Surgiu uma questão interessante a partir de um comentário que eu fiz neste post do Solon, onde ele falava do FriendFeed, um novo serviço que permite você reunir em um só lugar suas postagens em diversos sites diferentes (blogs, Flickr, StumbleUpon, etc).
Eu senti falta de uma explicação de por que o site é interessante, e ele respondeu que há muita informação sobre o assunto na internet.
É verdade, mas o barato dos blogs é se informar através deles, porque não temos tempo de ler tanta notícia e os blogs refinam isso. Faço um controle rigoroso dos feeds assinados no Google Reader, pra não ficar com coisa em excesso pra ler, e ter só os mais relevantes na lista.
Quando vou escrever, parto do princípio que uma parte dos assinantes do meu próprio feed não conhece ou não tem uma opinião sobre o assunto tratado, então sempre faço um lead ou um pequeno resumo introdutório.
O Solon admite que não gosta muito de fazer resumos (e ele tem todo o direito de não gostar), mas eu acho que é a partir deles que a gente consegue interessar o leitor. Se ele tiver que ler vários links para ficar minimamente informado, talvez simplesmente não tenha tempo pra isso.
A Mozilla lançou hoje a versão 3.0 do Firefox. É hora de ir lá e pegar sua cópia do melhor navegador da internet. Os downloads feitos até as 14 horas de amanhã, 18 de junho (horário de Brasília), contarão para que o Firefox bata o recorde mundial de downloads feitos em um único dia.
Este blog sempre apoiou o Firefox, e o faz não só porque é um ótimo programa, mas porque ele evolui pensando em seus usuários, em suas necessidades mais importantes. A versão 3 não é diferente, embora a evolução desta vez seja ainda mais notável.
Ao contrário do Internet Explorer 7, que fez confusas alterações em sua interface, o Firefox 3 mantém o arranjo tradicional de ícones e barras para, nas internas, incluir mudanças profundas e recursos nunca antes vistos.
O site oficial tem um guia ilustrado de todas as novidades, mas, se eu tivesse que pegar apenas uma para convencê-lo de que o Firefox 3 é um novo paradigma, eu destacaria a nova barra de endereço.
Digitar um endereço é a ação mais popular entre os usuários, e o Firefox 3 torna muito mais fácil encontrar o que se deseja, porque, enquanto se digita, o programa oferece opções baseadas não só no endereço como no título das páginas arquivadas no Histórico e Favoritos, e as primeiras opções da lista são as consideradas mais relevantes para o usuário.
O conceito de “relevância” é o que fez o Google tornar-se o site de buscas padrão no mundo, e a barra do Firefox 3 (já apelidada de “awesome bar” pelos fãs) faz com que o usuário, ao digitar o endereço, esteja na verdade fazendo uma busca no que visitou nos últimos 90 dias, podendo inclusive usar várias palavras ao mesmo tempo.
As outras mudanças também são nos módulos mais populares. Agora é possível interromper e reiniciar downloads; adicionar favoritos com apenas um clique; memorizar senhas após o login bem sucedido; e muito mais. Vejam lá no guia oficial; o site IDG Now também fez um estudo detalhado das novas funções.
Talvez eu faça posts explicando os vários recursos, se os leitores tiverem paciência e eu, disposição. O que importante dizer agora é que a Mozilla faz as mudanças levando em conta as necessidades dos usuários, e não planos mirabolantes de marketing, como os da Microsoft, que parece querer reinventar a roda todos os anos.
O Internet Explorer 7 sumiu com menus, mudou os ícones de lugar, e não permite ao usuário ajustar a interface como bem entender (ao contrário do Firefox). Todas as vezes que sou obrigado a usá-lo e fico procurando que nem um idiota o botão de reload, rogo praga para as últimas sete gerações da família Gates.
O Firefox é um produto feito por nós. Quem usa percebe: as mudanças mais importantes são exatamente aquelas que precisamos, não as que a empresa quer nos enfiar goela abaixo. A Mozilla ouve quem usa o programa, faz testes de usabilidade, e foca sempre no usuário comum, pois são esses milhões que vão fazer a diferença na hora de reconquistar a web das mãos de quem a roubou.
Nós, os usuários, vamos ganhar a guerra dos browsers. A nova profecia do Livro de Mozilla confirma:
Mamon adormeceu. E o renascimento da criatura disseminou-se pela terra e seus seguidores tornaram-se exércitos.
E eles apregoaram a mensagem e sacrificaram lavouras com fogo, com a astúcia das raposas. E eles criaram um novo mundo à sua imagem e semelhança conforme prometido pelo texto sagrado e contaram da criatura para suas crianças.
Mamon despertou e, veja só, nada mais era do que um discípulo.
Quem gosta de debater em fóruns online e curte cinema, quadrinhos, rock e jogos de computador, precisa conhecer o Joio. Na minha opinião, o melhor fórum de debates sobre cultura pop da internet brasileira.
Conheço o pessoal do fórum há muitos anos, virtualmente, desde o finado newsgroup do UOL, ainda na década de 90. Os debates são bem informados, mas totalmente irreverentes e politicamente incorretos.
Sob nicks estranhos tem gente que sabe do que está falando: Bennett é uma sumidade em quase todos os assuntos, e uma das grandes autoridades sobre direito e propriedade intelectual na internet. Quase Nada é simplesmente o melhor escritor sem blog que eu conheço, e ele mesmo é um personagem de ficção de primeira linha. Fábio Negro comenta em vários blogs legais e também escreve fantasticamente bem. Plague Rages é cineasta, jornalista e manda algumas matérias interessantes da Inglaterra.
Alguns assuntos rendem tópicos memoráveis, como a briga Nintendo Wii x Play Station 3, e o quebra-pau sobre a qualidade do último Indiana Jones, um tópico que ilustra bem o surrealismo a que chegam os debates lá.
Fica a dica. Dêem uma olhada na página inicial, com os destaques dos editores, e a página dos tópicos mais recentes. Ao contrário de certas comunidades no Orkut, que são casa da mãe Joana, o Joio tem uma política rígida contra flame wars (só pode fazer de mentirinha). Vejam o time de moderadores de lá… vai encarar?
Será lançada nas próximas semanas a versão 3.0 do navegador Mozilla Firefox, e a comunidade Mozilla quer colocá-lo no livro Guiness dos recordes. Queremos que o Firefox bata o recorde de maior número de downloads num período de 24 horas, e por isso estamos promovendo o Download Day 2008.
O procedimento é simples: você, interessado na nova versão do Firefox, clica no link, inscreve seu e-mail na lista e, no dia de lançamento (ainda não divulgado) você receberá um e-mail avisando, e poderá (junto com milhões de outros usuários) conhecer em primeira mão os novos recursos do melhor navegador de internet.
Já estou usando um pré-release desta versão, e posso garantir que as novidades deixam a navegação na internet muito mais rápida, agradável e intuitiva. Falarei sobre elas quando for lançada a versão final.
Vai, clica lá. Se você ainda não adotou o Firefox, é mais uma chance de comparar e ver o quanto ele evoluiu.
Como muitos de vocês devem saber, a revista Veja está sendo dissecada pelo Luis Nassif em uma série de artigos brilhantes, que mostram como ela publica informações deliberadamente falsas para atingir inimigos, em nome de escusos interesses comerciais.
Mostrar que a Veja não é um órgão de imprensa, mas um pasquim de difamação, é uma tarefa que transcende questões políticas ou ideológicas. A Veja não é ruim porque defende esta ou aquela idéia, mas porque dá ares de verdade a mentiras cuidadosamente fabricadas.
O dossiê do Nassif é o exemplo mais bem acabado de jornalismo independente, investigativo e crítico. Nenhum órgão de imprensa teria coragem de publicá-lo, por isso ele está numa página gratuita e conta apenas conosco, que acreditamos em informação dada com honestidade, para divulgá-lo.
Como você deve reparado, os links deste post não dão para o site da revista, mas para o dossiê. Isso chama-se google bombing, e este post é uma adesão à campanha do Bender Blog. Você que tem um blog ou apenas posta em fóruns abertos, e quiser ajudar, basta fazer um link com a palavra Veja e colocar como destino o endereço:
http://luis.nassif.googlepages.com
Se tudo der certo, o usuário que buscar por Veja no Google achará o dossiê do Nassif entre as primeiros resultados.
Fiquei sabendo hoje de manhã, quando fui checar os feeds atualizados: o Google Reader está agora com interface totalmente em português.
Se você não sabe o que são feeds, leia essa explicação do Revolução Etc. Eu escrevi em 2006 um post sobre o assunto, hoje um tanto ultrapassado. Na época eu estava usando o Bloglines, mas há algum tempo estou no Google Reader, que é bem mais prático e tem mais recursos.
A principal vantagem é que você checa os feeds mais ou menos como se estivesse checando e-mails (a interface é parecidíssima com o Gmail). A dona Amparo certa vez me viu lendo os feeds e comentou que “eu recebo um monte de e-mail por dia”…
E também tem algumas coisas legais, como busca no conteúdo dos feeds (claro, é do Google), estatísticas de leitura (”Tendências”) e a possibilidade de selecionar posts interessantes para leitura externa (”Itens compartilhados”). Ele é um pouco mais lento que o Bloglines, porque “puxa” mais informação de cada vez, mas, para quem usa conexão discada, ele tem o recurso de baixar os últimos posts para leitura offline. Recurso, aliás, que eu não vi na versão em português, mas deve estar disponível em breve.
Eu acho bem mais interessante acompanhar feeds através de um site e não dos recursos embutidos no navegador. O Firefox permite adicionar facilmente qualquer feed ao Google Reader (e também ao Bloglines), bastante clicar no ícone laranjado ao lado do endereço do site. O Internet Explorer e o Opera ainda não têm esse recurso.
P. estava demorando. Tínhamos que pegar o computador da mãe dele no conserto, mas ele estava na locadora ao lado escolhendo filmes. Fui lá apressar.
Cenário de puro tédio. P. ia de prateleira em prateleira desanimado. Pegava uma capa de DVD, lia sem muito interesse e colocava de novo no lugar. Eu dizia “pega esse”, e ele “já vi”. “E esse?”. “Também”.
Finalmente conseguimos escolher e fomos embora. E eu fiquei me lembrando de mim mesmo, há uns tempos atrás, fazendo a mesma coisa, entediado, sem saber o que levar pra casa. Tempos que não voltam mais.
Comprei há alguns meses um aparelho de DVD que lê arquivos nos formatos DivX / XviD, que armazenam com boa qualidade um filme de longa metragem num mísero CD de 700 megabytes. E desde então tornou-se rotina pra mim ver, todos os dias, filmes novos que demorarão bastante pra chegar no deficiente mercado brasileiro, ou mesmo clássicos que nunca apareceram em DVD por aqui.
O filme demora poucas horas pra ser baixado na internet, e depois eu o gravo num CD ou DVD-RW, junto com um pequeno arquivo de texto com as legendas, e vejo no televisor da sala.
Pirataria? Acho discutível usar este termo. Se eu quisesse ver pelas vias normais o belo Guide to Recognizing Your Saints(foto), eu não poderia, porque ele não foi lançado no Brasil e nem tem previsão.
Eu até poderia gastar uns cem reais (incluindo frete e impostos) para trazê-lo dos EUA, mas, sem legendas em português, minha mãe e meu irmão caçula, que não lêem em outras línguas, não poderiam aproveitar tão caro presente. Já o meu ótimo arquivo baixado na internet tem legendas traduzidas gratuitamente pelos santos do Legendas.tv.
Já não sinto mais tédio. Há uma filmoteca inteira ao alcance das minhas teclas. A Tina me indicou há algum tempo um filme antigo do Louis Malle, Le Souffle au Coeur, e no dia seguinte eu o estava vendo aqui. Esta obra prima nunca saiu em DVD no Brasil.
Tenho feito algumas seqüências exploratórias. Meu xodó recente é o cinema alemão. Vi a adaptação de O Jovem Törless, tão boa que me deu vontade de reler o romance de Robert Musil, já visitado na juventude sem a devida atenção.
Ir a uma sala de cinema é muito raro, pois cada vez mais os cinemas de Belém só passam os blockbusters da vez, sem espaço para algo diferente. O Renmero falou sobre isso neste post.
De qualquer forma, não tenho feito outra coisa no meu tempo livre além de ver filmes. É capaz disso aqui virar um blog de resenhas de cinema. Não se espantem se o Velho do Farol estiver sempre ocupado na frente da TV e não estiver nem aí para os navios que estão passando ao largo.
Nunca fui fã de bate-papo pela internet, e quando tive que me render a ele, preferi adotar um programa simples e leve. Fico um tanto incomodado com a tranqueira brega do Windows Live Messenger e seus badulaques inúteis que sugam os recursos do computador.
O Pidgin é antigo Gaim, um comunicador de código aberto que roda em Windows e Linux e conecta em uma grande variedade de redes de chat, entre elas a MSN, o IRC e o Google Talk. Ele chega agora à versão 2.0 e se mostra um programa maduro e de fácil utilização.
O Google Talk ganhou uma certa popularidade graças à integração ao Orkut e ao Gmail. Alguns amigos que passam o dia em suas respectivas senzalas — que não permitem a instalação de comunicadores — falam com o mundo exterior através do bate-papo do Gmail, que nada mais é do que o Google Talk integrado à página. Para instalá-lo no Pidgin, basta seguir a explicação do Google.
Eu uso as duas redes (MSN e Google) simultaneamente, e meus contatos ficam organizados numa lista única. A janela de conversas também é uma só, e quando estou falando com vários contatos ao mesmo tempo, eles aparecem em abas.
O Pidgin tem correção ortográfica e um recurso muito útil: eu posso ver se aquele contato no MSN com quem eu não falo há um tempão ainda me tem na lista dele — facilmente e sem ter que recorrer a esses sites que tem por aí.
O programa tem algumas limitações, e a principal delas é a ausência de conexão por áudio e vídeo. Existe um projeto paralelo para adicionar esse recurso, mas não esperem isso para breve. Ele também não avisa da chegada de e-mails.
De outras limitações eu gosto: ele até recebe aquelas imagens animadas pentelhas que os usuários do MSN tanto gostam de usar como ícones, mas não permite salvá-las em seu próprio arquivo. Também não funciona aquela coisa inútil, os winks.
Até o momento, tem satisfeito plenamente as minhas necessidades.
A Andrea perguntou sobre o assunto numa caixa de comentários e eu mandei-lhe um e-mail explicando a questão, mas como interessa a todos (e não apenas aos nerds de carteirinha) vou falar sobre isso aqui. É o tal negócio: para alguns isso é carne-de-vaca, pra outros é novidade total.
Feed é um arquivo que funciona como índice do conteúdo de um site. É um formato padronizado, e você pode “assinar” o feed com um programa ou site específico, sendo avisado quando o conteúdo for atualizado.
Algumas pessoas chamam de RSS, mas o RSS é apenas um dos formatos de feeds — existem outros, como o Atom, usado aqui no Blogspot. Mas isso são detalhes. O importante é que os feeds são a melhor forma de organizar o conteúdo que você lê na web.
O feed do Velho do Farol é esse aqui (está linkado na barra lateral, através do ícone laranjado). Abri-lo no navegador não vai mostrar muita coisa; bom mesmo é aprender como usá-lo.
Para assinar e gerenciar feeds, usamos os agregadores de conteúdo. Existem vários disponíveis, mas, para facilitar a vida do neófito, vou apresentar o mais popular e amigável deles, o Bloglines.
Ele tem uma interface bem simples e prática. Você abre uma conta (gratuita), clica em My Feeds e já pode ir adicionando seus favoritos. No painel esquerdo aparecem os feeds, e em negrito aqueles que foram atualizados. No painel direito, o conteúdo ou resumo dos posts ou notícias. Para vê-lo em ação, clique aqui e dê uma olhada nos feeds que eu estou assinando no momento.
Para achar o feed do seu blog favorito você tem duas opções. Uma delas é procurar na barra lateral deste por “RSS”, “Atom”, “XML”, “Syndicate this file” ou coisa que o valha; esse é o link para o feed. A outra é usar o Firefox ou o Opera, que avisam automaticamente quando existe um feed no site visitado.
O Internet Explorer 7 vai ter detecção automática de feeds, e vai usar o mesmo ícone que o Firefox já usa. Portanto, se você vir em algum lugar o simpático ícone que ilustra esse post, já sabe de que se trata.
Eu particularmente recomendo o uso do Firefox em conjunto com a extensão LiveLines, que com apenas um clique permite assinar o feed no Bloglines a partir da própria página que eu quer incluir. Mão na roda para quem é adicto por blogs novos…
Um último recado: o Blogger tem o recurso de feeds há um tempão, então não dá pros coleguinhas que têm seus blogs hospedados aqui deixarem de usá-lo. É muito simples de habilitar, basta ir no Painel, em Definições, Site Feed, e responder “sim” à primeira opção. A Daniela, por exemplo, tem um ótimo blog, que eu não acompanho com a devida atenção, pela falta desse recurso básico.
É claro que sei que você, ilustre leitor, só usa programas/serviços peer-to-peer para caçar e redistribuir programas livres/open source/freeware, os ebooks que você mesmo escreveu e as músicas que Lobão liberou há anos e anos. Dessa forma, já experimentou as grandes redes de troca-troca…
Hehehehehe.
Pode parecer incrível para muita gente, mas houve uma época em que não existiam programas de troca de arquivos. É isso mesmo! Para baixar músicas (com as conexões da época, impossível pensar em filmes), devíamos navegar por sites de MP3 que disponibilizavam sempre os mesmos links — quase sempre de bandas que estavam no playlist atual da MTV. Mas existiam exceções, pois podíamos armazenar nossos próprios arquivos MP3 em servidores gratuitos sem limite de armazenagem. Sim, não pense que é mentira! A bolha não tinha estourado, a RIAA não tinha se descabelado, e ainda era possível fazer uma piratariazinha inocente e jogar a conta para as pontocom.
Todo esse nariz de cera é desculpa para postar um texto meu antigo, que foi publicado em 1999 em meu próprio site de MP3. Com um pedantismo um tanto ignóbil, eu não me limitava a disponibilizar as músicas — tinha que escrever um texto “profundo” sobre a música ou artista em questão. Em meu favor, pode-se dizer que não existiam esses ótimossitessobreculturapop de hoje, e parecia inovador um site de MP3 que não tivesse “apenas” MP3.
O artigo abaixo é resultado de minha surpresa frente à magnífica cover de “Samba Makossa”, de Chico Science, gravada pelo Planet Hemp. É arrogante, desinformado e meio tolo. Mas veio de meu amor genuíno pela música. Um James Carville pop me mandaria esquecer da política: “é a música, estúpido”…
Planet Hemp - Samba Makossa
(clique no botão de play para ouvir)
Esta música foi lançada originalmente no primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos”. Após a morte de Chico, o Planet Hemp fez essa cover, apresentada pela primeira vez no Heineken Concerts de 1997, em um show onde Liminha foi anfitrião e convidou vários artistas produzidos por ele. A versão saiu depois não em disco do Planet, mas em “CSNZ”, primeiro disco da Nação Zumbi sem seu líder.
Em sua curta carreira, Chico Science apontou caminhos interessantes para o rock brasileiro, e também tocou em alguns nervos expostos do imaginário nacional, ao chutar para o alto a idéia de “nação cordial” destinada a um “futuro radioso” no panorama mundial.
A sua temática é outra: um país afundado até os joelhos na lama, lutando ingloriamente por uma identidade própria, e também com cada um lutando por sua sobrevivência a qualquer preço, num caldo de cultura parecido com o mangue tão falado.
Ao recusar as parabólicas convencionais e preferir enterrar a sua na lama, Chico estava dando uma pista que o identifica com a antropofagia de Oswald de Andrade: não podemos recusar o que vem de fora, mas não podemos aceitar do jeito que vem, que isso ainda vai nos matar. Pode ser um pouco confuso, e a crítica ao Manifesto Antropofágico já foi feita por gente bem melhor do que eu. Mas, sem dúvida, nosso estado de nação periféria e ao mesmo tempo aspirante a colosso da humanidade torna difícil qualquer tentativa cartesiana de interpretar este país.
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O Brasil é um lugar absurdo. Onde Sérgios Nayas podem ficar passeando à vontade na ponte aérea Rio / Miami, mas o Planet Hemp pode ser preso por dizer que fuma maconha. O Brasil é um país mestiço em que parte da elite se imagina branca e européia. E o Brasil também é um país “europeu” que quer ser eternamente visto como aquele primo exótico, pouco sério, habitado pelos “mulatos inzoneiros” imortalizados por Ari Barroso.
Jorge Luís Borges, argentino mas britânico de coração, disse certa vez que a América Latina não existe. O Brasil é parte da América Latina e… desculpem, mas o Brasil também não existe. É uma ficção, criada justamente para que não nos tornemos uma nação de verdade. Para justificar um passado de opressão e alienação. Somos um povo “alegre” porque nos esquecemos dos motivos para sermos tristes…
O cantor Nick Cave, australiano de nascimento, morou alguns meses no Brasil e disse que não entendia como as pessoas fingiam tanto ser alegres. Perguntavam para ele “como alguém tão triste podia viver no Brasil”, e ele ria, respondendo que o Brasil era o país mais triste que ele tinha conhecido!
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Chico Science não era realmente um grande compositor, mas tinha a percepção exata do zeitgeist tupiniquim, uma visão adiantada sobre o que, enfim, esse país precisa. Não de uma “carnavalização” eterna, uma “jorgeamadização” de sua cultura, mas da percepção direta de seu espírito trágico, de sua história de pilhagem e destruição, e de suas (outras) possibilidades enquanto nação jovem e pobre.
Vejam essa bela música: o malungo que pega a bronca por ter chegado atrasado à roda de samba não tem nada a ver com o mulato inzoneiro daquela outra (”Aquarela do Brasil”). Ser do samba não é um traço de cordialidade ou alegria… na verdade, tocar o pandeiro é manter-se inteiro, como diz a letra. Manter-se sendo o que é, sob pena de morrer, ou pior, se desgraçar. Só assim é possível entender o samba e toda a resistência dos negros para manter suas raízes, apesar da repressão dos brancos.
Chico queria pensar essas coisas todas (assim como seu ex-companheiro Otto, que “pensa muito, todos os dias”), e até por isso não tinha nem uma banda, mas uma nação. E não qualquer nação, mas a Nação Zumbi, signo dessa tal história de pilhagens, mistureba de sons só possível com um olhar antropofágico, e além do mais, a melhor seção rítmica do planeta.
Quando ouvi pela primeira vez a versão do Planet, na TV Cultura, tive a mesma sensação que me assaltou quando ouvi Marisa Monte cantando “Comida” dos Titãs. A sensação de existir um mundo dentro da música brasileira que eu não conheço, que às vezes só vem à tona quando um artista generoso nos dá uma nova visão sobre uma canção.
Assim como “Comida” se transmutou, de “brincadeira pop com poesia concreta”, em verdadeiro hino, na versão jazz-maracatu de Marisa, “Samba Makossa”, que ficava meio perdida entre as pérolas da Nação Zumbi, se afirmou agora o que verdadeiramente é: um clássico da música brasileira. E com direito a trechos do “Monólogo ao Pé de Ouvido”, o manifesto dos novos tempos que estavam por vir.