençoa o amor romântico. Na Catalunha seu dia é também o dia do livro e o dia dos namorados, e todos se dão livros e rosas de presente.
As vias públicas da bela capital ficam abarrotadas de banquinhas vendendo os presentes, que em tempos menos afeitos à igualdade sexual eram mais específicos: as moças ganhavam as rosas, e os rapazes os livros. Como já se sabe que elas não são imunes à inteligência e nem eles ao amor, ganham-nos hoje indistintamente.
Naquele 23 de abril, dei dois livros e ganhei um, que guardo até hoje (La ciudad de los prodigios, de Eduardo Mendonza); dei uma rosa e ganhei duas. Fui às missas e aos folguedos, e tenho me sentido, sempre, vestido e armado com as armas de Jorge. Vendo facas e lanças se quebrarem antes de chegar a mim, e sabendo que ninguém nem em pensamento pode me fazer mal.
Jorge da Capadócia (Jorge Ben)
(clique no botão de play para ouvir)
Jorge sentou praça na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem
Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo, meu corpo não alcançarão
Espadas, facas e lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia, viva Jorge
Jorge é de Capadócia, salve Jorge
Perseverança ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
(a letra da música é uma adaptação da oração do santo)
[atualizado] Por mais que o Klein diga que se trata de uma questão de cidadania comentar o caso Vacarelli, eu já me sinto contemplado pelo post dele e os do Cardoso, Solon, Phelipe, Mary, Träsel, Cam e Inagaki. Abram os links e terão tudo o que precisam. Se eu fosse dizer o que realmente penso, iria desagradar às minhas amigas feministas com argumentos politicamente incorretíssimos.
Por outro lado, fico feliz que a burrice de todos os envolvidos nesse episódio vai se voltar contra eles, num repúdio veemente dos usuários de internet brasileiros. Parabéns, Vacarelli, você acabou de perder milhares de reais em cachês e patrocínios. É a verdadeira vingança dos nerds.
Mudando de assunto: descobri uma fonte com dezenas de discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 80, e estou há dias me deliciando com coisas que eu não escutava desde que comprei meu primeiro aparelho de som só com CD, lá por volta de 1993.
(É, eu tenho essas maluquices, do tipo dar toda a minha coleção de discos de vinil para os meus amigos. Praticar o desapego é exercício fundamental pra eu não pirar de vez em quando).
Assim que eu desbravar mais o tesouro, vou passar o mapa da mina pra vocês. A música abaixo, da banda Fellini, é uma das mais bonitas daquela época. Cadão Volpato é um grande letrista, e essa música é tudo o que eu preciso pra entender o senso de inadequação e perda que sentem algumas pessoas longe de casa.
Tenho uma prima muito querida que está batalhando a sobrevivência na Inglaterra, depois de várias tentativas frustradas aqui no Brasil. Ela poderia ter ido ao Japão apertar parafusos, feito um bom dinheiro e voltado, mas não, ela não quer viver em guetos, quer fazer parte do lugar onde está. Ela sonha com uma sociedade realmente multicultural.
OK, minha linda, mas se as coisas não forem exatamente assim, se não estiver dando certo, escute o que eu digo. Please, come back.
(não é possível escutar a música pelo feed)
TEU INGLÊS
Washington acha engraçado o teu inglês? Please, come back
Se o mundo explodir em pedaços outra vez Please, come back
Eu só vejo o Oeste selvagem na TV Please, come back
E passeio no aeroporto sem ninguém Please, come back
PS: o principal parceiro de Volpato no Fellini, Thomas Pappon, formou depois a banda The Gilbertos, citada neste post.
Atualização: a Ciscarelli falou ao Jornal da Globo de hoje dizendo que não apóia a censura, e que o processo foi movido pelo homem-samamb… ops, pelo namorado dela. Mentirosa. O Cardosorevelou que ela está sim se enganou dizendo que ela estava entre os autores do processo (via Papel Pop).
Existe uma lei no mercado musical que diz que as pessoas aprendem na juventude a gostar daquilo que ouvirão pelo resto da vida. Ficam “prisioneiros” de um estilo.
Mas nem todo mundo é assim. O jornalista e DJ Tom Leão conta num belíssimo texto a patrulha que sofreu por abraçar, sucessivamente, o punk rock, os Smiths e a música eletrônica. Eu concordo integralmente com a crítica que ele faz às pessoas que deixam as pedras pararem de rolar e criarem limo.
O Tom escrevia na revista Bizz, devidamente desancada, en passant, pelo Rafael num post sobre a edição brasileira da Rolling Stone. O problema é que a Bizz foi a melhor revista de música dos últimos tempos, e a crítica do Rafael reflete, no fundo, o conservadorismo expresso na tal lei de mercado.
Afinal, a Bizz dava muito espaço a bandas iniciantes e pouco conhecidas. Ela fazia apostas: perdia algumas, ganhava outras. E o tempo todo tinha leitores chatos reclamando do espaço dado aos artistas independentes. É o mesmo pessoal que escuta U2 até hoje, ainda que esteja uma porcaria. Que elogia Bob Dylan até quando ele faz um disco ruim como o desse ano. Que não consegue desgrudar dos Beatles, mortos há tempos.
Tive todos os discos do U2, do primeiro (Boy) ao nono (Pop). E no entanto eu não escuto mais, não só os novos, que são medíocres, como também os antigos, que têm um lugar no meu coração, mas são passado. E quem vive de passado, etc.
O resultado é que fico constantemente prestando atenção em artistas “fora do esquema”, que fazem um trabalho melhor do que esses medalhões chafurdando em fórmulas batidas…
Cold War Kids
(não é possível ouvir as músicas pelo feed)
Banda californiana que faz uma música densa e surpreendente. A guitarra às vezes é limpinha como as guitarras de blues, mas quase não tem blues. O piano é onipresente e se presta a brincadeiras atonais. E o vocal tem muita personalidade. O álbum de estréia não é perfeito, mas tem momento apaixonantes.
Peter, Bjorn and John
O trio sueco já está no terceiro disco, mas alcança agora uma certa notoriedade por causa de uma música (Young Folks) tão assobiável que… começa com um assobio. Pop grudento, ensolarado, e ao mesmo tempo contido, lo-fi, que às vezes parece algumas coisas do início do New Order, ou o indie-pop do Postal Service.
Imogen Heap
Imogen é uma cantora inglesa, que já participou do grupo Frou Frou, e neste seu segundo disco solo mescla músicas lentas, rarefeitas, com um pop eletrônico de qualidade. Faz um uso privilegiado de sua bela voz, lembrando eventualmente Cocteau Twins ou Dead Can Dance. E não me falem de Enya, por favor, que eu infarto!
Este post não tem nenhum propósito especial, a não ser mostrar essa linda versão que a banda Editors (já comentada antes aqui) fez do mega-sucesso dos Gorillaz, Feel Good Inc. A música foi gravada em um especial de rádio e não foi lançada em nenhum disco.
Os Editors, assim como o Placebo, gostam de fazer covers. Além desta, gravaram uma versão magistral de French Disko, do Stereolab, e duas outras (menos inspiradas) de R.E.M. e Talking Heads. O disco de estréia dos Editors e mais um monte de faixas lançadas em compactos estão disponíveis no Arquivo M.
A propósito: parece que os Gorillaz acabaram, o que é uma pena. Damon Albarn, líder do Blur e criador da banda virtual, está mais interessado em outras propostas. Sua nova banda paralela, The Good, the Bad and the Queen, investe no rock psicodélico, já visitado pelo Blur no subestimado álbum 13.
O último videoclipe dos Gorillaz, El Mañana, é tristíssimo e mostra a morte de Noodle, a única menina entre os integrantes virtuais. A banda não fará novas músicas, mas há a possibilidade de um filme de longa metragem dirigido por Terry Gilliam.
The Killers fizeram, na minha opinião, o melhor disco de 2004. Hot Fuss colocou de volta ao topo o power rock estiloso, com um pé na pista de dança e uma impressionante massa sonora de teclados e guitarras. Rock “tela grande”, pra ouvir bem alto.
Mas parece que o sucesso e o reconhecimento subiram à cabeça da banda. Brandon Flowers foi convidado pra fazer dueto com a Besta de Óculos Escuros e deve ter se achado muito importante. Começou a distribuir críticas e conselhos para seus colegas de profissão, via imprensa. A última foi dizer que tipo de músicaThom Yorke (!) deveria escrever.
No dia em que o Brandon fizer um disco que sequer se aproxime de The Bends, eu até escuto o que ele tem a dizer sobre o estado das coisas do rock…
Sam’s Town, muito antes de ser lançado, já se mostrava como um projeto milimetricamente planejado para emular a “descoberta da América profunda” feita pelo U2 no excepcional The Joshua Tree. Não que os discos sejam parecidos, mas o “conceito” é idêntico. Brandon deu uma longa entrevista ao site da MTV tecendo loas a Bruce Springsteen e a uma América escondida nos desvãos de seu imenso território.
O vídeo da primeira música de trabalho, When You Were Young, mostra os Killers num vilarejo pobre da fronteira com o México, de barba e cabelos desgrenhados. Mas não se enganem, amigos, as barbas e cabelos fora de moda não são fruto de desleixo, e devem ter sido criados por competentes hair stylists. Eles não são mais apenas quatro rapazes de Las Vegas, eles querem fazer “arte”.
O resultado é que… o disco é bem chatinho, comparado ao primeiro. When You Were Young é ótima, uma das melhores músicas do ano, mas o resto é decepcionante. The Killers encaretaram; não vejo aquele frescor, aquele descompromisso, e o flerte com a dance music e a androginia que havia no primeiro. Sim, o disco é completamente focado nos anos 80, lembra nitidamente U2, Simple Minds, Duran Duran, etc, mas é sério, carrancudo, quer passar uma “mensagem”. E não tem canções à altura do que se espera deles.
Julguem por si mesmos. O engraçado é que a segunda melhor música, Where the White Boys Dance, está disponível só na edição japonesa e como lado B do single em vinil (!) da faixa de trabalho. Vai entender.