Quem gosta de debater em fóruns online e curte cinema, quadrinhos, rock e jogos de computador, precisa conhecer o Joio. Na minha opinião, o melhor fórum de debates sobre cultura pop da internet brasileira.
Conheço o pessoal do fórum há muitos anos, virtualmente, desde o finado newsgroup do UOL, ainda na década de 90. Os debates são bem informados, mas totalmente irreverentes e politicamente incorretos.
Sob nicks estranhos tem gente que sabe do que está falando: Bennett é uma sumidade em quase todos os assuntos, e uma das grandes autoridades sobre direito e propriedade intelectual na internet. Quase Nada é simplesmente o melhor escritor sem blog que eu conheço, e ele mesmo é um personagem de ficção de primeira linha. Fábio Negro comenta em vários blogs legais e também escreve fantasticamente bem. Plague Rages é cineasta, jornalista e manda algumas matérias interessantes da Inglaterra.
Alguns assuntos rendem tópicos memoráveis, como a briga Nintendo Wii x Play Station 3, e o quebra-pau sobre a qualidade do último Indiana Jones, um tópico que ilustra bem o surrealismo a que chegam os debates lá.
Fica a dica. Dêem uma olhada na página inicial, com os destaques dos editores, e a página dos tópicos mais recentes. Ao contrário de certas comunidades no Orkut, que são casa da mãe Joana, o Joio tem uma política rígida contra flame wars (só pode fazer de mentirinha). Vejam o time de moderadores de lá… vai encarar?
Se há uma coisa que me irrita num filme, é quando algum significado em uma cena já ficou totalmente claro, através de frases, olhares ou gestos, e depois alguém (um dos personagens, ou a narração em off) “explica” ao espectador aquilo que ele já entendeu…
O longa de estréia do norueguês Joachim Trier, Reprise, tem uma cena assim. Um dos protagonistas, o jovem escritor Erik, encontra seu ídolo literário, Sten Egil Dahl, num evento, e o aborda na saída do prédio.
O velho escritor é um homem recluso, mas dá uma chance ao rapaz, por causa da abordagem um tanto solene e respeitosa. Mas antes que Erik possa falar, aparece um conhecido dele, Mathis, espécie de filisteu literário, que também tenta falar com Dahl, mas de um modo frívolo, que denota o cabeça-de-vento que é.
Dahl olha com contrariedade e dá um jeito de se despedir dos dois rapazes, sem lhes dar muita atenção. Foi Mathis que arruinou uma possível conversa, mas é claro que daí em diante Erik também ficou registrado por Dahl como “pessoa a se evitar”.
O que temos logo em seguida? O narrador do filme dizendo que “na cabeça de S. E. Dahl, Erik e Mathis eram agora inseparáveis”. Ó raios! Terrível mania de alguns autores de achar que os espectadores são incapazes de chegar a conclusões simples como essa…
À parte esse comentário lateral, trata-se de um bom filme. Não vou resenhá-lo aqui, apenas dizer que é uma história bem contemporânea, sobre dois jovens amigos escritores, Erik e Phillip, vista sob um ótica de frieza e cinismo típicos da juventude intelectual urbana.
Não há melodrama, e talvez essa frieza, o vazio interior e a desesperança dos rapazes se deva a alguma idéia de “paraíso perdido”, um tempo de ingenuidade e alegria que se foi após um terrível colapso nervoso de Phillip, o mais brilhante deles.
Vale a pena conferir. Pra variar, não há previsão de lançamento no Brasil.
A eleição norte-americana está na ordem do dia e a grande novidade é a candidatura de Barack Obama, que pode se tornar o primeiro presidente negro no país mais poderoso do mundo.
Eu não vou fazer análise política, afinal há algunscoleguinhasmeus muito mais tarimbados sobre o assunto. Eu só vou falar de um medinho que eu tenho, afinal presidentes negros dos EUA parece que atraem catástrofes…
Em O Quinto Elemento, o presidente Lindberg(foto à esquerda) enfrentou um meteoro senciente superpoderoso, que ameaçava esfarelar a Terra ao se aproximar dela a grande velocidade.
Tom Beck(centro) enfrentou em Impacto Profundo um outro meteoro, que se partiu em dois e gerou um mega tsunami que alagou os Estados Unidos. O outro pedaço por pouco não destrói o nosso planeta.
Com David Palmer(direita) os EUA já sofreram em 24 Horas dúzias de ataques terroristas, com explosão de várias bombas atômicas.
Não sei não, mas se Barack Obama for eleito, o mínimo que se pode esperar é a Terceira Guerra Mundial…
Vamos combinar. Control, a aclamada cinebiografia do líder do Joy Division, Ian Curtis, é um abacaxi.
O diretor Anton Corbijn é um fotógrafo de primeira linha, e há belos enquadramentos ao longo do filme. Se fosse um livro de fotos seria perfeito; como dramaturgia é indigente.
A história do Joy Division, da Factory e da explosão da cena rock de Manchester é ótima e já rendeu uma obra prima (24 Hour Party People, ou A Festa Nunca Termina). Corbijn transformou-a num tedioso dramalhão familiar suburbano, dentro de quartos fechados, com personagens inexpressivos e péssima utilização da música.
Os momentos musicais são curtos e não se vê grande ligação entre as músicas do Joy Division e o personagem Ian Curtis; é como se não fosse ele que as tivesse composto. Nos momentos não-musicais os atores falam tão baixo e com tão pouca entonação que eu cogitei de Corbijn estar tirando uma de Robert Bresson…
Eu lembro bem da comoção que foi o lançamento dos discos do Joy no Brasil, no final dos anos 80. Em tempos pré-internet, eu e meus amigos tirávamos xerox de uma edição portuguesa das letras da banda, e pudemos nos assombrar com a profundidade lírica e existencial do jovem Curtis. Era um rapaz muito atormentado e desencantado com o mundo, e seu suicídio é coerente com sua obra.
Por isso é risível e ultrajante a insinuação de que ele se matou apenas porque tinha epilepsia, ou porque sua esposa não aceitou seus casos extraconjugais.
Bem, os links estão aí embaixo, vejam por si mesmos (o filme ainda não tem data de estréia no Brasil). Mas, se quiserem um retrato vívido e superdivertido da mesma história, não deixem de ver 24 Hour Party People. Esse sim, é indispensável.
“Shadowplay” foi regravada pelos Killers especialmente para a trilha sonora do filme. Clique para ouvir.
SHADOWPLAY
Autoria: Joy Division
Interpretação: The Killers
To the centre of the city where all roads meet, waiting for you
To the depths of the ocean where all hopes sank, searching for you
I was oving through the silence without motion, waiting for you
In a room without a window in the corner I found truth
In the shadowplay, acting out your own death, knowing no more
As the assassins all grouped in four lines, dancing on the floor
And with cold steel, odour on their bodies made a move to connect
I could only stare in disbelief as the crowds all left
I did everything, everything I wanted to
I let them use you for their own ends
To the centre of the city in the night, waiting for you
To the centre of the city in the night, waiting for you
Amei esse filme. É daqueles pelo qual você não dá nada à primeira vista; não tem um tema chamativo, mas te conquista pelos detalhes; pela naturalidade das situações, pela sensação de que lá estão pessoas reais, e não bonequinhos falantes.
Shaun tem 12 anos na Inglaterra em plena Guerra das Malvinas. Por puro acaso encontra um grupo de skinheads bem legais, nem próximos da idéia que você tem de skinheads. Eles são meio dândis, usam belas botas e suspensórios, e às vezes fantasiam-se como um grupo de teatro mambembe. Quebram algumas coisas por farra, nada de violência real.
Você já foi conquistado pela leveza da história quando chega Combo, um ex-membro do grupo que estava preso e quer transformar esses moleques em skinheads de verdade, com tudo que isso implica: discurso e violência racista, cooptação pela Frente Nacional, e “amor” a uma Inglaterra que só existe na cabeça deles.
O pequeno Shaun e alguns de seus amigos embarcam nisso pela camaradagem, não pela ideologia. Mais tarde, serão os valores da camaradagem que os farão enxergar o beco sem saída em que se meteram.
Bem, não se engane com essa descrição de sessão da tarde que eu fiz aí em cima, e vá atrás. É um dos filmes do ano, um pequeno grande filme, despretensioso, mas profundo e emocionante. Não tem previsão de lançamento no Brasil, mas acho que a isso você já está acostumado.
Update: um amigo me informa que nesta época (início dos 80) é exatamente quando os skinheads (que eram uma tribo urbana sem ideologia definida) foram cooptados pela direita nacionalista. O filme é um pequeno retrato desse processo.
XXY é o filme indicado pela Argentina para a disputa do Oscar de filme estrangeiro de 2008. Foi exibido sem nenhum alarde no Festival do Rio; espera-se que, com a indicação, ele possa ser apreciado como o filme sensível e surpreendente que é.
- Diga algumas palavras e situe tudo, não é difícil.
- OK. A jovem Alex é hermafrodita, e não há muito o que se possa fazer em relação a isso.
Pronto, já temos a história. Os conflitos, a angústia, as dúvidas, tudo meio reprimido, porque é uma jovem bonita vivendo num local isolado, e pra todos os efeitos está tudo normal. Há um elefante cor-de-rosa bailando na sala de jantar, mas todos tentam se acostumar.
Talvez fosse melhor assim. Pensar nisso como um não-evento. Alex não quer mudar nada. Não quer tomar remédios, não quer fazer cirurgia, não quer escolher. Mas os adultos precisam de escolhas. Os adultos ficam lá, falando, racionalizando, e os jovens tentando dizer algo com seus silêncios.
Porque há outros jovens, um deles, Alvaro, um rapaz frágil que se enreda na confusão que Alex cria apenas por existir. A moça transforma a sexualidade de todos ao seu redor mesmo quando não há sexo envolvido.
É um filme meio bruto e um tanto árido. Há metáforas sanguinolentas; há um cirurgião plástico e também um biólogo que autopsia animais; e Alvaro é vegetariano como se dissesse, “não faço parte disso”. Não será defesa suficiente, é claro.
Em resumo: mais uma prova do desassombro da cinematografia de nossos vizinhos.
O filme ainda não tem previsão de estréia no Brasil, mas os paulistas poderão vê-lo na Mostra Internacional, que começa no próximo dia 19 (as datas das sessões ainda não estão definidas). Pra quem não é de São Paulo, há o eMule e o Open Subtitles que não nos deixam na mão.
O senhor é um fanfarrão, senhor Padilha. O senhor não é um diretor de cinema, o senhor é um moleque.
Quando Tropa de Elite foi parar nos camelôs antes da estréia, o senhor subiu nas tamancas, disse que quem comprava o pirata alimentava o crime. Mas, quando foi preterido para a disputa do Oscar, o senhor disse que ficou feliz que o público tenha votado nele para representar o Brasil, nas enquetes da imprensa.
Ora, senhor Padilha, o filme nem tinha estreado ainda! O público que votou no filme é o mesmo que o comprou no camelô! Antes eram criminosos, agora são a muleta pra explicar o seu fracasso artístico.
Aliás, o senhor mandou estrear na surdina em uma sala de Jundiaí apenas para se qualificar para o Oscar. Quando a indicação não saiu, o senhor disse que “seu foco não era o Oscar”. Agora as uvas tão verdes, né? O senhor quer enganar a quem?
O senhor pensa que eu não sei que o senhor é rancoroso e anti-ético? Pensa que eu não vi o senhor batizando no seu filme uma patricinha amiga de traficantes com o nome de Roberta Lund? Pensa que eu não sei que isso foi uma referência direta à diretora Katia Lund?
Depois o senhor mudou o nome, mas não pense que isso muda alguma coisa. A Katia é uma diretora de cinema premiada, oriunda de família rica, com grande trabalho social nas favelas do Rio de Janeiro. A “Roberta” Lund é uma patricinha descerebrada amiga de traficantes e que participa de uma ONG numa favela. O recado é direto demais. O senhor está chamando uma colega de trabalho de criminosa. Isso é uma molecagem da pior espécie.
Pede pra sair, senhor Padilha. Pede pra sair do cinema brasileiro. O senhor não é bem vindo aqui.
O Wagner Moura disse em artigo no Globo que Tropa de Elite tem como mérito o de contribuir para o debate nacional sobre segurança pública.
Usou apenas 81 das 881 palavras do texto para responder “não” à pergunta feita pelo jornal: “Tropa de Elite é fascista?” Não apresentou qualquer argumento pra defender sua tese e passou os outros 90% do artigo mudando de assunto e expondo idéias opostas às do filme (legalização das drogas, por exemplo), fingindo que não o eram. A covardia é justificável; tentar fazer o leitor de trouxa, não.
Em português claro, “contribuiu para o debate nacional” significa “deu oportunidade para um monte de gente mesquinha, que cultua o ódio e apóia a tortura e execuções sumárias, pudesse dizer isso com todas as letras”.
Aos três minutos de filme, quando o capitão Nascimento diz que “sem o BOPE a criminalidade já teria tomado conta do Rio” veio o primeiro impulso de desligar a TV, mas eu tinha que resistir bravamente. Essa frase lógica e sensata, “não vi e não gostei”, não é uma opinião válida para alguns…
Não acreditem no que o Xexéo diz. O filme não se limita a apresentar uma situação; ele veste a camisa do BOPE, manipula o espectador durante 100% do tempo para dar razão ao ogro vivido pelo brilhante ator da Globo. A vibração do público com as torpezas do capitão não foi um acidente, mas algo cuidadosamente planejado.
A narração em primeira pessoa, claro, não significa que um autor se identifique com o personagem. John Fowles não compartilhava dos delírios psicopatas narrados por Frederick Clegg em “O Colecionador”, e por isso colocou muita coisa nas entrelinhas avisando ao leitor de que o narrador era um doido.
Já em Tropa de Elite não é feito qualquer reparo mais sério à pessoa do capitão Nascimento. O que vemos é alguém com alguns problemas, mas que no geral “faz o que tem que ser feito” — o que inclui execuções a sangue frio, tortura de crianças e de inocentes, etc. Tudo por motivos nobres, tudo justificado no contexto da história.
Quem são os únicos personagens no filme com um discurso minimamente articulado contra a violência policial? Os estudantes mais imbecis da história do cinema, que fumam maconha durante uma reunião de trabalho, dizem que os traficantes “têm consciência social” e compram a erva deles pra revender na faculdade…
Viu, seu idiota? Viu como esse pessoal dos “direitos dos manos” é tudo maconheiro sem vergonha? Não acredite neles, acredite no BOPE, porque o BOPE é que tem caras idealistas que arriscam a vida pra te proteger!
Tropa de Elite é um filme estereotipado, primário e maniqueísta. Tem até algumas boas cenas, mas o fio principal é puro discurso ideológico. O diretor João Padilha está mais preocupado em provar uma tese do que contar uma boa história.
O capitão Nascimento parece aqueles heróis do desenho Superamigos que ficam falando pelos cotovelos enquanto salvam o mundo. Não se contenta em ficar surrando o usuário de maconha; enquanto isso, aluga o torturado e o espectador com aquele discurso tolo e clichê de que “o usuário financia a violência”…
Por essas e outras, não consegui evitar um sorriso de satisfação quando a comissão do Ministério da Cultura resistiu ao cerco da opinião pública e escolheu para nos representar na disputa do Oscar o verdadeiro melhor filme brasileiro de 2007: “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”.
Na matéria do Globo que anunciou o fato, o comentário de um leitor resumiu o que eu pensava:
P. estava demorando. Tínhamos que pegar o computador da mãe dele no conserto, mas ele estava na locadora ao lado escolhendo filmes. Fui lá apressar.
Cenário de puro tédio. P. ia de prateleira em prateleira desanimado. Pegava uma capa de DVD, lia sem muito interesse e colocava de novo no lugar. Eu dizia “pega esse”, e ele “já vi”. “E esse?”. “Também”.
Finalmente conseguimos escolher e fomos embora. E eu fiquei me lembrando de mim mesmo, há uns tempos atrás, fazendo a mesma coisa, entediado, sem saber o que levar pra casa. Tempos que não voltam mais.
Comprei há alguns meses um aparelho de DVD que lê arquivos nos formatos DivX / XviD, que armazenam com boa qualidade um filme de longa metragem num mísero CD de 700 megabytes. E desde então tornou-se rotina pra mim ver, todos os dias, filmes novos que demorarão bastante pra chegar no deficiente mercado brasileiro, ou mesmo clássicos que nunca apareceram em DVD por aqui.
O filme demora poucas horas pra ser baixado na internet, e depois eu o gravo num CD ou DVD-RW, junto com um pequeno arquivo de texto com as legendas, e vejo no televisor da sala.
Pirataria? Acho discutível usar este termo. Se eu quisesse ver pelas vias normais o belo Guide to Recognizing Your Saints(foto), eu não poderia, porque ele não foi lançado no Brasil e nem tem previsão.
Eu até poderia gastar uns cem reais (incluindo frete e impostos) para trazê-lo dos EUA, mas, sem legendas em português, minha mãe e meu irmão caçula, que não lêem em outras línguas, não poderiam aproveitar tão caro presente. Já o meu ótimo arquivo baixado na internet tem legendas traduzidas gratuitamente pelos santos do Legendas.tv.
Já não sinto mais tédio. Há uma filmoteca inteira ao alcance das minhas teclas. A Tina me indicou há algum tempo um filme antigo do Louis Malle, Le Souffle au Coeur, e no dia seguinte eu o estava vendo aqui. Esta obra prima nunca saiu em DVD no Brasil.
Tenho feito algumas seqüências exploratórias. Meu xodó recente é o cinema alemão. Vi a adaptação de O Jovem Törless, tão boa que me deu vontade de reler o romance de Robert Musil, já visitado na juventude sem a devida atenção.
Ir a uma sala de cinema é muito raro, pois cada vez mais os cinemas de Belém só passam os blockbusters da vez, sem espaço para algo diferente. O Renmero falou sobre isso neste post.
De qualquer forma, não tenho feito outra coisa no meu tempo livre além de ver filmes. É capaz disso aqui virar um blog de resenhas de cinema. Não se espantem se o Velho do Farol estiver sempre ocupado na frente da TV e não estiver nem aí para os navios que estão passando ao largo.
A notícia ainda não foi confirmada oficialmente, mas um boato fortíssimo sacudiu a internet dando conta que o desconhecido ator Brandon Routh (foto) foi escolhido para o papel de Kal-El no novo filme do homem de aço.
O diretor Bryan Singer (X-Men 1 e 2), deu uma entrevista posterior à divulgação da notícia e não a desmentiu, o que pode ser um sinal de que ela é verdadeira. O diretor já tinha descartado a escalação de Jim Caviezel (A Paixão de Cristo), alegando que pretendia um ator desconhecido para o papel.
Routh fez apenas algumas participações em programas de TV na gringolândia. Seu pequeno site oficial está quase o tempo todo fora do ar, em função do imenso acesso que deve estar sofrendo.
O curioso é que existem lá fotos dele vestido de Clark Kent, tiradas durante uma festa de Halloween. A que aparece nesta post é uma montagenzinha feita no Photoshop pelo autor destas linhas.
Talvez ele seja um pouco jovem, mas, sejamos sinceros, ele não convence como Clark? Respostas para a redação, quer dizer, para os comments.
Batman Begins é o novo filme do justiceiro mascarado de Gotham. Como o próprio nome indica, trata-se de um recomeço de sua história, depois de quatro filmes que, apesar do sucesso comercial, deixaram muito a desejar como adaptação da mitologia do herói.
O filme está sendo rodado nesse exato momento, e tem lançamento previsto para 2005. O diretor é o talentoso Christopher Nolan, de Amnésia. Bruce Wayne será vivido pelo respeitado mas pouco conhecido Christian Bale (de Psicopata Americano). O elenco é uma constelação de astros: Michael Caine (como o mordomo Alfred), Gary Oldman (tenente Gordon), Morgan Freeman, Liam Neeson, Rutger Hauer, e os emergentes Ken Watanabe (O Último Samurai), Cillian Murphy (Extermínio) e Katie Holmes (Vamos Nessa). O roteiro foi considerado à altura do clima original do personagem.
“Tá tudo muito bom”, mas eu não me sentia tranqüilo com o destino do meu ídolo dos quadrinhos até ver respondida a pergunta: como vai ser o uniforme do Batman? Depois daquela armadura estilo Robocop, e do inacreditável uniforme com mamilos em alto-relevo de Robin, era melhor colocar as barbas de molho.
Mas, como vocês puderam ver na abertura desse post, não há o que temer. O novo uniforme do homem-morcego, mostrado na foto publicada com exclusividade pela revista Newsweek, é quase uma cópia do layout imortalizado por Neal Adams nos quadrinhos dos anos 70. A roupa ficou apenas ficou mais escura e ganhou uma nova versão do clássico logotipo.
A magistral série desenhada por Adams e roteirizada por Danny O’Neal foi publicada aqui nos anos 80 pela editora Abril, e era uma tentativa de redefinir o personagem depois da esculhambação kitsch da série de TV. Ao mandar Robin para a faculdade e caracterizar Batman como um solitário detetive ao estilo noir, os autores resgataram o clima sombrio das primeiras histórias do morcego, que, como se sabe, adotou esse nome e uniforme para aterrorizar seus inimigos.
Com isso, prepararam o personagem para a revolução das décadas seguintes, quando Frank Miller (Cavaleiro das Trevas e Ano Um), Alan Moore (A Piada Mortal) e Grant Morrison (Asilo Arkham) desconstruíram o herói, tornando-o no mínimo um homem muito perturbado, e no limite um louco proto-fascista.
Não se espera que Batman Begins chegue tão longe, mas que pelo menos nos faça esquecer das canhestras tentativas de Tim Burton e companhia. Elas empobreceram o personagem ao recriá-lo sem conflitos existenciais, mesmo se tratando de alguém que se transformou em justiceiro para se vingar de uma tragédia, o assassinato de seus pais (cena omitida antes, mas que integrará o novo filme).
Não funcionou também a direção de arte exagerada e rococó dos filmes anteriores, e os vilões estavam sempre a dois milímetros da paródia deslavada. Dessa vez, Gotham será uma espécie de Nova York realista e ultra-tecnológica, e Ken Watanabe viverá o vilão Rã’s Al Ghul, desconhecido do grande público mas presença de impacto nos quadrinhos, inclusive na série de Adams e O’Neal: um magnata oriental com conhecimentos místicos, que descobre a identidade secreta de Batman. Cillian Murphy terá um pequeno papel como o Espantalho, mas parece que só vestirá sua assustadora fantasia no segundo episódio.
É esperar para ver. Estou tentando, sem muito sucesso, não ler cada linha que sai publicada sobre o novo filme. Talvez o ideal seja esquecer de tudo isso e só acordar para o fato em 2005. Mas tá difícil.
Entre os vídeos institucionais apresentados na abertura do Festival de Belém, havia um da revista IstoÉ Gente. Talvez apropriado para o que foi a abertura: mais que um evento cultural, uma ocasião social para ver e ser visto. O Cine Estação lotou, com filas imensas à porta. Contando atrasos, discursos quilométricos e poses para fotos estilo “festa de quinze anos”, o público só pôde assistir a Dezembro, o curta metragem que abriu o festival, quase uma hora e meia após o horário marcado.
Aliás, por que será que, em eventos de cinema, ninguém fala de cinema, mas apenas de mercado, distribuição, patrocínio? Lembro de uma entrevista de Pedro Almodóvar no Roda Viva, onde o único cineasta presente na banca só fazia perguntas sobre isso. O único que realmente perguntava sobre cinema era o Leon Cakoff, tanto que Almodóvar foi ficando impaciente e a partir de certa hora só queria responder às perguntas dele.
Pois bem: Dezembro, do paraense Fernando Segtowick, abriu (em estréia nacional) o festival, e, metaforicamente, quase o fechou também. A decepção com o filme foi geral, menos para aqueles que já conheciam o igualmente fraco Dias, filme de estréia do diretor.
“Dias” desperdiçava Sandra Barsotti para contar três histórias se cruzando num acidente de trânsito. Dito assim, parece os filmes de Alejandro Iñárritu (e foi feito antes deles). Mas as histórias da mulher deprimida com seu casamento (Barsotti), da adolescente grávida abandonada pelo namorado, e outra que não lembro agora, não criavam qualquer empatia com o espectador, e se juntavam de forma arbitrária e sem sentido. O filme não saiu do zero a zero, a não ser pela bela trilha sonora da banda Epadu.
Em “Dezembro” a fórmula se repete, com a diferença que agora são umas cinco histórias diferentes se atropelando em doze minutos. Algumas cenas apresentadas logo no início, umas sobre as outras, como a mulher grávida acariciando meigamente o barrigão, e o gângster falando agressivamente ao celular, sentado ao lado de uma piscina de uma pseudo-mansão, já mostram o que podemos esperar.
O filme é pessimamente sonorizado, e não se entende nada do que os atores falam; nenhum ator, aliás, se destaca; os cortes são abruptos; a história nunca fica inteligível, e tem mais um desfecho arbitrário unindo os diversos personagens, sem que se saiba direito por quê. Houve os aplausos protocolares, claro; parece que o filme foi parcialmente financiado pela Petrobrás; e mais não digo, pois o leitor já deve ter sentido o drama.
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Após, foi apresentado um trailer de seis minutos do longa metragem Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, que contará a história da Guerrilha do Araguaia, tentativa do Partido Comunista do Brasil de, no auge da ditadura militar, montar uma célula guerrilheira no sul do Pará.
O filme foi integralmente rodado em cidades próximas a Belém, tem Norton Nascimento no papel principal e vários atores paraenses como coadjuvantes. O próprio diretor veio a Belém para apresentar o trailer, e informou que o filme já está pronto e deve estrear por volta de setembro em circuito nacional.
O trailer impressiona pelo tom épico imprimido às cenas. A geografia particular da região ribeirinha da Amazônia parece ser apresentada de uma forma criativa, e as atuações em geral são promissoras.
O que me deixou ligeiramente incomodado foi a possibilidade do filme apresentar uma visão redentora e ufanista do movimento guerrilheiro — um dos maiores equívocos da esquerda brasileira. Em uma cena vibrante, presente no trailer, uma personagem feminina faz, numa festinha na mata, um apaixonado discurso prevendo a vitória da revolução socialista no Brasil.
Tendo em vista o trágico resultado da guerrilha, só posso entender isso como uma ironia. Ou não? O diretor diz que tentou evitar “o risco de produzir uma ‘versão oficial’ da história, seja pela ótica do Partido Comunista do Brasil, seja pela das Forças Armadas”. Mas no site oficial o filme é apresentado como “um filme de amor ao Brasil”. A conferir.
Após o trailer houve ainda a projeção do longa Contra Todos, de Roberto Moreira. Porém, os atrasos superpostos e o adiantado da hora geraram uma debandada de boa parte do público. Como também tive que ir, fico devendo essa parte do relato (me falaram muito bem do filme, depois).
Começou ontem o 1º Festival de Belém do Cinema Brasileiro, iniciativa pioneira dos paraenses Emanoel Freitas (produtor cultural) e Dira Paes (atriz). A programação é extensa e tentarei fazer uma cobertura dos principais eventos.
A atriz Dira Paes é conhecida nacionalmente, pois, além de ter uma respeitável filmografia no nosso cinema, teve participações em algumas novelas e séries da TV Globo, vivendo atualmente a amiga de Cláudia Rodrigues no sitcom A Diarista.
Até quem não gostou de Amarelo Manga, o polêmico filme de Cláudio Assis, há de admitir que ela está deslumbrante como a esposa crente de Chico Diaz, que muda radicalmente após ser traída. A atriz já ganhou os prêmios de melhor atriz no Festival de Brasília (por Corisco e Dadá, também fazendo par com Diaz) e melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado (por Noite de São João).
Na abertura do evento, ontem à noite, ela não pôde comparecer, pois está filmando com Jorge Furtado em Porto Alegre, mas mandou um simpático recado em vídeo, no telão.
O cinema paraense tem tido um certo impulso a partir de 1999, quando houve uma safra de curta-metragens filmados a partir de prêmios-estímulo da Prefeitura de Belém e do MinC. Quem quiser saber um pouco mais sobre essa história pode dar uma olhada no site Cinema Pará, que coloquei no ar há alguns anos a pedido de uma amiga, que estava escrevendo uma monografia sobre o assunto. Republiquei-o agora em razão deste post.
O design é simples, mas contém boas informações (atualizadas até aquela época). O ponto alto da última safra foi a participação do filme As Mulheres Choradeiras, de Jorane Castro, na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2001. Naquele ano, o curta paraense foi o único representante brasileiro no tradicional festival francês.