Poucas vezes vi uma mentira estatística tão gritante quanto a “pesquisa” do economista Marcelo Néri, da FGV, sobre o perfil do usuário de drogas brasileiro, publicada com grande alarde na imprensa.
Segundo ele, é na classe A (renda familiar superior a 9 mil reais) que se concentra a grande maioria dos usuários de drogas ilícitas. Diz o autor:
O retrato é muito semelhante daquele traçado no filme [Tropa de Elite]. Quem consome drogas é o garoto de elite, são jovens homens brancos solteiros de alta renda que vivem nas capitais do Sudeste e freqüentam uma instituição privada de ensino: 62% da classe A, com cartão de crédito.
O problema é que o economista não pesquisou nada, apenas pegou dados aleatórios contidos na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE.
A POF é uma pesquisa abrangente sobre rendimentos e gastos do cidadão. Ela pergunta quais alimentos você compra, que formas de lazer se utiliza, quanta paga de conta de luz… mas não pergunta se você usa drogas.
Há questionários detalhados, com dezenas de itens de consumo, e, é claro, entre eles não há drogas ilícitas. Há, no entanto, espaços em branco para itens não catalogados.
Esperar que alguém inclua num questionário desses, “20 reais pra maconha”, “50 pra cocaína”, é delírio. Qualquer inclusão dessas é puramente incidental, sem qualquer validade estatística.
De qualquer forma, o sr. Néri encontrou, entre os 182 mil questionários, 0,06% de vacilões que disseram ao pesquisador do IBGE que gastavam alguma determinada quantia em drogas ilícitas. Sabe quanto é 0,06% de 182 mil? 109.
Isso mesmo: cento e nove brasileiros, em todo o país, pinçados de forma aleatória, foram o universo a partir do qual o sr. Marcelo Néri tirou suas importantes conclusões, como por exemplo, que 99% dos usuários são homens (!) e 75% estão na região sudeste (!!).
É claro que ele não mostrou os números absolutos; a empulhação ia ficar muito na cara. Que ninguém na imprensa tenha reparado nisso, é uma mostra de como andam nossos jornais.
Joguemos essa pesquisa no lixo, que é o lugar dela, e voltemos ao que indicam todas as pesquisas sérias: que as drogas ilícitas são consumidas em todas as classes sociais e em todas as regiões do país, e não apenas por uma minoria localizada.
Isso vai dar a dimensão do problema, e mostrar o quanto é inútil a política atual.
Quando a TV começou a passar, há alguns anos, vários filmes de propaganda contra as drogas, o tom era aquele dos anos 50: as drogas são o bicho papão, cuidado com seus filhos, etc. O slogan final: drogas, nem morto.
O cheiro de naftalina era evidente, e não podia dar certo, né? Qualquer pai ou mãe prefere um filho drogado a um morto. Ciente disso, a entidade responsável pela campanha mudou o enfoque, passando a dizer que quem usa drogas financia a violência do tráfico — discurso muito bem elaborado que hoje é repetido que nem papagaio por um monte de gente. Uma forma higienizada e moderna de demonizar o usuário.
A cocaína era vendida em farmácias no Brasil até a década de 1930. Na época o usuário não financiava a violência, porque os circunspectos boticários não precisavam se esconder em favelas e trocar tiros para garantir o seu honesto negócio de vender drogas.
Ou seja, a violência não é gerada pela existência de pessoas dispostas a comprar a droga, mas pela proibição do Estado.
Vamos fazer uma divisão de águas. Se você acha que usar drogas, em si, é algo tão horrível que mereça ser considerado crime, mesmo que não gere prejuízo a ninguém a não ser o próprio usuário, pare de ler agora mesmo. Não se preocupe, Deus protege os inocentes e também os obtusos, e com certeza se apiedará de sua alma.
Mas, se você acha que usar ou não drogas é uma decisão exclusiva da esfera individual de cada um, e mesmo assim repete esse discurso fajuto de usuário financiando violência, tem alguma coisa errada.
A idéia de que o cada um é responsável por si mesmo, ou seja, o primado da consciência individual, é um dos alicerces do Liberalismo, e este não foi um movimento de Ursinhos Carinhosos que pediram licença ao Estado opressor para ter liberdade de fazer o que bem entendiam. As revoluções burguesas mostraram que, se o Estado é injusto, o melhor a fazer é derrubar o Estado e fundar outro.
Mas agora, vejo gente inteligente achando que os usuários têm que ser uns Ursinhos Carinhosos, pedindo licença ao Estado para exercer o direito básico de consumir o quem bem entendem.
Não, meus amigos, quando o Estado te impede de exercer um direito, você pode até se conformar, se for um banana, mas se tiver hombridade, você tem o direito e até o dever de confrontar esse Estado.
E isso inclui, sim, dar dinheiro ao bandido, se for a única maneira. Digamos que eu seja um cubano querendo fugir de Cuba, e só quem pode me tirar de lá seja um mafioso daqueles de filme. Eu não tenho o direito de exercer a minha liberdade, só porque o meu dinheiro vai pra um bandido? Claro que tenho.
Todos sabem que na época da Lei Seca norte-americana a Máfia se fortaleceu com o comércio ilegal de uísque. Foi só permitir de novo o consumo que essa fonte de financiamento do crime secou.
Eu quero fazer àqueles que põem o dedo na cara dos usuários de drogas ilegais, mas tomam sua cervejinha nas sextas-feiras, a seguinte pergunta: se o Estado o proibisse de tomar a sua cerveja, você acataria? Deixaria de tomá-la?
Se a resposta é não, você é um hipócrita. Se a resposta é sim, você é um cordeirinho da violência do Estado.
Não sou flamenguista, mas também não sou burro. Sei me apaixonar pela paixão alheia. Já estive lá dentro e sei como é que é.
A propósito do espetáculo que a massa deu na vitória sobre o São Paulo, o David cometeu mais um grande post, que vai na íntegra, sem mais delongas:
Não passa — e a idade, que na sabedoria convencional deveria te afrouxar, só te atira mais nos braços da doença. Nas horas de sufoco, quando cadeira, compostura e mentiras da maturidade não têm mais serventia, fica claro: os locos do Newell’s Old Boys, de Rosario, acertaram na pinta ao aceitar o apelido de Los Leprosos. Somos assim todos nós, os fanáticos por bola em qualquer canto.
Eles se imolam em Najaf. Outros, em Jerusalém, apedrejam ônibus no shabat. Em Guiana, alguns esperam a ordem de um pastor para beber veneno. Nós sofremos por um jogo e, de rodada em rodada, renovamos nossa condição de possessos.
O Sergio Leo ajudou a preencher uma parte do meu dia ontem, quando linkou esta linda matéria produzida pelo Washington Post e publicada pela revista Piauí com o nome “Pérolas aos poucos”. Não consegui tirá-la da cabeça depois.
Produzida é o termo correto, pois o jornal criou a notícia. Convidou o maior violinista da atualidade, Joshua Bell(foto), para empunhar seu violino Stradivarius de 1713 e tocar suas peças preferidas, icógnito, numa estação de metrô de Washington, a troco das moedas depositados pelos passantes.
A partir da reação do público, o autor faz interessantes reflexões sobre a “autenticação oficial” da grande arte junto ao público, a propensão das pessoas a novas experiências, o aprendizado da indiferença, etc. Leiam lá; são 8 páginas que valem a pena.
Uma catedral musical
A música que Bell escolheu para abrir e fechar sua performance, o quinto movimento (Ciacona, ou Chaconne) da Partita nº 2 em Ré Menor de J. S. Bach, é considerada uma das peças mais importantes da história, e a mais complexa e imponente partitura já escrita para um instrumento solo.
Você pode ouvi-la abaixo, na interpretação de Salvatore Accardo, gravada em 1976 (15:19 min).
(clique no botão de play para ouvir)
Minha relação com a música erudita é a de mero curioso. Vou a concertos, mas não sei identificar a importância de uma música; só sei dizer se gosto ou não. E é inegável que esta peça de Bach é muito bonita. Muito pungente; um tanto triste, lamentosa, mas um lamento altivo e solene.
Contemplação
Se eu visse um violinista de rua tocando tão bem, provavelmente pararia para assistir. Por isso, me permiti discordar de nossa maior referência em música erudita na blogolândia, Milton Ribeiro. Ele acha que o número de aficcionados em música erudita é tão pequeno que Bell seria ignorado em qualquer lugar do mundo.
Eu penso que a matéria do Post diz mais sobre o ritmo trepidante da vida moderna do que sobre a cultura do povo e seus conhecimentos sobre grande arte. E acho que esta pode sim se comunicar com o público não-iniciado, se ele tiver a oportunidade de assumir uma postura contemplativa.
Quando digo que pararia para assistir, não estou falando de uma hipotético usuário do metrô de Washington, mas de mim, Marcus Pessoa, que moro numa cidade sem metrô e sem músicos de rua, e tenho o hábito de sempre andar devagar e contemplando as coisas, inclusive a arquitetura barroca de minha própria cidade, como se fosse turista.
Uma das entrevistadas pelo Post, a engraxate Edna Souza, disse que se Bell tocasse na rua, no Brasil, todo mundo pararia. Eu tenho certeza que se fosse em Belém parariam mesmo, ao menos pelo inusitado da coisa. Bem diferente é pensar num habitante da uma metrópole, passando por mais um entre tantos músicos de rua, na entrada de uma agitada estação de metrô.
Toda vez que vou a São Paulo me espanto com as pessoas andando sempre apressadas, sem olhar para os lados. Não dá pra explicar só pelas distâncias e jornadas de trabalho esdrúxulas; é um estado de espírito mesmo.
O repórter do Post nos confirma o que já sabemos desde Saint-Exupéry: as crianças são as únicas que olham para os lados, que se interessam pela paisagem e o que ela tem a oferecer.
Elas não precisam conhecer a grande arte para se maravilhar com ela. Se as grandes cidades fossem espaços menos inóspitos, os adultos talvez pudessem sair de vez em quando de sua matrix particular e ser tocados por esse mesmo maravilhamento.
Não são apenas os spin doctors da oposição que só pensam “naquilo”. O assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, fez gestos obscenos quando o Jornal Nacional divulgou, na edição de ontem, que o Airbus da TAM que se acidentou em Congonhas teve diagnosticado um defeito há alguns dias. Veja o vídeo.
Não é a primeira vez que gente do primeiro escalão do governo se comporta como se estivesse no boteco da esquina, e não no comando no país. É o equivalente político-partidário de um são-paulino bêbado gritando “se fudeu corintiano”, após mais uma derrota do time de São Jorge.
A notícia sobre o defeito e o estranhíssimo comportamento do avião captado pelas câmeras da Infraero enfraquecem a hipótese de problemas na pista. Marco Aurélio achou que isso era motivo para comemorar.
É que nem o slogan do filme Aliens x Predador. “Não importa quem ganhe, nós perdemos”.
A Vanessa fez um post sobre uma discussão no congresso peruano a respeito do rebaixamento da age of consent — ou seja, a idade onde o jovem pode legalmente consentir em fazer sexo. Fiz um comentário lá, mas tem outras coisas que eu quero dizer.
A única crítica que se tem feito ao magnífico Notas sobre um Escândalo é sobre a trilha sonora de Philip Glass, indicada ao Oscar. A trilha é muito expressiva, mas se intromete o tempo todo e cria uma atmosfera artificial de suspense na história da professora que se envolve com um aluno adolescente e é vampirizada emocionalmente por uma colega.
O problema principal é que o caso não é um grande escândalo que justifique esse clima paranóico sugerido pela trilha. É no máximo um pequeno escândalo: um garoto de 15 anos no auge da sua sexualidade assedia insistentemente sua professora bonitona, até conquistá-la e ter o que todo adolescente quer — uma vida sexual ativa.
Eu entendo que muitas pessoas bem-intencionadas achem que proibir o jovem de decidir quando quer fazer sexo é protegê-lo. Entendo mas não concordo.
O Peru estuda baixar a idade do consentimento para 14 anos, em lugar dos 18 atuais. Pra quem não sabe, o Brasil, ao contrário do que imagina o senso comum, também tem uma age of consent de 14 anos, e não 18. Existe uma certa dubiedade na interpretação do crime de “corrupção de menores”, mas o crime de “sedução” foi retirado do código penal. Sedução era quando um homem mais velho usava de malícia (sic) com uma menina para convencê-la a transar com ele…
Alguém duvida que jovens de 14 anos querem transar?
O argumento de que pessoas mais velhas podem pressionar psicologicamente por um consentimento é inócuo, porque essa pressão também é feita por pessoas da mesma idade. O que mais tem por aí são meninos fazendo falsas promessas a meninas para levá-las para a cama. Sexo sempre envolve algum tipo de relação de poder, e é irreal achar que os jovens estarão protegidos disso proibindo-os de escolher seus parceiros.
Por outro lado, também faz parte do senso comum no Brasil rir quando aparecem notícias de professoras norte-americanas presas por transarem com alunos. O caso mais famoso é o de Debra Lafave, uma beldade que se envolveu com um garoto de 14 anos.
Os comentários aqui são repetitivos: “como esses gringos são tacanhos”. “Eu é que queria ser abusado pela minha professora”.
Mas esses comentários também são tacanhos, e não expressam nada mais que o bom e velho machismo latino-americano. Se, em vez da Debra, fosse um professor bem-apessoado de 25 anos de idade que se envolvesse com uma aluna de 14, não teríamos galhofa, mas frases no estilo “o caso das meninas é diferente”, etc.
Desconfio que uma parte das pessoas que apóiam essa interdição sexual antes dos 18 concorda que não faz sentido proibir um menino de transar com uma mulher mais velha, mas não acha bom uma menina fazer a mesma coisa com um homem mais velho. Para não admitirem o seu machismo, apóiam a proibição pra todo mundo.
O caso que mais me tocou não foi nem o de Debra, mas o de Mary Kay Letourneau, pois o aluno que se envolveu com ela disse reiteradas vezes que a amava muito. Psiquiatras foram escalados para mostrar ao distinto público que um garoto de 14 anos não tem maturidade pra pensar essas coisas…
Ela voltou para a prisão depois que, em liberdade condicional, foi flagrada conversando com a “vítima” dentro de um carro. Mas o caso teve um final feliz: ela e o rapaz casaram-se, depois de quase dez anos do estado tentando se intrometer em sua relação. E eu aqui derramei uma lágrima discreta com essa autêntica história de amor dos tempos modernos.
Levantou essa lebre em momento de puro oportunismo, aproveitando o auê em torno do filme do Mel Gibson. O texto é tão idiota, os argumentos são tão chinfrins, que tenho até vergonha de citá-los. Mas vamos lá. Jesus seria gay porque:
a) chegou casto à idade adulta;
b) seu discurso era “delicado”;
c) tinha uma “amizade particular” com João…
Precisa continuar? Ofende menos o cristianismo do que a inteligência do leitor.