Arquivo da Categoria História
Esse post foi publicado originalmente como parte de uma polêmica com o Alex, que disse certa vez que, por definição, nenhum monoglota é inteligente. A discussão é antiga e já não faz muito sentido, mas serviu pra que eu desencavasse um dos melhores textos de um monoglota genial.
Estou indo para a praia e ficarei longe da internet por vários dias. O blog entra em recesso mas os comentários dos leitores continuam muito bem vindos.
QUANDO TUDO COMEÇOU
Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943)
por Nelson Rodrigues
No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.
Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”
Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs.
Ainda silêncio. Atônito, pensei em Roberto Marinho que estava no camarote, ao lado. Devia estar me achando uma besta. E, de repente, começaram palmas escassas e esparsas. Um aplaudia aqui, outro ali, um terceiro mais adiante. Atracado à cadeira, sentia-me perdido, perdido. Mas via a progressão. Focos de palmas, em vários pontos da platéia. E, súbito, todos acordaram do seu espanto. Ergueu-se o uivo unânime.
Os aplausos subiam até a cúpula e multiplicavam as cintilações do lustre. Era como se o grande Caruso tivesse acabado de soltar um dó de peito. Os artistas iam e voltavam. Porteiros levavam corbeilles. Veio Ziembinski, arrastado, de mangas arregaçadas, com o suor de gênio da fronte alta. E, súbito, uma voz (possivelmente a de José César Borba) se esganiça: “O autor, o autor!” E não foi só o César Borba. Muitos outros, inclusive mulheres, pediam, exigiam: “O autor, o autor!”
Minha irmã Helena veio me buscar no fundo do camarote. Eu, que me esvaía em suor, gemi: “Não, não!” E ela: “Vem, vem!” Não podia explicar, ali, que eu entrara no Municipal um pobre-diabo; e ainda não me sentia o autor glorioso. Helena, porém, crispada de vontade, arrancou-me da cadeira. Lívido, apareci na varanda do camarote.
Pensei: “Roberto Marinho deve estar impressionado”. Esperava eu, e esperavam minhas irmãs, que a platéia se voltasse para mim e todos gritassem: “Ele, ele!” Mas o que em seguida aconteceu foi muito parecido com um pesadelo humorístico. Estava o autor, em pé, no camarote, pronto para receber a apoteose. E ninguém me olhava, ninguém. Era como se eu não existisse, simplesmente não existisse.
A platéia exigia o autor, mas virada para o palco, de costas para mim. Senti como se fosse um puro espírito, que vaga, invisível, inaudível, por entre os vivos. Deu-me a vontade furiosa de gritar: “Sou eu! Sou eu!” E nada. Por que os artistas do palco não apontavam: “Ali! Ali!” Por um minuto, sem fim, fui excluído da apoteose e me senti um marginal da própria glória. Recuei para o fundo do camarote, dilacerado de vergonha e frustração.
Quando saí do camarote, o primeiro a me abraçar, radiante, foi Roberto Marinho. Em seguida, Sílvio Piergile, o maestro. E ambos disseram: “Formidável!” Mas fora o Roberto Marinho e o Sílvio Piergile, ninguém via em mim o autor. Uma senhora ia na minha frente, com uma graça lânguida e nostálgica: “As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos”. Vou descendo; no meio da escadaria, um velho me abraça; diz trêmulo: “Não perdi um enterro de sua família”. E me beija. Embaixo, sou envolvido, abraçado, quase raptado. Álvaro Lins me puxa pelo braço: “Vem cá que eu quero te apresentar o Paulo Bittencourt”. Lembro-me exatamente das palavras de Paulo: “Sua peça é extremamente interessante”. Alguém ciciou no meu ouvido: “Genial!” Isso, dito baixinho, como se fosse uma obscenidade, deu-me vontade de chorar.
Mas tinha que abraçar Ziembinski, o elenco. Fui para a caixa. Quando entrei, vi uma multidão. Ziembinski berrou: “O autor!” Recebi uma ovação espantosa. Ah, eu estava emocionalmente exausto, as pernas bambas, a vista embaçada. Abraço, longa e desesperadamente Ziembinski. Ah, o polaco (ninguém o chamava de polonês, mas de polaco), o polaco dera ao que parecia o caos uma ordem translúcida e perfeita. Depois de Ziembinski, saí abraçando os intérpretes um por um: Evangelina, Carlos Perry, Graça Mello, Expedito Pôrto, Carlos Mello, Isaac Paschoal. Do alto do camarote, eu era fisicamente desconhecido. Agora, não. Ziembinski me apresentara. Da caixa do teatro até a porta dos fundos, não dei um passo sem esbarrar, sem tropeçar numa admiração patética.
Finalmente, desvencilhei-me dos admiradores e cheguei à rua. Estou andando na calçada da Avenida, e atravesso a Almirante Barroso, vou na direção da Galeria Cruzeiro. Sentia-me boiar entre as coisas. A glória era recente demais. Uma hora antes, eu não passava de um pobre rapaz, que ganhava setecentos mil réis mensais (quinhentos na folha e duzentos por fora). E as coisas me pareciam de uma irrealidade atroz. Até a Avenida era irreal, e os edifícios, e as esquinas. Longe, na Praça Mauá, os mastros sonhavam.
No próprio edifício do Liceu de Artes e Ofícios, quase ao lado de “O Globo”, havia uma casa que era, a um só tempo, leiteria e restaurante. Lá serviam um prato chamado “Almoço Nevado”, típico da classe média. Era um bife, que podia ser acompanhado ou de batatas fritas ou de dois ovos estrelados, com arroz. E mais: manteiga, pão e um pudim de sobremesa. Tudo, ao preço compassivo, generoso, de doze mil réis. Entrei na leiteria deserta, sentei-me num canto. Disse, sem olhar o menu: “Traz um Almoço Nevada, com batatas fritas”.
Primeiro, o garçon trouxe pão e manteiga. Comecei a comer com sombrio elán. Tinha, na imaginação, o lustre do Municipal, ardendo em cintilações delirantes. O garçon voltou. Pôs o prato na mesa. Digo-lhe: “Traz mais pão, que eu pago por fora. Manteiga também, sim?” Eu continuava febril de sonho. Mas o prato estava diante de mim. O bife era a vida real.
Publicado originalmente em 14 de outubro de 2004.
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O leitor Rômulo Marinho comentou o texto de Elio Gaspari sobre o conde Maurício Haritoff, publicado aqui há dois meses, e adicionou preciosas informações e/ou correções a ele. Estou publicando exatamente como ele escreveu.
A minha tia, irmã da minha mãe, casou-se com o neto do conde Maurício Haritoff e teve quatro filhos, todos com descendência carregando o sobrenome Haritoff. O Ivan mencionado no artigo, que morreu, era tio do meu tio, e minha mãe o conheceu quando ele freqüentava a casa da minha tia. Depois desapareceu e ninguém nunca soube do seu paradeiro.
Sobre a “negra” Regina houve um equívoco muito grande, talvez na ânsia de romantizar ainda mais a história e torná-la mais atrativa aos olhares brasileiros, dizendo que ela era negra e ex-escrava. Minha mãe a conheceu também e ela era filha de índios, e não de negros, e nunca havia sido escrava. Era filha de um empregado da fazenda, tinha traços finos, olhos puxados e cabelos escorridos.
Quando eu era criança ouvi varias histórias contada por minha tia. E a mais intrigante era que esse homem excêntrico tinha um mordomo na casa grande da fazenda Aliança, que servia a mesa e abria a porta, e que era um macaco. Isso mesmo: um macaco.
Se era um chimpanzé grande ou um gorila eu não sei, mas só sei que numa noite chuvosa um casal de amigos veio visitar o conde, e quando seu mordomo (o macaco) abriu a porta a mulher se assustou, e seu marido atacou o macaco com seu guarda-chuva. Para evitar a ira do macaco o conde Maurício acertou-lhe um tiro matando-o. A partir de então ele cortou relações com esse casal causador de muita magoa pela morte de seu adorado mordomo.
Sobre a fazenda que o conde, sua Nicota, e depois dona Regina e seus filhos moraram, era a Santa Aliança, em Piraí e nao em Barra do Piraí, embora os Breves possuíssem muitas fazendas em Barra também.
A casa deles em Laranjeiras atualmente é, salvo engano, a escola Rodrigues Alves, e não José de Alencar. A casa, embora preservada, encontra-se completamente descaracterizada, não mantendo nem um pouco da suntuosidade que possuía na época em que residiram lá.
Os descendentes do conde e de dona Regina encontram-se morando em Niterói e no Rio.
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O Alexandre disse neste post, entre outras coisas, que, por definição, nenhum monoglota é inteligente.
Eu adoro essas definições peremptórias. É só comparar as bobagens ditas por tantos blogueiros poliglotas com um texto de um monoglota genial.
QUANDO TUDO COMEÇOU
Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943)
por Nelson Rodrigues
No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.
Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”
Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs.
Ainda silêncio. Atônito, pensei em Roberto Marinho que estava no camarote, ao lado. Devia estar me achando uma besta. E, de repente, começaram palmas escassas e esparsas. Um aplaudia aqui, outro ali, um terceiro mais adiante. Atracado à cadeira, sentia-me perdido, perdido. Mas via a progressão. Focos de palmas, em vários pontos da platéia. E, súbito, todos acordaram do seu espanto. Ergueu-se o uivo unânime.
Os aplausos subiam até a cúpula e multiplicavam as cintilações do lustre. Era como se o grande Caruso tivesse acabado de soltar um dó de peito. Os artistas iam e voltavam. Porteiros levavam corbeilles. Veio Ziembinski, arrastado, de mangas arregaçadas, com o suor de gênio da fronte alta. E, súbito, uma voz (possivelmente a de José César Borba) se esganiça: “O autor, o autor!” E não foi só o César Borba. Muitos outros, inclusive mulheres, pediam, exigiam: “O autor, o autor!”
Minha irmã Helena veio me buscar no fundo do camarote. Eu, que me esvaía em suor, gemi: “Não, não!” E ela: “Vem, vem!” Não podia explicar, ali, que eu entrara no Municipal um pobre-diabo; e ainda não me sentia o autor glorioso. Helena, porém, crispada de vontade, arrancou-me da cadeira. Lívido, apareci na varanda do camarote.
Pensei: “Roberto Marinho deve estar impressionado”. Esperava eu, e esperavam minhas irmãs, que a platéia se voltasse para mim e todos gritassem: “Ele, ele!” Mas o que em seguida aconteceu foi muito parecido com um pesadelo humorístico. Estava o autor, em pé, no camarote, pronto para receber a apoteose. E ninguém me olhava, ninguém. Era como se eu não existisse, simplesmente não existisse.
A platéia exigia o autor, mas virada para o palco, de costas para mim. Senti como se fosse um puro espírito, que vaga, invisível, inaudível, por entre os vivos. Deu-me a vontade furiosa de gritar: “Sou eu! Sou eu!” E nada. Por que os artistas do palco não apontavam: “Ali! Ali!” Por um minuto, sem fim, fui excluído da apoteose e me senti um marginal da própria glória. Recuei para o fundo do camarote, dilacerado de vergonha e frustração.
Quando saí do camarote, o primeiro a me abraçar, radiante, foi Roberto Marinho. Em seguida, Sílvio Piergile, o maestro. E ambos disseram: “Formidável!” Mas fora o Roberto Marinho e o Sílvio Piergile, ninguém via em mim o autor. Uma senhora ia na minha frente, com uma graça lânguida e nostálgica: “As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos”. Vou descendo; no meio da escadaria, um velho me abraça; diz trêmulo: “Não perdi um enterro de sua família”. E me beija. Embaixo, sou envolvido, abraçado, quase raptado. Álvaro Lins me puxa pelo braço: “Vem cá que eu quero te apresentar o Paulo Bittencourt”. Lembro-me exatamente das palavras de Paulo: “Sua peça é extremamente interessante”. Alguém ciciou no meu ouvido: “Genial!” Isso, dito baixinho, como se fosse uma obscenidade, deu-me vontade de chorar.
Mas tinha que abraçar Ziembinski, o elenco. Fui para a caixa. Quando entrei, vi uma multidão. Ziembinski berrou: “O autor!” Recebi uma ovação espantosa. Ah, eu estava emocionalmente exausto, as pernas bambas, a vista embaçada. Abraço, longa e desesperadamente Ziembinski. Ah, o polaco (ninguém o chamava de polonês, mas de polaco), o polaco dera ao que parecia o caos uma ordem translúcida e perfeita. Depois de Ziembinski, saí abraçando os intérpretes um por um: Evangelina, Carlos Perry, Graça Mello, Expedito Pôrto, Carlos Mello, Isaac Paschoal. Do alto do camarote, eu era fisicamente desconhecido. Agora, não. Ziembinski me apresentara. Da caixa do teatro até a porta dos fundos, não dei um passo sem esbarrar, sem tropeçar numa admiração patética.
Finalmente, desvencilhei-me dos admiradores e cheguei à rua. Estou andando na calçada da Avenida, e atravesso a Almirante Barroso, vou na direção da Galeria Cruzeiro. Sentia-me boiar entre as coisas. A glória era recente demais. Uma hora antes, eu não passava de um pobre rapaz, que ganhava setecentos mil réis mensais (quinhentos na folha e duzentos por fora). E as coisas me pareciam de uma irrealidade atroz. Até a Avenida era irreal, e os edifícios, e as esquinas. Longe, na Praça Mauá, os mastros sonhavam.
No próprio edifício do Liceu de Artes e Ofícios, quase ao lado de “O Globo”, havia uma casa que era, a um só tempo, leiteria e restaurante. Lá serviam um prato chamado “Almoço Nevado”, típico da classe média. Era um bife, que podia ser acompanhado ou de batatas fritas ou de dois ovos estrelados, com arroz. E mais: manteiga, pão e um pudim de sobremesa. Tudo, ao preço compassivo, generoso, de doze mil réis. Entrei na leiteria deserta, sentei-me num canto. Disse, sem olhar o menu: “Traz um Almoço Nevada, com batatas fritas”.
Primeiro, o garçon trouxe pão e manteiga. Comecei a comer com sombrio elán. Tinha, na imaginação, o lustre do Municipal, ardendo em cintilações delirantes. O garçon voltou. Pôs o prato na mesa. Digo-lhe: “Traz mais pão, que eu pago por fora. Manteiga também, sim?” Eu continuava febril de sonho. Mas o prato estava diante de mim. O bife era a vida real.
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Muito interessante a história contada por Elio Gaspari neste domingo, sobre o conde Maurice Haritoff e suas duas esposas. Vou publicar o texto na íntegra, porque vai sumir do Globo Online nos próximos dias.

O conde Haritoff, a rica Nicota e a negra Regina
Morreu no dia 25 de junho, na Santa Casa de Barra do Piraí, Iwann Haritoff. Tinha 92 anos, não deixou um centavo e levou consigo o testemunho de um curioso episódio da vulnerabilidade daquilo que se gosta de chamar de elite brasileira e da beleza da vida nesta terra.
Iwann foi filho do conde russo Maurice Haritoff, um dos rapazes dourados da corte de Napoleão III em Paris. O conde veio ao Brasil em 1866 acompanhando uma irmã que se casara na aristocracia cafeeira do Vale do Paraíba. No ano seguinte Maurice Haritoff casou-se com a sobrinha do comendador Joaquim de Souza Breves, que foi o homem mais rico do Brasil de todos os tempos. Juntou 52 fazendas e mais de cinco mil escravos. Haritoff tinha 25 anos e Ana Clara (Nicota), sua mulher, 17. Conversavam em francês.
Quando estourou a Guerra da Criméia, Haritoff alistou-se nas tropas russas. Retornou trazendo para a mulher um magnífico xale para noites de gala. O casal encantou o grão duque Alexandre em sua passagem pelo Brasil. O palácio em que viviam em Laranjeiras (no terreno onde hoje funciona a Escola José de Alencar) foi o salão da imperial granfinagem. Suas portas abriam-se às terças-feiras (”le Mardi de Mme. Haritoff”). Vestiam os criados como cossacos.
Maurice e Ana Clara não tiveram filhos. Ela morreu em 1894, aos 44 anos. Viveram aquilo que seria um conto de fadas europeu nos trópicos. A esse conto de fadas seguiu-se a História brasileira, bagunçada e bela.
Diz a lenda branca que Nicota morreu de desgosto, obrigada a conviver com o romance de Maurice com uma mucama. Precursora da Nega Fulô do poeta Jorge de Lima, a negra Regina nasceu escrava, em 1867.
Tendo sabido ser rico e conde, Haritoff soube empobrecer como um cavalheiro. Casou-se com Regina em 1906. Nessa época já tinham dois filhos: Boris e Alexis. Boris foi o único mulato pobre da nobreza russa. Existe uma fotografia de Regina com as duas crianças, usando um lindo vestido, provavelmente colhido no espólio de Nicota.
Iwann Haritoff sustentou-se como pequeno comerciante e biscateiro. Como um tio russo, perdia tudo nas cartas. Pouco falava da história de seu pai e chegava a duvidar de que fosse verdadeira. Enterraram-no em cova rasa, por não ter “parentes próximos”, apesar de o andar de cima nacional estar cheio de descendentes dos Breves.
Nascido na decadência do café, Iwann viveu o descaso que assombra o patrimônio histórico nacional. A Fazenda do Pinheiro, onde Ana Clara e Maurice Haritoff se conheceram, foi doada (repetindo, doada) ao governo federal. Hoje é vergonhosa ruína. A Universidade Federal Fluminense e o Ministério da Agricultura dividem a irresponsabilidade da destruição da casa-grande e das suas terras, invadidas por baixo por favelados e por cima por condomínios. A Igreja da Grama, onde os Breves planejaram descansar em criptas nobiliárquicas, foi saqueada. Levaram o sino, o assoalho e a escada do púlpito. Depois que a polícia varejou-a à procura de um corpo desaparecido (o da ricaça Dana de Teffé) os moradores foram transferidos para o cemitério de Barra do Piraí. A juventude do pedaço transformou a igreja num point sobrenatural. Dizem que Joaquim Breves anda por lá à noite, de japona. Há rapazes que se divertem deitando-se no jazigo do comendador.
Os ícones da Santa Rússia e os orixás do Vale do Paraíba imploram ao poeta Affonso Romano de Sant’ Anna que não abandone a história do conde Haritoff e suas duas mulheres. Explica-se: ele se interessou pela história e já acumula algumas dezenas de fotografias, cartas e documentos relacionados com a vida de Maurice, Nicota e Regina. Ainda não se comprometeu a escrever sobre o assunto. Trata-se de um caso raro de samba-enredo que nasceu pronto.
Update - O leitor Rômulo Marinho trouxe, na caixa de comentários, preciosas informações e correções ao texto acima. Publiquei-as em um outro post aqui do blog.
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A notícia publicada pela BBC, de que a palavra saudade foi colocada em sétimo lugar numa lista das palavras mais difíceis de traduzir, em todas as línguas, repercutiu bastante nos blogs brasileiros. Dezenas deles republicaram o texto.
Como qualquer lista, esta pode ser questionada, mas o fato de chancelar uma antiga crença brasileira, de que temos uma palavra que é só de nossa língua “e de mais ninguém”, fez com que a notícia fosse aceita sem reservas.
Lembro de estar, há alguns anos, numa roda de amigos estrangeiros, alguns conhecedores do português, e citar essa questão da singularidade da palavra “saudade”. Para minha surpresa, a maioria achou que o sentido descrito por mim era comum a qualquer língua.
Algum tempo depois, a revista Bravo publicou um artigo de Sérgio Augusto, “Saudades do Brasil”, onde ele refuta categoricamente o que chamou de “nosso maior orgulho lexical”. Vale a pena ler o longo trecho abaixo.

Foi nas caravelas dos séculos 15 e 16 que a saudade (o sentimento, não a palavra) mais pegou carona; se bem que, em alguns périplos, tivesse outro nome, de origem grega: nostalgia, junção de dor (algia) com a distância da terra natal (nostos). Já no século seguinte, ela (a palavra, não o sentimento), ganharia seus primeiros exegetas, Duarte Nunes de Leão e dom Francisco Manoel de Melo. Se e quanto foram beber em Plotino, “o filósofo da pátria deixada”, talvez o primeiro a refletir sobre as inefáveis sensações ateadas pela nostalgia, não sei dizer.
Embaçada por um étimo nebuloso, que remete à solidão latina (solitas) e à melancolia árabe (saudah), saudade foi soidade e nessas duas formas fez sua estréia triunfal em Os Lusíadas. Tal coincidência não nos autoriza a achar que ela fizesse parte do projeto político do descobrimento, até porque os portugueses não foram os únicos a descobrir que navegar é preciso. A vizinha Espanha fez a mesma coisa — assim como, antes dos ibéricos, o fizeram os fenícios, os viquingues, os gregos e os romanos — e nem por isso os espanhós estabeleceram ligações do sentimento de saudade com o imperialismo ou o império castelhano. Mesmo respeitando vários dos intelectuais que consideram a saudade “a tradução poético-ideológica do nacionalismo místico português”, como, por exemplo, o ensaísta Eduardo Lourenço, cujo alentado ensaio “O Labirinto da Saudade” já emplacou quatro ou cinco edições pela Dom Quixote, o escritor José Saramago sempre que pode dá um chega-pra-lá na saudologia. Este ele deu na Folha de S. Paulo, cinco anos e meio atrás:
“Parece que se está fazendo de Portugal um país único, privilegiado, com certo tipo de relações com o espaço e tempo. Não estamos sós na história com sentimentos, atitudes e filosofias que nos sejam próprios, decorrentes de termos feito descobrimentos e de sermos um povo com uma relação muito direta com o mar. No interior de Portugal, onde sempre vivemos, há pessoas que nunca viram o mar, nem nunca o hão de ver. A saudade é um sentimento comum a toda a espécie humana”.
O que vale dizer que todas as línguas deste planeta têm a sua maneira peculiar de expressar aquela dor que, segundo Elano de Paula, o letrista de “Canção de Amor”, a gente não sabe de onde vem. Que superioridade (moral, etimológica, cultural) tem a palavra saudade sobre o banzo dos negros africanos?
Na segunda década deste século [o texto é de 98], a filóloga lisboeta Carolina Michaelis de Vasconcellos não só trouxe a público vocábulos afins a “saudade” garimpados no galego, no castelhano, no asturiano e no catalão, como pinçou em Goethe uma notável familiaridade entre saudade e sehnsucht. Além de provocar polêmicas com aqueles que piamente acreditam numa distinção entre o doce sentimento português e a ansiedade metafísica alemã embutida em sehnsucht, a filóloga caiu nas garras zombeteiras de Camillo Castelo Branco. Mas ela, e não seus adversários, liderados pelo poeta panteísta Teixeira de Pascoaes — para quem “o povo português criou a saudade porque ela é a única síntese perfeita do sangue ariano e semita” (uau!) –, é que tinha razão.
Posteriormente, o autor se referiu en passant ao assunto em outro texto, publicado no Estado de São Paulo, e republicado no Digestivo Cultural.
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O Cláudio Costa publicou uma foto de satélite da praia de Ipanema, a propósito de falar do site Apolo 11, que divulga dados interessantes sobre geografia e astronomia.
Eu, invejoso que só, resolvi postar aqui essa imagem de minha querida cidade, Belém. A gravura foi montada a partir das fotos disponíveis no site do sensacional projeto Brasil visto do Espaço, da Embrapa.
O Marcelo Tas já o divulgou no Vitrine, mas não custa repetir: esse projeto fotografou toda a superfície do território brasileiro, por satélite, e montou mosaicos que permitem uma bela visão sobre a vegetação, relevo e hidrografia do país. Além do site, as fotos estão disponíveis num CD-ROM, e são imperdíveis não só pra quem precisa das informações como pra quem é simplesmente curioso pra ver um retrato de corpo inteiro do Brasil.
Como se pode notar, Belém está na ponta de uma península, e uma hidrografia acidentada a deixa um pouco isolada da Baía do Marajó. Isso foi importante para o fundador da cidade, o português Francisco Caldeira Castelo Branco, que construiu em 1616 o Forte do Presépio, marco inicial de Belém, num local de difícil penetração para os invasores franceses e ingleses. A região era estratégica, por ser o limite norte da linha do Tratado de Tordesilhas.
O que era bom na época, hoje dificulta a atividade do porto da cidade. A maioria dos grandes navios aporta em Vila do Conde, que está de frente para a baía e pode ser vista no canto inferior esquerdo da foto. A grande ilha a nordeste é o balneário de Mosqueiro, onde passei todos as minhas férias de verão, até a adolescência. Bons tempos aqueles.
* * * * * * * *
A partir deste post estou abandonando meu pseudônimo, Luciano Chardon (que usei em fóruns diversos por alguns anos), e passando a assinar com meu verdadeiro nome, Marcus Pessoa.
Minha participação na blogosfera, primeiro como comentador, depois como dono de blog, me permitiu conhecer várias pessoas inteligentes e espirituosas, chegando às vezes a um nível de amizade, e achei bobagem continuar me identificando com um nome que qualquer leitor de Balzac (como o Rafael Galvão) percebe imediatamente que é falso.
Também me causou forte impressão o artigo de Julio Daio Borges no Digestivo Cultural, criticando aqueles que escrevem na net com pseudônimos. Embora eu não me enquadre nos casos patológicos descritos no artigo, percebi que quem assina o seu nome, dando a cara pra bater, acaba sendo mais respeitado. É isso.
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Entre os vídeos institucionais apresentados na abertura do Festival de Belém, havia um da revista IstoÉ Gente. Talvez apropriado para o que foi a abertura: mais que um evento cultural, uma ocasião social para ver e ser visto. O Cine Estação lotou, com filas imensas à porta. Contando atrasos, discursos quilométricos e poses para fotos estilo “festa de quinze anos”, o público só pôde assistir a Dezembro, o curta metragem que abriu o festival, quase uma hora e meia após o horário marcado.
Aliás, por que será que, em eventos de cinema, ninguém fala de cinema, mas apenas de mercado, distribuição, patrocínio? Lembro de uma entrevista de Pedro Almodóvar no Roda Viva, onde o único cineasta presente na banca só fazia perguntas sobre isso. O único que realmente perguntava sobre cinema era o Leon Cakoff, tanto que Almodóvar foi ficando impaciente e a partir de certa hora só queria responder às perguntas dele.
Pois bem: Dezembro, do paraense Fernando Segtowick, abriu (em estréia nacional) o festival, e, metaforicamente, quase o fechou também. A decepção com o filme foi geral, menos para aqueles que já conheciam o igualmente fraco Dias, filme de estréia do diretor.
“Dias” desperdiçava Sandra Barsotti para contar três histórias se cruzando num acidente de trânsito. Dito assim, parece os filmes de Alejandro Iñárritu (e foi feito antes deles). Mas as histórias da mulher deprimida com seu casamento (Barsotti), da adolescente grávida abandonada pelo namorado, e outra que não lembro agora, não criavam qualquer empatia com o espectador, e se juntavam de forma arbitrária e sem sentido. O filme não saiu do zero a zero, a não ser pela bela trilha sonora da banda Epadu.
Em “Dezembro” a fórmula se repete, com a diferença que agora são umas cinco histórias diferentes se atropelando em doze minutos. Algumas cenas apresentadas logo no início, umas sobre as outras, como a mulher grávida acariciando meigamente o barrigão, e o gângster falando agressivamente ao celular, sentado ao lado de uma piscina de uma pseudo-mansão, já mostram o que podemos esperar.
O filme é pessimamente sonorizado, e não se entende nada do que os atores falam; nenhum ator, aliás, se destaca; os cortes são abruptos; a história nunca fica inteligível, e tem mais um desfecho arbitrário unindo os diversos personagens, sem que se saiba direito por quê. Houve os aplausos protocolares, claro; parece que o filme foi parcialmente financiado pela Petrobrás; e mais não digo, pois o leitor já deve ter sentido o drama.
* * * * *
Após, foi apresentado um trailer de seis minutos do longa metragem Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, que contará a história da Guerrilha do Araguaia, tentativa do Partido Comunista do Brasil de, no auge da ditadura militar, montar uma célula guerrilheira no sul do Pará.
O filme foi integralmente rodado em cidades próximas a Belém, tem Norton Nascimento no papel principal e vários atores paraenses como coadjuvantes. O próprio diretor veio a Belém para apresentar o trailer, e informou que o filme já está pronto e deve estrear por volta de setembro em circuito nacional.
O trailer impressiona pelo tom épico imprimido às cenas. A geografia particular da região ribeirinha da Amazônia parece ser apresentada de uma forma criativa, e as atuações em geral são promissoras.
O que me deixou ligeiramente incomodado foi a possibilidade do filme apresentar uma visão redentora e ufanista do movimento guerrilheiro — um dos maiores equívocos da esquerda brasileira. Em uma cena vibrante, presente no trailer, uma personagem feminina faz, numa festinha na mata, um apaixonado discurso prevendo a vitória da revolução socialista no Brasil.
Tendo em vista o trágico resultado da guerrilha, só posso entender isso como uma ironia. Ou não? O diretor diz que tentou evitar “o risco de produzir uma ‘versão oficial’ da história, seja pela ótica do Partido Comunista do Brasil, seja pela das Forças Armadas”. Mas no site oficial o filme é apresentado como “um filme de amor ao Brasil”. A conferir.
Após o trailer houve ainda a projeção do longa Contra Todos, de Roberto Moreira. Porém, os atrasos superpostos e o adiantado da hora geraram uma debandada de boa parte do público. Como também tive que ir, fico devendo essa parte do relato (me falaram muito bem do filme, depois).
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Num relato pessoal sobre o golpe de 64, Ricky Goodwin cita fatos sobre a influência norte-americana na política da época e arremata:
Não me venham falar agora que os americanos não tiveram participação no golpe que derrubou João Goulart e detonou essa merda que emporcalhou o país por décadas. Que no máximo pensaram, só pensaram, em mandar um porta-aviões fazer farol no litoral brasileiro. Lincoln Gordon, me desculpe, mas sou testemunha da história. De um pedacinho mínimo, mas eu estive lá.
O autor, que morava em Governador Valadares, termina com uma referência ao êxodo de seus concidadãos:
E para mim é apenas justiça histórica que atualmente tantos valadarenses tentem penetrar no Império para sugar um pouquito de dólares e conseguir, na labuta ou na malandragem, o que consideram uma vida decente. Quando mandam um dinheirinho pra família que ficou pra trás, no calorão de Governador Valadares, não é remessa de dólares. É indenização indireta.
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