Matéria publicada na edição de hoje do Observatório da Imprensa joga luz sobre um personagem um tanto “exótico” no organograma do governo federal: um jornalista pago para mostrar ao governo o que não vai bem.
“Um dos aspectos mais originais do governo (…) foi a nomeação de um assessor especial para ler os jornais e revistas e, partindo desta leitura, fazer diariamente uma resenha crítica qualificada da conjuntura política e econômica, apontando ali os erros e acertos do governo. O homem com carta branca para malhar o governo dentro do governo é o experiente jornalista Bernardo Kucinski, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Colaborador antigo do atual presidente, Kucinski fazia este trabalho muito antes de Lula chegar ao poder e até já publicou um livro reunindo as suas Cartas Ácidas, como chamou as mensagens que enviava, também diariamente, ao então candidato a presidente durante a campanha de 1998.
Desde o início do governo petista, o professor acorda cedo (às 5h30), lê os grandes jornais brasileiros e escreve suas análises – uma espécie de contraponto ao que os áulicos palacianos fazem chegar aos ouvidos do presidente. Pode parecer bizarro, mas Lula paga um assessor para lhe advertir sobre o que está indo mal em sua administração”.
O autor da matéria, Luiz Antonio Magalhães, conta o vazamento de um de seus boletins (rebatizados “Cartas Críticas”), que desencadeou (ou apenas escancarou) uma crise no primeiro escalão, e faz algumas correções a notícias publicadas a esse respeito na Folha de S. Paulo e no Globo.
A matéria me chamou a atenção porque eu era leitor assíduo das Cartas Ácidas, e não tinha a menor idéia de que o trabalho que Kucinski desenvolve no governo é praticamente idêntico ao que fazia fora - uma espécie de “grilo falante” do poder, a “consciência” que chama a atenção para os erros e a necessidade de corrigi-los. Registre-se que o assunto já tinha sido publicado na Folha Online quando houve o primeiro vazamento de um dos boletins.
O site Agência Carta Maior tem um arquivo de Cartas Ácidas anteriores à entrada de Bernardo Kucinski no governo. Basta ir ao último artigo publicado e escolher no rodapé da página os artigos anteriores. Um que recomendo particularmente é a análise de como a revista Veja “escondeu” o caso Suzane Richthofen.
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