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Eu nem ia escrever sobre o Círio de Nazaré esse ano. Minha crônica O Lírio Mimoso já diz tudo o que eu precisava dizer, e eu ia apenas linkar o interessante artigo publicado anteontem pela Marcinha sobre essa festa maravilhosa.
Mas a dona Amparo está com uma hóspede cearense, F., que é muito católica e está indo em toda a programação da quadra nazarena. Hoje de manhã foi a Romaria Fluvial, uma das várias da festa. É uma procissão muito bonita, onde a Naza é levada num navio da Marinha e seguida por mais de 400 (!) barcos num passeio em toda a extensa orla de Belém.
F. queria ver alguma coisa, então decidimos acompanhá-la até a escadinha do cais do porto, no centro da cidade, ver a chegada da Naza. A classe média paga até 70 reais por um lugar num dos barcos turísticos, e o povaréu chega como pode pra homenageá-la quando ela desce. Pegamos um táxi e eu estava achando tudo muito tranqüilo… até chegar lá.
O trânsito estava sendo desviado vários quarteirões antes; havia centenas… não, milhares (!) de motocicletas estacionadas em fila, porque logo em seguida seria a Moto Romaria. Parecia que toda a população do Pará estava indo para o mesmo lugar que nós.
Fomos abrindo caminho na multidão e entramos na quadra do sindicato dos estivadores, cujo aparelho de som tocava em alto volume músicas religiosas cantadas por grandes nomes da MPB. Era um pouco longe mas dava pra ver, e havia sombra. F. está muito nervosa; fica tagarelando sem parar, narra os acontecimentos como se fosse um locutor esportivo. Não muito diferente dos demais, que ficam falando, falando, pra aplacar a impaciência que sentem pela chegada da santa.
Quando chega a corveta da Marinha, lindamente decorada com flores, começa a histeria. A Naza está num altar de vidro na proa do navio, e todos começam a bater palmas, gritar e chorar. É impressionante. Vários helicópteros (quatro ao todo) estão cobrindo a festa, e um deles joga pétalas de rosas quando o arcebispo desce para terra firme carregando a Naza.
A banda da Polícia Militar começa a tocar o hino da festa, e só a fé é que permite a alguém abstrair a completa cacafonia que se instaura. Todos os ruídos se misturam: a fanfarra, a sirene do sindicato, as buzinas e ronco dos motores das motos, o zumbido dos helicópteros, os fogos de artifício, os gritos e o choro da multidão.
É ensurdecedor, mas ninguém reclama. Todo mundo está apenas interessado em ver a Naza. Ela é levada pra lá e pra cá, de acordo com o protocolo, e mesmo quando a perdemos de vista sabemos onde está; basta ver onde estão focados os olhos de todo mundo. É como aquele planeta desconhecido que não se enxerga mas se sabe que está lá, apenas pela alteração das órbitas dos demais.
Chega a hora dela sair do seu palquinho e ir para a Moto Romaria. Parece uma operação de guerra. Tentamos nos aproximar. F. corre para chegar mais perto, e consegue ver a Naza passando a alguns metros dela. Volta para o nosso lado chorando copiosamente. Todos erguem as mãos em devoção. A berlinda da santa sai de carro, e as motos seguem atrás.
Temos que ir embora. O povo passa em sentido contrário às motos, a centímetros delas. É muita gente, e são muitas motos. Quase um quarto de hora apenas para todos os motociclistas saírem do estacionamento. Vejo um monte de motoqueiros estilo hell’s angels, com roupas de couro. Eles não vão participar da romaria, mas estavam junto com os outros, se divertindo.
Que essa loucura coletiva exista há muitos anos sem nenhum acidente grave, com todos voltando felizes pra casa, é um verdadeiro milagre de Nossa Senhora de Nazaré.
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O Cláudio Costa publicou uma foto de satélite da praia de Ipanema, a propósito de falar do site Apolo 11, que divulga dados interessantes sobre geografia e astronomia.
Eu, invejoso que só, resolvi postar aqui essa imagem de minha querida cidade, Belém. A gravura foi montada a partir das fotos disponíveis no site do sensacional projeto Brasil visto do Espaço, da Embrapa.
O Marcelo Tas já o divulgou no Vitrine, mas não custa repetir: esse projeto fotografou toda a superfície do território brasileiro, por satélite, e montou mosaicos que permitem uma bela visão sobre a vegetação, relevo e hidrografia do país. Além do site, as fotos estão disponíveis num CD-ROM, e são imperdíveis não só pra quem precisa das informações como pra quem é simplesmente curioso pra ver um retrato de corpo inteiro do Brasil.
Como se pode notar, Belém está na ponta de uma península, e uma hidrografia acidentada a deixa um pouco isolada da Baía do Marajó. Isso foi importante para o fundador da cidade, o português Francisco Caldeira Castelo Branco, que construiu em 1616 o Forte do Presépio, marco inicial de Belém, num local de difícil penetração para os invasores franceses e ingleses. A região era estratégica, por ser o limite norte da linha do Tratado de Tordesilhas.
O que era bom na época, hoje dificulta a atividade do porto da cidade. A maioria dos grandes navios aporta em Vila do Conde, que está de frente para a baía e pode ser vista no canto inferior esquerdo da foto. A grande ilha a nordeste é o balneário de Mosqueiro, onde passei todos as minhas férias de verão, até a adolescência. Bons tempos aqueles.
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A partir deste post estou abandonando meu pseudônimo, Luciano Chardon (que usei em fóruns diversos por alguns anos), e passando a assinar com meu verdadeiro nome, Marcus Pessoa.
Minha participação na blogosfera, primeiro como comentador, depois como dono de blog, me permitiu conhecer várias pessoas inteligentes e espirituosas, chegando às vezes a um nível de amizade, e achei bobagem continuar me identificando com um nome que qualquer leitor de Balzac (como o Rafael Galvão) percebe imediatamente que é falso.
Também me causou forte impressão o artigo de Julio Daio Borges no Digestivo Cultural, criticando aqueles que escrevem na net com pseudônimos. Embora eu não me enquadre nos casos patológicos descritos no artigo, percebi que quem assina o seu nome, dando a cara pra bater, acaba sendo mais respeitado. É isso.
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Entre os vídeos institucionais apresentados na abertura do Festival de Belém, havia um da revista IstoÉ Gente. Talvez apropriado para o que foi a abertura: mais que um evento cultural, uma ocasião social para ver e ser visto. O Cine Estação lotou, com filas imensas à porta. Contando atrasos, discursos quilométricos e poses para fotos estilo “festa de quinze anos”, o público só pôde assistir a Dezembro, o curta metragem que abriu o festival, quase uma hora e meia após o horário marcado.
Aliás, por que será que, em eventos de cinema, ninguém fala de cinema, mas apenas de mercado, distribuição, patrocínio? Lembro de uma entrevista de Pedro Almodóvar no Roda Viva, onde o único cineasta presente na banca só fazia perguntas sobre isso. O único que realmente perguntava sobre cinema era o Leon Cakoff, tanto que Almodóvar foi ficando impaciente e a partir de certa hora só queria responder às perguntas dele.
Pois bem: Dezembro, do paraense Fernando Segtowick, abriu (em estréia nacional) o festival, e, metaforicamente, quase o fechou também. A decepção com o filme foi geral, menos para aqueles que já conheciam o igualmente fraco Dias, filme de estréia do diretor.
“Dias” desperdiçava Sandra Barsotti para contar três histórias se cruzando num acidente de trânsito. Dito assim, parece os filmes de Alejandro Iñárritu (e foi feito antes deles). Mas as histórias da mulher deprimida com seu casamento (Barsotti), da adolescente grávida abandonada pelo namorado, e outra que não lembro agora, não criavam qualquer empatia com o espectador, e se juntavam de forma arbitrária e sem sentido. O filme não saiu do zero a zero, a não ser pela bela trilha sonora da banda Epadu.
Em “Dezembro” a fórmula se repete, com a diferença que agora são umas cinco histórias diferentes se atropelando em doze minutos. Algumas cenas apresentadas logo no início, umas sobre as outras, como a mulher grávida acariciando meigamente o barrigão, e o gângster falando agressivamente ao celular, sentado ao lado de uma piscina de uma pseudo-mansão, já mostram o que podemos esperar.
O filme é pessimamente sonorizado, e não se entende nada do que os atores falam; nenhum ator, aliás, se destaca; os cortes são abruptos; a história nunca fica inteligível, e tem mais um desfecho arbitrário unindo os diversos personagens, sem que se saiba direito por quê. Houve os aplausos protocolares, claro; parece que o filme foi parcialmente financiado pela Petrobrás; e mais não digo, pois o leitor já deve ter sentido o drama.
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Após, foi apresentado um trailer de seis minutos do longa metragem Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, que contará a história da Guerrilha do Araguaia, tentativa do Partido Comunista do Brasil de, no auge da ditadura militar, montar uma célula guerrilheira no sul do Pará.
O filme foi integralmente rodado em cidades próximas a Belém, tem Norton Nascimento no papel principal e vários atores paraenses como coadjuvantes. O próprio diretor veio a Belém para apresentar o trailer, e informou que o filme já está pronto e deve estrear por volta de setembro em circuito nacional.
O trailer impressiona pelo tom épico imprimido às cenas. A geografia particular da região ribeirinha da Amazônia parece ser apresentada de uma forma criativa, e as atuações em geral são promissoras.
O que me deixou ligeiramente incomodado foi a possibilidade do filme apresentar uma visão redentora e ufanista do movimento guerrilheiro — um dos maiores equívocos da esquerda brasileira. Em uma cena vibrante, presente no trailer, uma personagem feminina faz, numa festinha na mata, um apaixonado discurso prevendo a vitória da revolução socialista no Brasil.
Tendo em vista o trágico resultado da guerrilha, só posso entender isso como uma ironia. Ou não? O diretor diz que tentou evitar “o risco de produzir uma ‘versão oficial’ da história, seja pela ótica do Partido Comunista do Brasil, seja pela das Forças Armadas”. Mas no site oficial o filme é apresentado como “um filme de amor ao Brasil”. A conferir.
Após o trailer houve ainda a projeção do longa Contra Todos, de Roberto Moreira. Porém, os atrasos superpostos e o adiantado da hora geraram uma debandada de boa parte do público. Como também tive que ir, fico devendo essa parte do relato (me falaram muito bem do filme, depois).
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Começou ontem o 1º Festival de Belém do Cinema Brasileiro, iniciativa pioneira dos paraenses Emanoel Freitas (produtor cultural) e Dira Paes (atriz). A programação é extensa e tentarei fazer uma cobertura dos principais eventos.
A atriz Dira Paes é conhecida nacionalmente, pois, além de ter uma respeitável filmografia no nosso cinema, teve participações em algumas novelas e séries da TV Globo, vivendo atualmente a amiga de Cláudia Rodrigues no sitcom A Diarista.
Até quem não gostou de Amarelo Manga, o polêmico filme de Cláudio Assis, há de admitir que ela está deslumbrante como a esposa crente de Chico Diaz, que muda radicalmente após ser traída. A atriz já ganhou os prêmios de melhor atriz no Festival de Brasília (por Corisco e Dadá, também fazendo par com Diaz) e melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado (por Noite de São João).
Na abertura do evento, ontem à noite, ela não pôde comparecer, pois está filmando com Jorge Furtado em Porto Alegre, mas mandou um simpático recado em vídeo, no telão.
O cinema paraense tem tido um certo impulso a partir de 1999, quando houve uma safra de curta-metragens filmados a partir de prêmios-estímulo da Prefeitura de Belém e do MinC. Quem quiser saber um pouco mais sobre essa história pode dar uma olhada no site Cinema Pará, que coloquei no ar há alguns anos a pedido de uma amiga, que estava escrevendo uma monografia sobre o assunto. Republiquei-o agora em razão deste post.
O design é simples, mas contém boas informações (atualizadas até aquela época). O ponto alto da última safra foi a participação do filme As Mulheres Choradeiras, de Jorane Castro, na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2001. Naquele ano, o curta paraense foi o único representante brasileiro no tradicional festival francês.
Amanhã faço um relato da abertura do festival.
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