Será lançada nas próximas semanas a versão 3.0 do navegador Mozilla Firefox, e a comunidade Mozilla quer colocá-lo no livro Guiness dos recordes. Queremos que o Firefox bata o recorde de maior número de downloads num período de 24 horas, e por isso estamos promovendo o Download Day 2008.
O procedimento é simples: você, interessado na nova versão do Firefox, clica no link, inscreve seu e-mail na lista e, no dia de lançamento (ainda não divulgado) você receberá um e-mail avisando, e poderá (junto com milhões de outros usuários) conhecer em primeira mão os novos recursos do melhor navegador de internet.
Já estou usando um pré-release desta versão, e posso garantir que as novidades deixam a navegação na internet muito mais rápida, agradável e intuitiva. Falarei sobre elas quando for lançada a versão final.
Vai, clica lá. Se você ainda não adotou o Firefox, é mais uma chance de comparar e ver o quanto ele evoluiu.
E quando tudo parecia tranquilo, quando as coisas se encaminhavam para resoluções racionais e acertadas, quando a vida corria sem pressa (sic), e podíamos ver os incríveis pôr-do-sol desse maio maravilhoso, certos de que, no dia seguinte, eles ainda estariam lá, bem, quando não havia novidades, e isso era ótimo, eis que acontece de novo.
Quando você se apaixona, todos os clichês possíveis te vêm à mente. “Atropelado por um trem desgovernado”. Depois de séculos de canções de amor, não é possível dizer algo novo. Mas isso Coelet já dizia há milhares de anos…
Ficar idiota, fazer loucuras em série, deplorar cada momento em que não está com a pessoa amada, torna-se a rotina, aquela rotina que você não estava querendo reviver (ou pelo menos queria que ela não aparecesse agora, neste momento), porque você estava se sentindo bem como estava, dormindo no chão pra não cair da cama.
Pois hoje você dorme em redes penduradas nas estrelas, e todos os dias quando acorda você cai da rede de uma altura que nem poderia suportar — mas suporta. Você não morre. Você é duro, José.
Nessas horas, eu só consigo escutar Radiohead.
(clique para ouvir)
Radiohead - True Love Waits
I’ll drown my beliefs
To have you be in peace
I’ll dress like you please
To wash your swollen feet
Just don’t leave
Don’t leave
I’m not living
I’m just killing time
Your tiny hands
Your crazy kitten smile
Just don’t leave
Don’t leave
And true love waits
In haunted attics
And true love lives
On lollipops and crisps
Ao comentar a invasão do Equador pelo exército da Colômbia, Pedro Doria foi tão condescendente com a violação da soberania alheia que teve depois que se explicar para os leitores. A emenda foi pior que o soneto: algo do tipo “a Colômbia invade, mas a Venezuela também”. E socorreu-se de uma notícia falsa, a suposta invasão de território brasileiro pelo exército venezuelano há alguns meses.
A fonte da notícia foi esta matéria da tal Agência Amazônia, um órgão de imprensa sem muito critério e já devidamente desmascarado por mim neste post, quando já tinham levado a erro um outro senador (Artur Virgílio) com outra notícia falsa.
O que diz a mirabolante matéria da agência?
FLÓRIDA, EUA - Helicópteros e outras aeronaves do Exército da Venezuela fizeram sobrevôo ilegal dentro do espaço aéreo brasileiro e chegaram inclusive a pousar numa aldeia indígena, em Roraima, no dia 8 de agosto passado. A denúncia foi feita por lideranças do povo Ianomami, em carta endereçada às autoridades brasileiras.
Os líderes manifestam sua preocupação porque acreditam que os militares do país vizinho estão apoiando garimpo dentro da area indígena. A violação do espaço aéreo, seguido do pouso do helicóptero das Forças Armadas da Venezuela aconteceu na aldeia de Xitei e foi presenciada por representantes do Ministério Público Federal e da Diocese de Roraima que estavam em visita aos índios.
Quer dizer: várias aeronaves estrangeiras pousam em território brasileiro, representantes do Ministério Público e da igreja vêem, e ninguém diz nada? Ficam em silêncio? Nem ligam pra contar o fato a seus superiores?
A matéria se baseou integralmente na tal carta da liderança ianomâmi, e nenhum repórter da agência checou os fatos junto à diocese ou ao Ministério Público. O que temos é uma carta provavelmente falsa e mais um exemplo de “como não se fazer jornalismo”.
E é esta a fonte em que o Pedro se baseia para justificar o ato criminoso do exército colombiano…
Como muitos de vocês devem saber, a revista Veja está sendo dissecada pelo Luis Nassif em uma série de artigos brilhantes, que mostram como ela publica informações deliberadamente falsas para atingir inimigos, em nome de escusos interesses comerciais.
Mostrar que a Veja não é um órgão de imprensa, mas um pasquim de difamação, é uma tarefa que transcende questões políticas ou ideológicas. A Veja não é ruim porque defende esta ou aquela idéia, mas porque dá ares de verdade a mentiras cuidadosamente fabricadas.
O dossiê do Nassif é o exemplo mais bem acabado de jornalismo independente, investigativo e crítico. Nenhum órgão de imprensa teria coragem de publicá-lo, por isso ele está numa página gratuita e conta apenas conosco, que acreditamos em informação dada com honestidade, para divulgá-lo.
Como você deve reparado, os links deste post não dão para o site da revista, mas para o dossiê. Isso chama-se google bombing, e este post é uma adesão à campanha do Bender Blog. Você que tem um blog ou apenas posta em fóruns abertos, e quiser ajudar, basta fazer um link com a palavra Veja e colocar como destino o endereço:
http://luis.nassif.googlepages.com
Se tudo der certo, o usuário que buscar por Veja no Google achará o dossiê do Nassif entre as primeiros resultados.
A eleição norte-americana está na ordem do dia e a grande novidade é a candidatura de Barack Obama, que pode se tornar o primeiro presidente negro no país mais poderoso do mundo.
Eu não vou fazer análise política, afinal há algunscoleguinhasmeus muito mais tarimbados sobre o assunto. Eu só vou falar de um medinho que eu tenho, afinal presidentes negros dos EUA parece que atraem catástrofes…
Em O Quinto Elemento, o presidente Lindberg(foto à esquerda) enfrentou um meteoro senciente superpoderoso, que ameaçava esfarelar a Terra ao se aproximar dela a grande velocidade.
Tom Beck(centro) enfrentou em Impacto Profundo um outro meteoro, que se partiu em dois e gerou um mega tsunami que alagou os Estados Unidos. O outro pedaço por pouco não destrói o nosso planeta.
Com David Palmer(direita) os EUA já sofreram em 24 Horas dúzias de ataques terroristas, com explosão de várias bombas atômicas.
Não sei não, mas se Barack Obama for eleito, o mínimo que se pode esperar é a Terceira Guerra Mundial…
Fiquei sabendo hoje de manhã, quando fui checar os feeds atualizados: o Google Reader está agora com interface totalmente em português.
Se você não sabe o que são feeds, leia essa explicação do Revolução Etc. Eu escrevi em 2006 um post sobre o assunto, hoje um tanto ultrapassado. Na época eu estava usando o Bloglines, mas há algum tempo estou no Google Reader, que é bem mais prático e tem mais recursos.
A principal vantagem é que você checa os feeds mais ou menos como se estivesse checando e-mails (a interface é parecidíssima com o Gmail). A dona Amparo certa vez me viu lendo os feeds e comentou que “eu recebo um monte de e-mail por dia”…
E também tem algumas coisas legais, como busca no conteúdo dos feeds (claro, é do Google), estatísticas de leitura (”Tendências”) e a possibilidade de selecionar posts interessantes para leitura externa (”Itens compartilhados”). Ele é um pouco mais lento que o Bloglines, porque “puxa” mais informação de cada vez, mas, para quem usa conexão discada, ele tem o recurso de baixar os últimos posts para leitura offline. Recurso, aliás, que eu não vi na versão em português, mas deve estar disponível em breve.
Eu acho bem mais interessante acompanhar feeds através de um site e não dos recursos embutidos no navegador. O Firefox permite adicionar facilmente qualquer feed ao Google Reader (e também ao Bloglines), bastante clicar no ícone laranjado ao lado do endereço do site. O Internet Explorer e o Opera ainda não têm esse recurso.
Vamos combinar. Control, a aclamada cinebiografia do líder do Joy Division, Ian Curtis, é um abacaxi.
O diretor Anton Corbijn é um fotógrafo de primeira linha, e há belos enquadramentos ao longo do filme. Se fosse um livro de fotos seria perfeito; como dramaturgia é indigente.
A história do Joy Division, da Factory e da explosão da cena rock de Manchester é ótima e já rendeu uma obra prima (24 Hour Party People, ou A Festa Nunca Termina). Corbijn transformou-a num tedioso dramalhão familiar suburbano, dentro de quartos fechados, com personagens inexpressivos e péssima utilização da música.
Os momentos musicais são curtos e não se vê grande ligação entre as músicas do Joy Division e o personagem Ian Curtis; é como se não fosse ele que as tivesse composto. Nos momentos não-musicais os atores falam tão baixo e com tão pouca entonação que eu cogitei de Corbijn estar tirando uma de Robert Bresson…
Eu lembro bem da comoção que foi o lançamento dos discos do Joy no Brasil, no final dos anos 80. Em tempos pré-internet, eu e meus amigos tirávamos xerox de uma edição portuguesa das letras da banda, e pudemos nos assombrar com a profundidade lírica e existencial do jovem Curtis. Era um rapaz muito atormentado e desencantado com o mundo, e seu suicídio é coerente com sua obra.
Por isso é risível e ultrajante a insinuação de que ele se matou apenas porque tinha epilepsia, ou porque sua esposa não aceitou seus casos extraconjugais.
Bem, os links estão aí embaixo, vejam por si mesmos (o filme ainda não tem data de estréia no Brasil). Mas, se quiserem um retrato vívido e superdivertido da mesma história, não deixem de ver 24 Hour Party People. Esse sim, é indispensável.
“Shadowplay” foi regravada pelos Killers especialmente para a trilha sonora do filme. Clique para ouvir.
SHADOWPLAY
Autoria: Joy Division
Interpretação: The Killers
To the centre of the city where all roads meet, waiting for you
To the depths of the ocean where all hopes sank, searching for you
I was oving through the silence without motion, waiting for you
In a room without a window in the corner I found truth
In the shadowplay, acting out your own death, knowing no more
As the assassins all grouped in four lines, dancing on the floor
And with cold steel, odour on their bodies made a move to connect
I could only stare in disbelief as the crowds all left
I did everything, everything I wanted to
I let them use you for their own ends
To the centre of the city in the night, waiting for you
To the centre of the city in the night, waiting for you
Num dos posts recentes sobre política, recebi um comentário de uma moça que escrevia “vc” em lugar de “você” e aparentemente não sabia pontuar. Eu ia deixar o comentário lá e fazer uma pequena resposta, até que cliquei para ver o blog dela.
Ele era supostamente escrito por um casal de petistas fanáticos, daqueles que acham que tudo que se fala contra Lula é conspiração das elites ou coisa que o valha. Até aí tudo bem, analfabetismo funcional não distingue coloração ideológica mesmo.
Mas o blog ultrapassava todos os limites da caricatura. O casal de articulistas tinha o que se chama de “nome de pobre”, e no primeiro post a moça dizia que começou a escrever o blog a pedido de um amigo, agora que estava freqüentando “a lan house que ele fez no puxadinho”.
Aí caiu a ficha e eu me lembrei de um conhecido blogueiro reaça, com alguns livros publicados, que já confessou uma vez ter feito um blog fingindo ser um petista idiota. Parece que alguém gostou da idéia e o imitou.
O que leva alguém a perder tanto tempo com uma bobagem dessas, é algo difícil de entender. Talvez tenha tempo em excesso mesmo. Talvez seja a forma de expor seus preconceitos usando da garantia do anonimato. “Mamãe, olha como eu sei fazer piada de pobre”.
Apaguei o comentário e disse à autora que nunca mais aparecesse aqui. Um pouco depois, o seu colega (que deve ser a mesma pessoa) veio me dizer que não devíamos brigar, que “a esquerda não devia se dividir”, afinal “os nossos inimigos são os mesmos e são fortes”.
Apaguei de novo, é claro. O problema do esperto é achar que todo mundo é otário.
Amei esse filme. É daqueles pelo qual você não dá nada à primeira vista; não tem um tema chamativo, mas te conquista pelos detalhes; pela naturalidade das situações, pela sensação de que lá estão pessoas reais, e não bonequinhos falantes.
Shaun tem 12 anos na Inglaterra em plena Guerra das Malvinas. Por puro acaso encontra um grupo de skinheads bem legais, nem próximos da idéia que você tem de skinheads. Eles são meio dândis, usam belas botas e suspensórios, e às vezes fantasiam-se como um grupo de teatro mambembe. Quebram algumas coisas por farra, nada de violência real.
Você já foi conquistado pela leveza da história quando chega Combo, um ex-membro do grupo que estava preso e quer transformar esses moleques em skinheads de verdade, com tudo que isso implica: discurso e violência racista, cooptação pela Frente Nacional, e “amor” a uma Inglaterra que só existe na cabeça deles.
O pequeno Shaun e alguns de seus amigos embarcam nisso pela camaradagem, não pela ideologia. Mais tarde, serão os valores da camaradagem que os farão enxergar o beco sem saída em que se meteram.
Bem, não se engane com essa descrição de sessão da tarde que eu fiz aí em cima, e vá atrás. É um dos filmes do ano, um pequeno grande filme, despretensioso, mas profundo e emocionante. Não tem previsão de lançamento no Brasil, mas acho que a isso você já está acostumado.
Update: um amigo me informa que nesta época (início dos 80) é exatamente quando os skinheads (que eram uma tribo urbana sem ideologia definida) foram cooptados pela direita nacionalista. O filme é um pequeno retrato desse processo.
Poucas vezes vi uma mentira estatística tão gritante quanto a “pesquisa” do economista Marcelo Néri, da FGV, sobre o perfil do usuário de drogas brasileiro, publicada com grande alarde na imprensa.
Segundo ele, é na classe A (renda familiar superior a 9 mil reais) que se concentra a grande maioria dos usuários de drogas ilícitas. Diz o autor:
O retrato é muito semelhante daquele traçado no filme [Tropa de Elite]. Quem consome drogas é o garoto de elite, são jovens homens brancos solteiros de alta renda que vivem nas capitais do Sudeste e freqüentam uma instituição privada de ensino: 62% da classe A, com cartão de crédito.
O problema é que o economista não pesquisou nada, apenas pegou dados aleatórios contidos na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE.
A POF é uma pesquisa abrangente sobre rendimentos e gastos do cidadão. Ela pergunta quais alimentos você compra, que formas de lazer se utiliza, quanta paga de conta de luz… mas não pergunta se você usa drogas.
Há questionários detalhados, com dezenas de itens de consumo, e, é claro, entre eles não há drogas ilícitas. Há, no entanto, espaços em branco para itens não catalogados.
Esperar que alguém inclua num questionário desses, “20 reais pra maconha”, “50 pra cocaína”, é delírio. Qualquer inclusão dessas é puramente incidental, sem qualquer validade estatística.
De qualquer forma, o sr. Néri encontrou, entre os 182 mil questionários, 0,06% de vacilões que disseram ao pesquisador do IBGE que gastavam alguma determinada quantia em drogas ilícitas. Sabe quanto é 0,06% de 182 mil? 109.
Isso mesmo: cento e nove brasileiros, em todo o país, pinçados de forma aleatória, foram o universo a partir do qual o sr. Marcelo Néri tirou suas importantes conclusões, como por exemplo, que 99% dos usuários são homens (!) e 75% estão na região sudeste (!!).
É claro que ele não mostrou os números absolutos; a empulhação ia ficar muito na cara. Que ninguém na imprensa tenha reparado nisso, é uma mostra de como andam nossos jornais.
Joguemos essa pesquisa no lixo, que é o lugar dela, e voltemos ao que indicam todas as pesquisas sérias: que as drogas ilícitas são consumidas em todas as classes sociais e em todas as regiões do país, e não apenas por uma minoria localizada.
Isso vai dar a dimensão do problema, e mostrar o quanto é inútil a política atual.
Já disse antes que o Radiohead é a minha banda preferida, entre todas. Talvez não seja mais a número um; o Arcade Fire me conquistou com seus dois álbums impecáveis, perfeitos. Mas seguem tentando ser relevantes e fazer sentido num mundo tão desacostumado à coerência.
As surpresas em série envolvendo o lançamento de seu último disco, In Rainbows, foram tais que eu tive que atrasar esse post até conseguir digerir tudo. No dia 1º de outubro eu soube que o disco sairia no dia 10, sendo que as notícias anteriores indicavam ainda muitos meses de gestação.
Já se esperava que o lançamento seria desvinculado de qualquer gravadora, mas a possibilidade de escolher quanto pagar pelo download foi uma jogada de gênio, um tapa muito bem dado numa indústria fonográfica que acha que pode impunemente extorquir seus consumidores.
Paguei uma libra e meia pelo download, mesmo não precisando. Fiz questão de apoiar, com o meu dinheiro, uma iniciativa ousada como essa. Muitas pessoas pensaram como eu; só na pré-venda a banda arrecadou o equivalente a 20 milhões de reais.
E o disco… bem, esse é o problema.
Temo que os fatores extra-musicais estejam nublando um pouco a recepção dos fãs. Não é um disco excelente, apesar de produzido com muito bom gosto, e fugindo a certo experimentalismo vazio que fez eles lançarem algumas coisas chatas nos últimos anos.
Eu gosto da guinada artística do Radiohead. Acho Kid A um dos melhores discos de todos os tempos, e eu me lembro perfeitamente quando ouvi pela primeira vez Everything in Its Right Place. O século XXI estava como que começando pra mim, naquela ocasião; tudo parecia mais interessante e desafiador.
Mas eu não vejo excelência naquele disco a partir do que ele tem de estranho ou experimental; a surpresa pela mudança radical no som da banda persiste, mas o fundamental são as nove grandes canções, as harmonias cortantes, a fúria, o desespero e a melancolia que se alternam sem muita ordem. Rock cerebral uma pinóia.
Tentaram repetir a experiência em Amnesiac, mas uma safra menos inspirada de canções tornou o disco um objeto estranho. Some-se a isso a vontade deliberada de esconder algumas de suas melhores músicas (Cuttoth, Fog, The Amazing Sounds of Orgy) publicando-as apenas em singles e EPs de tiragem limitada ou sepultando-as em arranjos extraterrestes — é o caso de Like Splinning Plates, que no disco ao vivo tem um tom pungente e confessional ao piano, mas em Amnesiac ficou parecendo que a banda estava tocando dentro de uma câmara hiperbárica.
In Rainbows tenta, como o anterior, Hail to the Thief, o caminho do meio: blips e bloops eletrônicos + canções solenes ao estilo OK Computer. Eu achei mais ou menos; não vi aquelas melodias espantosas a que estou acostumado. É um disco coeso, agradável de ouvir, e com momentos de emoção; Thom Yorke continua cantando muito bem; mas não há nenhuma música que eu pense no primeiro segundo: uau! E é preciso amar as músicas desde o primeiro acorde.
Mas o disco tem sido tão unanimemente elogiado que eu mesmo desconfio da minha apreciação. Cada vez que eu o escuto, ele soa melhor, mas ainda não o suficiente. Não vou esperar semanas até que ele me pareça genial; prefiro publicar esse post e me livrar do assunto.
Você pode escutar abaixo All I Need, que tem sido escolhida por muitas rádios como faixa de trabalho não oficial do disco. É a que eu mais gosto, e tem um clímax épico que só não é perfeito porque acaba bem rapidinho.
Eu nem ia escrever sobre o Círio de Nazaré esse ano. Minha crônica O Lírio Mimoso já diz tudo o que eu precisava dizer, e eu ia apenas linkar o interessante artigo publicado anteontem pela Marcinha sobre essa festa maravilhosa.
Mas a dona Amparo está com uma hóspede cearense, F., que é muito católica e está indo em toda a programação da quadra nazarena. Hoje de manhã foi a Romaria Fluvial, uma das várias da festa. É uma procissão muito bonita, onde a Naza é levada num navio da Marinha e seguida por mais de 400 (!) barcos num passeio em toda a extensa orla de Belém.
F. queria ver alguma coisa, então decidimos acompanhá-la até a escadinha do cais do porto, no centro da cidade, ver a chegada da Naza. A classe média paga até 70 reais por um lugar num dos barcos turísticos, e o povaréu chega como pode pra homenageá-la quando ela desce. Pegamos um táxi e eu estava achando tudo muito tranqüilo… até chegar lá.
O trânsito estava sendo desviado vários quarteirões antes; havia centenas… não, milhares (!) de motocicletas estacionadas em fila, porque logo em seguida seria a Moto Romaria. Parecia que toda a população do Pará estava indo para o mesmo lugar que nós.
Fomos abrindo caminho na multidão e entramos na quadra do sindicato dos estivadores, cujo aparelho de som tocava em alto volume músicas religiosas cantadas por grandes nomes da MPB. Era um pouco longe mas dava pra ver, e havia sombra. F. está muito nervosa; fica tagarelando sem parar, narra os acontecimentos como se fosse um locutor esportivo. Não muito diferente dos demais, que ficam falando, falando, pra aplacar a impaciência que sentem pela chegada da santa.
Quando chega a corveta da Marinha, lindamente decorada com flores, começa a histeria. A Naza está num altar de vidro na proa do navio, e todos começam a bater palmas, gritar e chorar. É impressionante. Vários helicópteros (quatro ao todo) estão cobrindo a festa, e um deles joga pétalas de rosas quando o arcebispo desce para terra firme carregando a Naza.
A banda da Polícia Militar começa a tocar o hino da festa, e só a fé é que permite a alguém abstrair a completa cacafonia que se instaura. Todos os ruídos se misturam: a fanfarra, a sirene do sindicato, as buzinas e ronco dos motores das motos, o zumbido dos helicópteros, os fogos de artifício, os gritos e o choro da multidão.
É ensurdecedor, mas ninguém reclama. Todo mundo está apenas interessado em ver a Naza. Ela é levada pra lá e pra cá, de acordo com o protocolo, e mesmo quando a perdemos de vista sabemos onde está; basta ver onde estão focados os olhos de todo mundo. É como aquele planeta desconhecido que não se enxerga mas se sabe que está lá, apenas pela alteração das órbitas dos demais.
Chega a hora dela sair do seu palquinho e ir para a Moto Romaria. Parece uma operação de guerra. Tentamos nos aproximar. F. corre para chegar mais perto, e consegue ver a Naza passando a alguns metros dela. Volta para o nosso lado chorando copiosamente. Todos erguem as mãos em devoção. A berlinda da santa sai de carro, e as motos seguem atrás.
Temos que ir embora. O povo passa em sentido contrário às motos, a centímetros delas. É muita gente, e são muitas motos. Quase um quarto de hora apenas para todos os motociclistas saírem do estacionamento. Vejo um monte de motoqueiros estilo hell’s angels, com roupas de couro. Eles não vão participar da romaria, mas estavam junto com os outros, se divertindo.
Que essa loucura coletiva exista há muitos anos sem nenhum acidente grave, com todos voltando felizes pra casa, é um verdadeiro milagre de Nossa Senhora de Nazaré.
XXY é o filme indicado pela Argentina para a disputa do Oscar de filme estrangeiro de 2008. Foi exibido sem nenhum alarde no Festival do Rio; espera-se que, com a indicação, ele possa ser apreciado como o filme sensível e surpreendente que é.
- Diga algumas palavras e situe tudo, não é difícil.
- OK. A jovem Alex é hermafrodita, e não há muito o que se possa fazer em relação a isso.
Pronto, já temos a história. Os conflitos, a angústia, as dúvidas, tudo meio reprimido, porque é uma jovem bonita vivendo num local isolado, e pra todos os efeitos está tudo normal. Há um elefante cor-de-rosa bailando na sala de jantar, mas todos tentam se acostumar.
Talvez fosse melhor assim. Pensar nisso como um não-evento. Alex não quer mudar nada. Não quer tomar remédios, não quer fazer cirurgia, não quer escolher. Mas os adultos precisam de escolhas. Os adultos ficam lá, falando, racionalizando, e os jovens tentando dizer algo com seus silêncios.
Porque há outros jovens, um deles, Alvaro, um rapaz frágil que se enreda na confusão que Alex cria apenas por existir. A moça transforma a sexualidade de todos ao seu redor mesmo quando não há sexo envolvido.
É um filme meio bruto e um tanto árido. Há metáforas sanguinolentas; há um cirurgião plástico e também um biólogo que autopsia animais; e Alvaro é vegetariano como se dissesse, “não faço parte disso”. Não será defesa suficiente, é claro.
Em resumo: mais uma prova do desassombro da cinematografia de nossos vizinhos.
O filme ainda não tem previsão de estréia no Brasil, mas os paulistas poderão vê-lo na Mostra Internacional, que começa no próximo dia 19 (as datas das sessões ainda não estão definidas). Pra quem não é de São Paulo, há o eMule e o Open Subtitles que não nos deixam na mão.
Quando a TV começou a passar, há alguns anos, vários filmes de propaganda contra as drogas, o tom era aquele dos anos 50: as drogas são o bicho papão, cuidado com seus filhos, etc. O slogan final: drogas, nem morto.
O cheiro de naftalina era evidente, e não podia dar certo, né? Qualquer pai ou mãe prefere um filho drogado a um morto. Ciente disso, a entidade responsável pela campanha mudou o enfoque, passando a dizer que quem usa drogas financia a violência do tráfico — discurso muito bem elaborado que hoje é repetido que nem papagaio por um monte de gente. Uma forma higienizada e moderna de demonizar o usuário.
A cocaína era vendida em farmácias no Brasil até a década de 1930. Na época o usuário não financiava a violência, porque os circunspectos boticários não precisavam se esconder em favelas e trocar tiros para garantir o seu honesto negócio de vender drogas.
Ou seja, a violência não é gerada pela existência de pessoas dispostas a comprar a droga, mas pela proibição do Estado.
Vamos fazer uma divisão de águas. Se você acha que usar drogas, em si, é algo tão horrível que mereça ser considerado crime, mesmo que não gere prejuízo a ninguém a não ser o próprio usuário, pare de ler agora mesmo. Não se preocupe, Deus protege os inocentes e também os obtusos, e com certeza se apiedará de sua alma.
Mas, se você acha que usar ou não drogas é uma decisão exclusiva da esfera individual de cada um, e mesmo assim repete esse discurso fajuto de usuário financiando violência, tem alguma coisa errada.
A idéia de que o cada um é responsável por si mesmo, ou seja, o primado da consciência individual, é um dos alicerces do Liberalismo, e este não foi um movimento de Ursinhos Carinhosos que pediram licença ao Estado opressor para ter liberdade de fazer o que bem entendiam. As revoluções burguesas mostraram que, se o Estado é injusto, o melhor a fazer é derrubar o Estado e fundar outro.
Mas agora, vejo gente inteligente achando que os usuários têm que ser uns Ursinhos Carinhosos, pedindo licença ao Estado para exercer o direito básico de consumir o quem bem entendem.
Não, meus amigos, quando o Estado te impede de exercer um direito, você pode até se conformar, se for um banana, mas se tiver hombridade, você tem o direito e até o dever de confrontar esse Estado.
E isso inclui, sim, dar dinheiro ao bandido, se for a única maneira. Digamos que eu seja um cubano querendo fugir de Cuba, e só quem pode me tirar de lá seja um mafioso daqueles de filme. Eu não tenho o direito de exercer a minha liberdade, só porque o meu dinheiro vai pra um bandido? Claro que tenho.
Todos sabem que na época da Lei Seca norte-americana a Máfia se fortaleceu com o comércio ilegal de uísque. Foi só permitir de novo o consumo que essa fonte de financiamento do crime secou.
Eu quero fazer àqueles que põem o dedo na cara dos usuários de drogas ilegais, mas tomam sua cervejinha nas sextas-feiras, a seguinte pergunta: se o Estado o proibisse de tomar a sua cerveja, você acataria? Deixaria de tomá-la?
Se a resposta é não, você é um hipócrita. Se a resposta é sim, você é um cordeirinho da violência do Estado.
O Jefferson convidou a mim e a outros blogueiros amigos para escrever sobre os 40 anos da morte do Che, comemorados hoje, injuriado que ficou com a matéria da Veja.
Não dei bola para a revista; já passou o tempo em que ela era relevante. Firmemente agarrada a um nicho reaça paranóico, fala agora apenas aos convertidos. Mas não pude deixar de notar, com certo interesse, o caráter inglório de uma batalha que não pode ser vencida. Veja tentando desconstruir o Che é como os soldados australianos correndo para a morte certa em Gallipoli.
Querem fazer o quê? Convencer de que o Che era um qualquer? Que bobagem. Qualquer pessoa que tenha contato com a história do Che, com as fotos dele, com os escritos que deixou, percebe de imediato que ele era extraodinário. Um soldado e um sonhador, um teórico e um poeta. Não tenha medo de usar clichês; eles podem ser simplesmente verdadeiros.
Você pode discordar das idéias dele. Eu também discordo de algumas. Mas negar o valor de quem tem valor é muito mesquinho.
O Che viveu e morreu coerente com o que pensava. Isso não pode ser dito da quase totalidade dos chamados grandes líderes. Não se corrompeu, não oprimiu, não se acomodou. “Não teve tempo pra isso”, dirá você. Que seja. Viveu muito, morreu cedo e deixou um belo cadáver — um pouco desgrenhado e sujo, talvez. Matou gente? Quando você me mostrar algum soldado que não matou ninguém, eu vou pensar na relevância desse argumento.
Talvez possa ser finalmente compreendido e estudado ao lado dos grandes revolucionários da América Latina, como Bolívar, Zapata, Sandino e Martí, quando aqueles que pensam com a cabeça na Guerra Fria já estiverem mortos.