Zuenir Ventura comentou em sua coluna no No Mínimo a revelação feita por Elio Gaspari, de que tinha sido classificado como “perigoso comunista” pelo SNI, na época da ditadura, tendo inclusive corrido risco de vida. Sua ligação com os partidos comunistas, explicou, era inexistente.
Uma ducha de água fria para quem acredita em conspirações bolcheviques como as relatadas por Olavo de Carvalho. Mas paranóia tem cura.
O David fez um comentário sobre um post meu que falava de Iraque, Espanha e terrorismo, afirmando que “o governo do PSOE vai ser obrigado, por reflexo, a mostrar braço contra o fundamentalismo islâmico e contra o ETA”, mas que “historicamente, os socialistas espanhóis escorregam nesse quesito”.
Em minha resposta, não posso dizer que divergi em muita coisa:
Fiquei contente com a reação do povo espanhol, não pelo fato de votar contra o PP, mas por ter respondido prontamente às mentiras e manipulações de Aznar. Acho simplório quem diz que a Espanha “se rendeu ao terrorismo”.
O fato é que fiquei contente e me dei ao direito de ser otimista. De esperar que o governo do PSOE vá ter a hombridade que o governo do PP não teve, ou seja, ouvir o povo espanhol - nesse caso, sua condenação ao terrorismo.
Sobre a perspectiva histórica do PSOE, bem, parece que houve alguns acordos secretos espúrios com gente ligada ao ETA, não? Não sei os detalhes da história.
Em outras ocasiões parece que não foi bem assim. Quando eu estava na Espanha se discutia muito a divulgação dos tais “papeles de Cesid”, que mostravam uma chancela do governo Felipe González a uma “guerra suja” promovida pelas forças armadas contra o ETA, após a tentativa de golpe de Estado nos anos 80.
Não tenho tempo de pesquisar sobre o assunto, mas concordo que o ambiente político não deixa outra alternativa ao PSOE a não ser o combate sem tréguas ao terror. No mínimo por cálculo político - o que rege aliás qualquer atitude de qualquer governo. Acho graça da simplificação da direita, que afirma que a esquerda é moralmente inepta para governar.
Ninguém mais está levando a sério essa “elucidação” do caso Staheli. Já apareceram furos enormes na farsa montada pela polícia carioca. Mentirosos incompetentes! Não conseguem que sua mentira dure uma semana que seja. Será que foi por isso que a dona Garotinha passou mal?
O que me espanta é que a imprensa não tenha levantado dúvidas desde o primeiro momento, afinal a história já estava muito mal contada.
Já o outro “crime do momento”, o caso Rugai, está bem próximo de ser resolvido. O filho/enteado das vítimas, Gil Grecco Rugai, é o principal suspeito, afinal uma testemunha o viu saindo da casa na hora do crime, e foi encontrado em seu quarto um cartucho de bala do mesmo calibre da arma que matou Luiz Carlos Rugai e esposa.
A gente sabe o motivo por que tais crimes têm mais destaque que outros. A revista Radar Interativo publicou um artigo de um jornalista policial, onde detalha os critérios para a escolha das pautas de polícia na imprensa diária. Há aquele mais óbvio: quando mais dinheiro tem a vítima e/ou o acusado, mais destaque no noticiário. Outro motivo de destaque é a participação de membros da família no crime.
Por isso o caso Richthofen foi um prato cheio para toda a imprensa, exceto a revista Veja, que meio que escondeu o assunto em suas páginas, talvez por não ter uma explicação reacionário-sociológica-de-almanaque para aplicar a este crime, cometido dentro da classe média alta, que é seu principal público leitor.
É claro que sei que você, ilustre leitor, só usa programas/serviços peer-to-peer para caçar e redistribuir programas livres/open source/freeware, os ebooks que você mesmo escreveu e as músicas que Lobão liberou há anos e anos. Dessa forma, já experimentou as grandes redes de troca-troca…
Hehehehehe.
Pode parecer incrível para muita gente, mas houve uma época em que não existiam programas de troca de arquivos. É isso mesmo! Para baixar músicas (com as conexões da época, impossível pensar em filmes), devíamos navegar por sites de MP3 que disponibilizavam sempre os mesmos links — quase sempre de bandas que estavam no playlist atual da MTV. Mas existiam exceções, pois podíamos armazenar nossos próprios arquivos MP3 em servidores gratuitos sem limite de armazenagem. Sim, não pense que é mentira! A bolha não tinha estourado, a RIAA não tinha se descabelado, e ainda era possível fazer uma piratariazinha inocente e jogar a conta para as pontocom.
Todo esse nariz de cera é desculpa para postar um texto meu antigo, que foi publicado em 1999 em meu próprio site de MP3. Com um pedantismo um tanto ignóbil, eu não me limitava a disponibilizar as músicas — tinha que escrever um texto “profundo” sobre a música ou artista em questão. Em meu favor, pode-se dizer que não existiam esses ótimossitessobreculturapop de hoje, e parecia inovador um site de MP3 que não tivesse “apenas” MP3.
O artigo abaixo é resultado de minha surpresa frente à magnífica cover de “Samba Makossa”, de Chico Science, gravada pelo Planet Hemp. É arrogante, desinformado e meio tolo. Mas veio de meu amor genuíno pela música. Um James Carville pop me mandaria esquecer da política: “é a música, estúpido”…
Planet Hemp - Samba Makossa
(clique no botão de play para ouvir)
Esta música foi lançada originalmente no primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos”. Após a morte de Chico, o Planet Hemp fez essa cover, apresentada pela primeira vez no Heineken Concerts de 1997, em um show onde Liminha foi anfitrião e convidou vários artistas produzidos por ele. A versão saiu depois não em disco do Planet, mas em “CSNZ”, primeiro disco da Nação Zumbi sem seu líder.
Em sua curta carreira, Chico Science apontou caminhos interessantes para o rock brasileiro, e também tocou em alguns nervos expostos do imaginário nacional, ao chutar para o alto a idéia de “nação cordial” destinada a um “futuro radioso” no panorama mundial.
A sua temática é outra: um país afundado até os joelhos na lama, lutando ingloriamente por uma identidade própria, e também com cada um lutando por sua sobrevivência a qualquer preço, num caldo de cultura parecido com o mangue tão falado.
Ao recusar as parabólicas convencionais e preferir enterrar a sua na lama, Chico estava dando uma pista que o identifica com a antropofagia de Oswald de Andrade: não podemos recusar o que vem de fora, mas não podemos aceitar do jeito que vem, que isso ainda vai nos matar. Pode ser um pouco confuso, e a crítica ao Manifesto Antropofágico já foi feita por gente bem melhor do que eu. Mas, sem dúvida, nosso estado de nação periféria e ao mesmo tempo aspirante a colosso da humanidade torna difícil qualquer tentativa cartesiana de interpretar este país.
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O Brasil é um lugar absurdo. Onde Sérgios Nayas podem ficar passeando à vontade na ponte aérea Rio / Miami, mas o Planet Hemp pode ser preso por dizer que fuma maconha. O Brasil é um país mestiço em que parte da elite se imagina branca e européia. E o Brasil também é um país “europeu” que quer ser eternamente visto como aquele primo exótico, pouco sério, habitado pelos “mulatos inzoneiros” imortalizados por Ari Barroso.
Jorge Luís Borges, argentino mas britânico de coração, disse certa vez que a América Latina não existe. O Brasil é parte da América Latina e… desculpem, mas o Brasil também não existe. É uma ficção, criada justamente para que não nos tornemos uma nação de verdade. Para justificar um passado de opressão e alienação. Somos um povo “alegre” porque nos esquecemos dos motivos para sermos tristes…
O cantor Nick Cave, australiano de nascimento, morou alguns meses no Brasil e disse que não entendia como as pessoas fingiam tanto ser alegres. Perguntavam para ele “como alguém tão triste podia viver no Brasil”, e ele ria, respondendo que o Brasil era o país mais triste que ele tinha conhecido!
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Chico Science não era realmente um grande compositor, mas tinha a percepção exata do zeitgeist tupiniquim, uma visão adiantada sobre o que, enfim, esse país precisa. Não de uma “carnavalização” eterna, uma “jorgeamadização” de sua cultura, mas da percepção direta de seu espírito trágico, de sua história de pilhagem e destruição, e de suas (outras) possibilidades enquanto nação jovem e pobre.
Vejam essa bela música: o malungo que pega a bronca por ter chegado atrasado à roda de samba não tem nada a ver com o mulato inzoneiro daquela outra (”Aquarela do Brasil”). Ser do samba não é um traço de cordialidade ou alegria… na verdade, tocar o pandeiro é manter-se inteiro, como diz a letra. Manter-se sendo o que é, sob pena de morrer, ou pior, se desgraçar. Só assim é possível entender o samba e toda a resistência dos negros para manter suas raízes, apesar da repressão dos brancos.
Chico queria pensar essas coisas todas (assim como seu ex-companheiro Otto, que “pensa muito, todos os dias”), e até por isso não tinha nem uma banda, mas uma nação. E não qualquer nação, mas a Nação Zumbi, signo dessa tal história de pilhagens, mistureba de sons só possível com um olhar antropofágico, e além do mais, a melhor seção rítmica do planeta.
Quando ouvi pela primeira vez a versão do Planet, na TV Cultura, tive a mesma sensação que me assaltou quando ouvi Marisa Monte cantando “Comida” dos Titãs. A sensação de existir um mundo dentro da música brasileira que eu não conheço, que às vezes só vem à tona quando um artista generoso nos dá uma nova visão sobre uma canção.
Assim como “Comida” se transmutou, de “brincadeira pop com poesia concreta”, em verdadeiro hino, na versão jazz-maracatu de Marisa, “Samba Makossa”, que ficava meio perdida entre as pérolas da Nação Zumbi, se afirmou agora o que verdadeiramente é: um clássico da música brasileira. E com direito a trechos do “Monólogo ao Pé de Ouvido”, o manifesto dos novos tempos que estavam por vir.
Furio Lonza escreveu há algum tempo um Roteiro Básico para uma Vida sem Livros (sorry, sem link):
Um país que deseja acabar com os livros não precisa nem de prática nem de habilidade, basta seguir passo a passo os 20 mandamentos abaixo:
1. Aumente o número de editoras até chegar à seguinte equação: haverá no país mais editoras que livrarias.
2. Cada editora deve diminuir a tiragem de cada livro e aumentar os títulos publicados periodicamente.
3. Abarrote as livrarias, diminuindo o tempo de exposição de cada exemplar, pois haverá um rodízio natural.
4. As livrarias não comprarão mais livros, passarão a alugar suas estantes.
5. As livrarias pequenas tenderão a se extinguir ou mudar de ramo, pois não possuirão espaço suficiente para expor todas as novidades. Só sobrarão as mega stores.
6. Em virtude do acúmulo de títulos, os jornais só darão a resenha ou crítica 3 ou 4 meses depois do lançamento.
7. Como o livro já estará na livraria há 3 meses, mas ninguém vai saber, ele será devolvido pra editora, pois não terá vendido o suficiente para continuar sendo exposto com destaque, mesmo porque já haverá outro livro mais novo no lugar, que só será resenhado pela mídia 3 ou 4 meses depois e assim por diante.
8. O setor de Marketing das editoras escolherá previamente o livro em que irá investir todos os seus recursos de divulgação na mídia. O resto cairá na vala comum.
9. Os suplementos literários passarão a resenhar somente os livros de editoras que anunciarem em suas páginas.
10. Só serão vendidos nas livrarias os títulos que tiveram farta exposição na mídia, ou seja, os que já nasceram best sellers.
11. As livrarias aumentarão cada vez mais sua porcentagem, chegando a 60%.
12. As editoras passarão a procurar uma tecnologia cada vez mais moderna para baratear os custos, mas deixarão o preço final igual ao de sempre.
13. As distribuidoras contratarão equipes cada vez menos especializadas, de preferência, vendedores que nunca tenham lido um livro na vida. Alegarão que isso atrapalha.
14. O direito autoral dos escritores será diminuído dos atuais 10% para 5%.
15. As editoras extinguirão os departamentos de avaliação de originais, pois só serão publicados livros de gente conhecida, celebridades, não necessariamente escritores.
16. As editoras contratarão escritores que passarão a escrever somente livros com potencial de venda, com elementos ditados previamente pelos departamentos de Marketing.
17. Só serão publicados livros de ficção que sejam baseados em fatos reais, de preferência chocantes, com a verdade nua e crua como fio condutor da trama e que possam aflorar no leitor uma emoção muito grande.
18. As livrarias passarão a incrementar cada vez mais seus espaços com bares, cafés, restaurantes, pontos de encontro, vendendo games, bichinhos de pelúcia, miniaturas, cigarros importados, bonequinhos, pôsteres, baralhos e outros acepipes.
19. Aos escritores sérios, só restará a alternativa de se mancomunarem em confrarias, onde ficarão se auto citando, auto parodiando, auto elogiando e punhetando-se uns aos outros.
20. Só terão amplo destaque na mídia os escritores que acabaram de morrer e que, em vida, jamais viram seus nomes impressos nos jornais.
Não me venham falar agora que os americanos não tiveram participação no golpe que derrubou João Goulart e detonou essa merda que emporcalhou o país por décadas. Que no máximo pensaram, só pensaram, em mandar um porta-aviões fazer farol no litoral brasileiro. Lincoln Gordon, me desculpe, mas sou testemunha da história. De um pedacinho mínimo, mas eu estive lá.
O autor, que morava em Governador Valadares, termina com uma referência ao êxodo de seus concidadãos:
E para mim é apenas justiça histórica que atualmente tantos valadarenses tentem penetrar no Império para sugar um pouquito de dólares e conseguir, na labuta ou na malandragem, o que consideram uma vida decente. Quando mandam um dinheirinho pra família que ficou pra trás, no calorão de Governador Valadares, não é remessa de dólares. É indenização indireta.
O império vem admitindo, paulatinamente, que foi uma grande balela o papo das armas de destruição em massa do Iraque. A amplitude da comédia é tal que me espanta que a credibilidade de W. Bush ainda permaneça em níveis “médios”. Nada que lhe garanta a reeleição, bem entendido.
O discurso oficial é que, mesmo sem as tais armas, o mundo ficou mais seguro sem Saddam. Será? O episódio de mutilação dos corpos de seguranças americanos é fruto de quê? Talvez do ódio amplificado contra os métodos do império. Eu não gostaria de ver compatriotas meus barbarizados dessa forma, e muito menos de perceber isso como resultado último de uma política míope. O Iraque está de pernas pro ar, e sem Saddam a Al-Qaeda encontra terreno fértil para entrar no país. Coisa que não aconteceria se os EUA se preocupassem mais com o Afeganistão — que está às moscas — e em combater realmente o terrorismo.
Mais cedo ou mais tarde alguém (Kerry?) vai ter que admitir que não basta afastar um ditador inimigo, mantendo os tiranos amigos. E que não funciona tentar impor valores políticos a uma região, sem diminuir as tensões que geram os seus conflitos. O governo americano vê a situação se deteriorar totalmente na Palestina e finge que não é com ele.
As novas bombas descobertas em Madri, que resultaram na morte de um policial e três terroristas, mostram as células islâmicas mais ativas do que nunca. Se o novo governo não esmorecer no combate a essa gente, terá depois autoridade moral para questionar a postura do império sobre o assunto. Retirar as tropas espanholas do Iraque, por que não?
Tenho uma ligação sentimental com a Espanha, e episódios como esse me fazem tolamente torcer por um pouco de lucidez em quem tem poder sobre isso. Sim, talvez o povo americano, que terá que refletir se o mundo ficou realmente mais seguro. Pra mim está tudo pior do que há um ano e meio. E não me consta que W. Bush esteja nem aí pra isso.
Mário Sérgio Conti, em texto publicado no No Mínimo, descreveu bem a relativa insignificância da política partidária nos dias de hoje, referindo-se à vitória da esquerda na França:
O agito foi relativo porque só ocorreu na imprensa. O dono do bar onde tomo o santo café de cada dia explicou que “os franceses são assim: numa eleição voltam na direita; na outra, na esquerda”. O que é uma maneira de dizer que a política é irrelevante.
O melhor comentário sobre o assunto é a anedota contada pelo Doutor Plausível:
Num vagão de trem, uma senhora diz a um senhor, “Cavalheiro, poderia abrir a janela? Se ficar fechada, vou morrer sufocada”. O cavalheiro abre a janela. Logo em seguida, outra senhora diz ao mesmo senhor, “Cavalheiro, poderia fechar a janela? Se ficar aberta, vou morrer de frio”. O cavalheiro fecha a janela.
Após alguns minutos, a primeira senhora volta a pedir ao senhor que abra a janela, e ele abre; a segunda pede que feche, e ele fecha. A situação vai ficando enfadonha, até que uma criança que está ali tentando ler sua revista se levanta e sugere, ‘Faz assim: fecha a janela até esta dama morrer sufocada, depois abre até esta outra morrer de frio, e aí a gente pode viajar em paz’.
Política é assim. A cada dois anos é aquela encheção de saco, nhénhénhé pra cá, nhénhénhé pra lá, e o resto do país, q só quer fazer uma viagem tranqüila, tem q ficar aturando. Melhor dar uma chance pra todo partido. Os outros partidos já morreram no frio da incompetência, e agora é a vez do PT morrer sufocado.
Levantou essa lebre em momento de puro oportunismo, aproveitando o auê em torno do filme do Mel Gibson. O texto é tão idiota, os argumentos são tão chinfrins, que tenho até vergonha de citá-los. Mas vamos lá. Jesus seria gay porque:
a) chegou casto à idade adulta;
b) seu discurso era “delicado”;
c) tinha uma “amizade particular” com João…
Precisa continuar? Ofende menos o cristianismo do que a inteligência do leitor.