Entries from julho 2008 ↓
julho 16th, 2008 — Citações, História, Teatro
Esse post foi publicado originalmente como parte de uma polêmica com o Alex, que disse certa vez que, por definição, nenhum monoglota é inteligente. A discussão é antiga e já não faz muito sentido, mas serviu pra que eu desencavasse um dos melhores textos de um monoglota genial.
Estou indo para a praia e ficarei longe da internet por vários dias. O blog entra em recesso mas os comentários dos leitores continuam muito bem vindos.
QUANDO TUDO COMEÇOU
Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943)
por Nelson Rodrigues
No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.
Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”
Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs.
Continue reading →
julho 14th, 2008 — Belém, Relatos, Sociedade

Um dos parentes dos bebês retira da sacola um martelo e começa a abrir uma das caixas, com a perícia de quem já fez isso muitas vezes. Surge um embrulho. Sim, um pacote branco, que vai sendo aberto lentamente pelo homem do martelo. Um rostinho aparece, como uma flor, emoldurado pelo papel branco com o qual fora embalado.
O homem olha, respira fundo… Logo outras pessoas lhe pedem o martelo emprestado e, aos poucos, as caixinhas começam a ser abertas, uma a uma. Um jardim de pequeninos rostos inertes povoa o grande salão dos mortos. Todos, como em uma orquestra, começam a enfeitar seus filhos com flores azuis, algumas brancas, tudo igual.
Todas as caixas são reunidas em um carro de mão. Um funcionário grita: “Vamos, gente, vamos. Todo mundo já achou o seu? Então, vamos logo, temos que enterrar”. E toma a frente, empurrando o carro com as caixas de bebês empilhadas.
O cortejo segue pela alameda principal do cemitério. Depois de uns 15 minutos andando sob o sol escaldante, chega-se ao local onde as covas rasas já estão abertas. Uma grande fileira de buracos. Apressados, os coveiros vão retirando as caixas do carro de mão e colocando-as nos buracos, em seqüência: número 1, 2, 3… Epa! Alguém alerta: “Calma, calma, esse não é o 4, é o 5, é o meu filho!”
O blog Má Educação publica um relato corta-pulso escrito pela fotógrafa Paula Sampaio sobre um dos enterros coletivos dos bebês que morreram na Santa Casa, em Belém.
Cliquem e leiam o texto completo.
julho 8th, 2008 — Imprensa, Política

Eu nunca entendi direito a obsessão que alguns jornalistas-blogueiros têm pela figura do banqueiro Daniel Dantas (preso hoje em mais uma megaoperação da Polícia Federal). O “orelhudo” parecia ser o responsável por tudo de ruim que acontece nos porões da República. Marcos Matamoros já tinha reclamado que toda a história parecia nebulosa e chata.
E você, caro leitor, pensa a mesma coisa? Não entende o que é que o orelhudo tem? Não agüenta mais ler matérias sobre ele sem entender patavina? Acha tudo isso muito maçante? Seus problemas acabaram!
Bob Fernandes e Samuel Possebon começaram a publicar hoje na Terra Magazine uma fantástica série de reportagens sobre as aventuras de Daniel Dantas no maravilhoso mundo da fraude, sonegação, espionagem e tráfico de influência. O texto é saboroso, e você, que como eu não entende nada das complexas operações cruzadas do mundo dos negócios, ficará por dentro de por que Dantas puxa tantos cordões ocultos do submundo político e empresarial.
Vão lá, sigam os links e leiam tudo. Não vão encontrar nada parecido na cobertura dos jornalões. Tem cenas quase inacreditáveis, como os empregados de um banqueiro cantando a Marcha Imperial de Darth Vader pelas suas costas; um ex-prefeito chorando miséria; e um ex-presidente demitindo a cúpula de seus fundos de pensão depois de uma reunião com a pessoa que eles combatiam.
A PF e o Ministério Público, sabendo das costas larguíssimas que Dantas tem, deram uma tacada de gênio ao vazar para o Jornal Nacional o comentário do banqueiro, de que só precisava de ajuda na primeira instância da Justiça, já que no STJ e no STF ele “resolveria tudo com facilidade”.
Com isso, deixam numa saia justa o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, que, frise-se, é amigo e ex-subordinado de Fernando Henrique Cardoso, o tal presidente que mandou os fundos de pensão pararem de brigar com Dantas. Mendes fica numa situação delicada se der um habeas corpus ao banqueiro, até porque tem blogueiro fazendo até concurso pra saber quando o orelhudo será libertado.
Provavelmente assustado com a revelação do JN, o ministro ligou imediatamente para William Bonner para amenizar o tom de suas críticas à investigação da PF.
Aguardemos a continuação das reportagens da Terra Magazine. O que dá pra saber é que vem muita coisa ainda pela frente.
Atualização: como esperado, o amigo de Fernando Henrique não deixou Dantas e os diretores do Opportunity esquentarem na cela.
Atualização 2: e graças a uma estratégia muito bem montada pela Polícia Federal, o orelhudo está de volta à prisão.
julho 7th, 2008 — Reflexões, Sociedade
[republicado] A notícia publicada pela BBC, de que a palavra saudade foi colocada em sétimo lugar numa lista das palavras mais difíceis de traduzir, em todas as línguas, repercutiu bastante nos blogs brasileiros. Dezenas deles republicaram o texto.
Como qualquer lista, esta pode ser questionada, mas o fato de chancelar uma antiga crença brasileira, de que temos uma palavra que é só de nossa língua “e de mais ninguém”, fez com que a notícia fosse aceita sem reservas.
Lembro de estar, há alguns anos, numa roda de amigos estrangeiros, alguns conhecedores do português, e citar essa questão da singularidade da palavra “saudade”. Para minha surpresa, a maioria achou que o sentido descrito por mim era comum a qualquer língua.
Algum tempo depois, a revista Bravo publicou um artigo de Sérgio Augusto, “Saudades do Brasil”, onde ele refuta categoricamente o que chamou de “nosso maior orgulho lexical”. Vale a pena ler o longo trecho abaixo.

Foi nas caravelas dos séculos 15 e 16 que a saudade (o sentimento, não a palavra) mais pegou carona; se bem que, em alguns périplos, tivesse outro nome, de origem grega: nostalgia, junção de dor (algia) com a distância da terra natal (nostos). Já no século seguinte, ela (a palavra, não o sentimento), ganharia seus primeiros exegetas, Duarte Nunes de Leão e dom Francisco Manoel de Melo. Se e quanto foram beber em Plotino, “o filósofo da pátria deixada”, talvez o primeiro a refletir sobre as inefáveis sensações ateadas pela nostalgia, não sei dizer.
Continue reading →
julho 2nd, 2008 — Blog, Internet
Surgiu uma questão interessante a partir de um comentário que eu fiz neste post do Solon, onde ele falava do FriendFeed, um novo serviço que permite você reunir em um só lugar suas postagens em diversos sites diferentes (blogs, Flickr, StumbleUpon, etc).
Eu senti falta de uma explicação de por que o site é interessante, e ele respondeu que há muita informação sobre o assunto na internet.
É verdade, mas o barato dos blogs é se informar através deles, porque não temos tempo de ler tanta notícia e os blogs refinam isso. Faço um controle rigoroso dos feeds assinados no Google Reader, pra não ficar com coisa em excesso pra ler, e ter só os mais relevantes na lista.
Quando vou escrever, parto do princípio que uma parte dos assinantes do meu próprio feed não conhece ou não tem uma opinião sobre o assunto tratado, então sempre faço um lead ou um pequeno resumo introdutório.
O Solon admite que não gosta muito de fazer resumos (e ele tem todo o direito de não gostar), mas eu acho que é a partir deles que a gente consegue interessar o leitor. Se ele tiver que ler vários links para ficar minimamente informado, talvez simplesmente não tenha tempo pra isso.