O Iraque não precisa de liberdade

Lembrei desse longo texto, que escrevi em 2004, porque (a) queria publicar alguma coisa no blog, e estou sem tempo de escrever; (b) a idéia central dele, de que “a liberdade não nos é dada de mão beijada, mas é algo que se conquista” está muito presente nessa época em que o povo iraniano luta pela sua, combatendo a fraude monumental patrocinada pelos regime dos aiatolás.

A Maitê está aí porque foi a inspiração do texto, conforme explico abaixo. Algumas pessoas não gostam dela por causa do Saia Justa. Eu nunca vi esse programa e continuo tendo uma ótima lembrança das crônicas que ela escrevia na revista Época.

Maitê Proença

Tem sido muito criticada uma passagem do Farenheit 9/11, de Michael Moore, onde ele mostra uma vida calma, “comum”, no Iraque pré-invasão americana, e depois o inferno que o país se tornou. Sofisma! Manipulação! “Até parece que o Iraque era um paraíso com Saddam”… isso tem sido dito sem muitas variações por todo lado.

Não há a menor dúvida de que Saddam Hussein era um ditador sanguinário, que exterminava oponentes e tinha ambições imperialistas regionais. Não há a menor dúvida de que ele já teve um arsenal de armas químicas e planos de montar uma bomba atômica.

Mas também se sabe que o arsenal não existe mais, e já não existia antes da investida norte-americana sobre o país. Esse fato poderia ter sido verificado antes da guerra, se o governo Bush tivesse dado tempo à equipe de inspetores da ONU. E também se tem certeza absoluta (sempre se teve, na verdade) que Saddam não tem qualquer relação com a Al-Qaeda.

Como Bush e os republicanos não têm mais como sustentar que Saddam era uma ameaça real para os Estados Unidos, partiram para outro discurso: que estavam levando a liberdade a um povo espezinhado por um ditador.

À parte o fato óbvio de que outros povos árabes, também espezinhados por ditadores, não têm recebido esse fervor libertário dos Estados Unidos (pois os tiranos em questão são seus aliados), fica uma pergunta que não quer calar: o que é pior, a santa paz celestial das ditaduras ou o caos de uma guerra civil fraticida, resultado direto de uma invasão militar justificada pela tal liberdade?

“Relativismo moral”, pode dizer alguém. E para me socorrer é que cito a atriz Maitê Proença. Sim, ela tem se mostrado uma excelente colunista na revista Época, e nesta semana publicou um ótimo artigo, que já começa direto ao ponto:

A humanidade ama a ordem. Os americanos acham que o amor é pela democracia, mas não é. O homem prefere uma ditadura organizada à democracia baderneira.

Eu lembro de receber, em 1983, um panfleto entregue por um militante estudantil na porta da minha escola, onde estava escrito que o Brasil era uma ditadura militar, que esmagava as aspirações populares e coisa e tal. Eu tinha 14 anos e olhei para o rapaz como se ele fosse maluco. Afinal, que raio de regime ditatorial era esse, que estava fazendo tanto mal, se a minha vida, e a de todo mundo que eu conhecia, era absolutamente normal, sem sobressaltos, sem nenhuma interferência maligna desse governo tão criticado?

Obviamente eu não tinha qualquer consciência política. Eu não percebia a manipulação da televisão em favor do governo, por exemplo.

Mas o fato é que as atrocidades da ditadura não chegaram até a porta da minha casa. E havia uma situação econômica razoável: minha mãe teve seu primeiro emprego de professora (aos 17 anos) ganhando seis salários mínimos, que era o salário normal de um professor iniciante. Dá pra ficar dizendo que o governo estava prejudicando alguém? O fato é que a vida estava boa para a gente.

Penso nos iraquianos lavando seus carros com gasolina, de tão barata que ela é num país tão rico em petróleo. Penso em milhões de iraquianos indo à escola, trabalhando, indo ao mercado, fazendo suas orações. O governo não era do Taliban; não obrigava as pessoas a seguirem regras fundamentalistas absurdas. Alguns desses milhões provavelmente desejavam que houvesse liberdade, mas, será que se dissessem a estes que o preço seria não-sei-quantos-anos de guerra civil, após uma invasão estrangeira, eles iriam achar isso (liberdade) tão importante? Pois, para os Marcus e Marias lá do Iraque, a vida estava boa.

Sim, ela ficou pior depois das sanções oriundas da primeira Guerra do Golfo, e isso se deu quando Saddam adicionou uma boa porção de caos à situação do Oriente Médio, com a invasão do Kuwait. O caos atrapalha a vida das pessoas, impede-as de trabalhar direito, impede-as de levar sua vidinha.

E tem sido isso que a doutrina Bush tem levado a um monte de lugares do planeta: caos. Uma confusão, gerada pelo embate de fundamentalismos, onde estar do lado certo parece mais importante do que fazer a coisa certa. Pois a coisa certa, nesse caso, não é impor seus valores, mas diminuir as tensões que provocam guerras, que provocam o caos que ninguém gosta. Mas o governo Bush tem adicionado mais pressão a uma panela que já está em ponto máximo, tanto na Palestina como na Venezuela, no Haiti, no mundo árabe inteiro, etc, etc.

Então eu explico o título provocativo: não, é óbvio que eu não acho a liberdade uma coisa de menor importância. Eu sou um libertário, mas a questão é: como chegar a essa liberdade? Muita gente bem melhor que eu já disse isso, mas o fato é que a liberdade não nos é dada de mão beijada, ela é algo que se conquista. Você, que talvez não estivesse satisfeito com a ditadura militar brasileira, gostaria de ter seu governo derrubado por uma potência estrangeira, com milhares de mortos no processo, para que se restabelecesse a democracia? Eu não gostaria.

O Iraque precisa de liberdade, sim, é óbvio. O homem precisa de liberdade, mas, sou eu que vou impor a ele? Sou eu quem vai libertá-lo? Não, é ele que vai se libertar, se assim o desejar. A construção da democracia é um processo complexo, algo que nós, brasileiros, já sabemos, ou deveríamos saber, pois estamos vivendo um processo de construção da democracia riquíssimo nos últimos vinte anos.

O irônico da situação é que, no principal país do Oriente Médio onde está se dando um processo semelhante, seu governo está sendo apontado por Bush e companhia como integrante de um “eixo do mal”. Sim, o Irã.

O Irã não tem ligações com a Al-Qaeda, não tem patrocinado investidas terroristas contra o ocidente, e tem vivido um processo fascinante de embate político entre conservadores e progressistas, dentro dos estritos parâmetros de uma sociedade profundamente islâmica. Depois de duas ditaduras (uma laica e outra religiosa), o Irã já é uma potência econômica regional e periga se tornar nos próximos anos uma grande democracia de massas. E o que Bush faz? Ameaças de levar para lá o caos que levou ao Iraque.

Para responder antecipadamente a qualquer acusação de relativismo moral, me socorro de novo em trechos do artigo de Maitê Proença, onde ela, ao mesmo tempo em que analisa serenamente a preferência da humanidade pela ordem, demonstra uma preocupação ética compartilhável por qualquer um:

A Alemanha de Hitler é dos exemplos mais funestos desta preferência pela ordem. Hoje não gostam de falar nisso, mas na época, enquanto os métodos do ditador ordenavam e revigoravam uma economia despedaçada, trazendo tranqüilidade para a maior parte da população, os alemães acolheram seu nazi-líder de braços abertos.

Quando um grupo terrorista ataca uma escola matando crianças indefesas, o mundo se enche de repulsa, porque fica difícil imaginar o que está por vir nesse cenário de horrores.

Quando aconteceu, sem nenhum aviso, o ataque à base americana de Pearl Harbour, onde civis escutavam rádio e faziam churrascos com suas famílias, aquilo foi uma perfídia japonesa, nos moldes do terrorismo, que o mundo não perdoou.

Acrescento eu: o mesmo pode ser dito do ataque de 11 de setembro. A França, hoje tão execrada, estampou em manchetes: “somos todos americanos”, oferecendo sua solidariedade à nação agredida covardemente; e não foi diferente entre as pessoas comuns de todo o mundo. Em menos de um ano e meio essa solidariedade já tinha se esvaído…

Nossa musa bi-semanal arremata, reclamando uma legitimidade ética com a qual o governo americano não parece preocupado hoje:

Uma nação como os EUA, quando mente, mata, humilha e desrespeita a ética internacional em favor de interesses particulares, dá margem para o crime organizado, no mundo todo, autorizar-se a subir degraus na escala de crueldades. Se a meca da moralidade age de maneira espúria, ao terrorismo, que precisa escandalizar para chamar a atenção, sobram as portas do inferno.

E por favor, ninguém fale em “anti-americanismo”.

junho 16, 2009   3 Comments

A Petrobrás está estragando uma boa idéia

A criação, pela Petrobrás, de um blog para informar diretamente ao público sobre as questões investigadas pela imprensa e pela CPI, é uma ótima idéia. Com a versão da empresa à disposição, em contraste com as matérias publicadas pelos jornais, o público tem condições de formar melhor sua opinião.

O que estraga é o procedimento bastante condenável que a empresa está adotando, de divulgar as perguntas dos jornalistas (e respostas da empresa), antes mesmo da publicação das matérias às quais se referem as perguntas.

O Sergio Leo disse o óbvio: quando o repórter está com uma informação exclusiva, ele pergunta os detalhes para a fonte para que esta possa dar esclarecimentos, não para que essa informação se espalhe antes da publicação da matéria. Sem informações exclusivas não existe jornalismo investigativo.

O que a Petrobrás está fazendo é sabotar o trabalho dos jornais. O Idelber apóia isso porque deseja (e já disse isso com todas as letras) a destruição dos jornais. Tanto que comemorou o fechamento da Gazeta Mercantil.

Então você, leitor, que aplaude o procedimento da Petrobrás porque acha que “transparência nunca é demais”, perceba que o objetivo é esse, derrubar as pautas investigativas dos jornais e jogar uns contra os outros, tornando a apuração mais difícil.
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junho 9, 2009   5 Comments

Obsessão 2 – Peter, Bjorn and John

Peter, Bjorn and John

O trio sueco já tinha sido citado neste post do blog, quando seu terceiro disco me conquistou, e Young Folks era um super-hit indie que chegou até a tocar em novela das oito.

O disco novo, Living Thing, é mais eletrônico, mais rico em texturas e ritmos, mas não tem uma música tão assobiável quanto seu hit anterior.

Tem rodado em repeat aqui. É um trabalho divertido, um pouco estranho, é claro, mas com momentos primorosos. Um deles é essa baladinha eletrônica. Clique para ouvir.

BLUE PERIOD PICASSO
(Peter, Bjorn and John)

I’m a blue period Picasso stuck on a wall
In a middle of a hall in Barcelona
Trying to figure out how to get down
Because this solitude is bringing me down
The painting’s surround me,
They don’t understand me
I’m too early
I’ve seen this development
Curing this duller sense

But I’m not just being blue
Because I have form, and shape, and color too
And I miss you and this Compton
That is the focus
That is what all the school is reading to us
I’m just a part of what I am
It’s just a part of my beating heart
Beating for you

So I beg you please,
Please wrap me up, please take me out
Please hold me close on to your breast
Run down the stairs, out in open air
Away from the ladies, the Japanese tourists
Thank God for motors because I’m so hopeless
Take me wherever you really came from
You will be famous, seen in the headlines

Though you
Just kindly stole my heart
(Seen in the headlines)
Though you
Just kindly stole my heart
(A world famous art thieves)

I’m a blue period Picasso stuck on a wall
In a middle of a hall in Barcelona
Trying to figure out how to get down
Because this solitude is bringing me down
I’m just a part of what I am
It’s just a part of my beating heart
Beating for you

Please stay with me
Stay with me

maio 29, 2009   No Comments

Obsessão 1 – Yeah Yeah Yeahs

Yeah Yeah Yeahs

Tenho andado com duas obsessões musicais: discos novos de bandas que eu adoro. Uma delas é os Yeah Yeah Yeahs. Seu It’s Blitz é um salto tão grande e corajoso em sua carreira que até assusta.

Do grito primal a um rock sofisticado, e deste a um pop energético e rascante. Lindo. Já falei deles duas vezes no Twitter e não canso de ouvir o disco inteiro.

Depois ponho a obsessão 2. Por enquanto, clique para ouvir.

SOFT SHOCK
(Yeah Yeah Yeahs)

Unknown, talk to unknown
Ever, lasts forever
Well, it’s a sharp shock to your soft side
Summer moon, catch your shut eye
In your room, in my room

Louder, lips speak louder
Better back together
Still it’s a sharp shock to your soft side
Summer moon, catch your shut eye
In my room, in your room

What’s the time, what’s the day, don’t leave me
What’s the time, what’s the place, don’t leave me
What’s the time, what’s the day, don’t leave me
What’s the time, what’s the place, don’t leave me out
Leave me out

maio 28, 2009   3 Comments

São Paulo e o espaço público privatizado

Aconteceu ontem comigo um evento tão bizarro numa praça de São Paulo, bairro da Saúde, que resolvi interromper minha resolução de não me preocupar com o blog durante minha viagem ao Sudeste (que se estenderia por duas semanas e já dura dois meses, hehehe). Achei que tinha que falar sobre isso aqui.

Eu tinha tirado o dia para fazer uns passeios com meu amigo paulista, Marcello. No meio da tarde voltamos à casa dele, e ele percebeu que tinha perdido a chave. A mãe dele tinha saído, e por isso fomos fazer um lanche numa padaria próxima, para esperar ela chegar.

A padaria estava muito cheia, então pegamos os sanduíches e refrigerantes, fomos a uma bonita pracinha numa área residencial do bairro e ficamos lá, comendo e batendo papo furado.

Estávamos nessa vadiagem por talvez uma hora, sentados na sombra das árvores, quando passa ao nosso lado uma viatura da Polícia Militar e pára. Nós éramos os únicos da pracinha, então imaginei que eles se dirigiriam a nós.

Ser parado pela polícia para averiguação é uma situação perfeitamente natural numa sociedade civilizada, mas eu me espantei quando um dos policiais saiu de revólver em punho, com a arma praticamente apontada para nós, e gritando para que ficássemos em pé.

Eu até perguntei, abismado mas de forma polida, “pra que essa arma, amigo?”, ao que ele me mandou simplesmente calar a boca, gritando de novo. Mandou-nos também ficar de costas, não olhar para ele e colocar as mãos na nuca.

Enquanto nos revistavam (e obviamente não encontraram nada suspeito), eu respondia normalmente a todas as perguntas, e umas duas vezes em que simplesmente virei o rosto para responder alguma coisa, ele gritou comigo para que eu ficasse de costas.

Os policiais disseram que aquela praça era “ponto de maconheiro” e um deles deixou escapar que eles foram lá porque um dos vizinhos denunciou a nossa presença!

Quer dizer, dois caras desconhecidos estão na rua fazendo um lanche e conversando às três horas da tarde de um tranquilo bairro residencial, e isso, para os moradores, é motivo para uma chamada à polícia. E a polícia chega apontado armas e humilhando os “suspeitos”, sem nenhum indício de que estejam fazendo algo errado.
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maio 14, 2009   10 Comments

Radiohead – 15 Step (ao vivo no Grammy 2009)

Este post tem duas finalidades: divulgar o vídeo da sensacional apresentação do Radiohead no Grammy, acompanhado da banda de fanfarra USC Marching Band (já que os vídeos sobre isso no YouTube foram todos apagados), e avisar aos amigos do Rio e São Paulo que estou chegando para os shows, e vou reservar alguns dias para passear e conhecer pessoalmente pessoas a quem já me afeiçoei pela internet.

São poucos dias, por causa dos problemas de saúde na família que os leitores já conhecem: chego no dia 17 de março no Rio, vou no dia 21 para São Paulo, e volto para Belém no dia 25.

Vejam o vídeo:

A Trojan Marching Band da University of Southern California existe há décadas e faz parte da tradição norte-americana de grandes bandas de fanfarra universitárias. Quase todas colocam músicas pop em seu repertório, e a da USC até já se apresentou antes no mesmo Grammy, em 2004, acompanhando “Hey Ya” do Outkast. Mas o Radiohead fez mais: colocou os 32 jovens músicos como o centro do arranjo da música e da apresentação no show.

Fiquei impressionado com o entusiasmo e a garra da moçada. Um vídeo com os bastidores dos ensaios e da apresentação (considerada pela Entertainment Weekly como “a melhor da história do Grammy”) foi divulgado pela USC.

Boatos engraçadinhos dizem que o Radiohead vai chamar aos palcos do Brasil o Olodum…

De qualquer forma, estarei nos dois shows para vê-los, e também o Kraftwerk e a volta de Los Hermanos. Já falei com alguns blogueiros amigos, entre eles a Cristiane, o Renmero e o Fábio, para fazermos alguma programação durante a minha viagem. Os leitores e amigos que vão ao show, e os que não vão também, estão convidados a mandar e-mails ou comentários para combinarmos alguma coisa. Até lá!

março 12, 2009   7 Comments

O catolicismo é maior que a Igreja

Caravaggio, Madonna dei Palafrenieri

Eu nem ia comentar o caso do Arcebispo de Recife. Afinal, é um factóide. A intervenção bizarra do arcebispo não teve importância nenhuma. Nem convenceu o Ministério Público a impedir o aborto, nem a excomunhão tem algum efeito real na vida das pessoas.

Todo o “fato” se passou unicamente nas páginas dos jornais. Mas, OK, eu entendo a indignação das pessoas. Também achei de última. Entendo a crítica à nomenklatura caquética de uma Igreja que não sabe mais dialogar com a vida real.

Sinto que este texto vai ficar imenso, mas eu não podia ignorar o que alguns colegas blogueiros estão falando sobre o catolicismo, a partir de episódios mediáticos como esse. Parecem dizer que o catolicismo se resume a gente idiota tentando impedir jovens de usar camisinha e mulheres estupradas de abortar.

Isso é uma pauta requentada de uma imprensa preguiçosa. O catolicismo não é isso. Antes desse imbecil, por exemplo, a Arquidiocese de Recife era ocupada por D. Hélder Câmara, uma dos grandes homens do século XX. Quando o ministro Gilmar Mente fez seu ataque raivoso e ideológico ao MST, a única voz que se levantou para contestá-lo foi a Comissão Pastoral da Terra.

A Camila fez um artigo sobre os católicos não-praticantes (que D. Cláudio Hummes definiu, de forma muito feliz, como católicos “a seu modo”), no qual demonstra uma estranheza tão forte em relação a eles que parece uma antropóloga visitando uma tribo de botocudos. Como se fossem de outro planeta.

Moro na cidade da maior festa católica do mundo, e aqui a gente fica conhecendo na real o que é um povo que apenas tem fé, e são os nossos amigos, parentes, colegas, pessoas normais como nós. Não são ETs. Não são fanáticos.

Os católicos são 73% da população brasileira, e mesmo assim me sinto olhado com lentes exóticas quando falo em caixas de comentários alheias sobre minha fé. A Mary certa vez insinuou que eu sou um fanático, porque defendi as qualidades literárias da Bíblia e disse que acredito numa utopia onde as religiões possam conviver em paz.

A Aline concorda com a Camila e acha que, quando os católicos “a seu modo” não concordam e ignoram as regras idiotas da Igreja, estão sendo apenas comodistas, e coniventes com as atrocidades cometidas por ela.

Quer dizer, o que começou com uma crítica à Igreja chega próximo a um assédio moral aos católicos, mesmo que eles não concordem com ela e não tenham nenhuma responsabilidade pelos atos cometidos.
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março 7, 2009   16 Comments

Brasileira inventou agressão na Suíça e Noblat foi na dela

A reportagem da revista Época não deixa dúvidas: a advogada Paula Oliveira é uma mitômana, com sérios problemas psicológicos, e inventou toda a história que vem sendo contada pela imprensa brasileira há dias. Não houve gravidez, e muito menos ataque racista.

(tá, isso ainda não foi provado. Mas pra mim o que já foi apurado é suficiente para formar opinião. Se a própria gravidez é uma invenção, muito lógico que o ataque também seja)

Sem dúvida, a maior “barriga” (sic) da imprensa brasileira nos últimos anos. Ao menos não causou prejuízos diretos a ninguém, ao contrário do triste caso da Escola Base e outros parecidos. E, ao contrário destes, tem um responsável muito bem identificado: o jornalista e blogueiro Ricardo Noblat.

Tudo começou com um post dele no dia 11 passado, que publicou como fato o que era apenas alegação do pai da moça, assessor parlamentar e amigo de juventude do jornalista. Não houve checagem, e tudo o que ele publicou se baseou nas informações da família, que parece também ter sido enganada pela moça.

Um único jornalista induziu a erro a empresa onde trabalha (foi a chamada bombástica do Jornal Nacional que chamou a atenção para o caso) e gerou um grande constrangimento para o governo brasileiro, que se viu pressionado a, sem motivo, engrossar a voz contra a Suíça — episódio que Sergio Leo conta numa crônica deliciosa.
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fevereiro 18, 2009   8 Comments

White Lies

White Lies

Neste começo de 2009, os White Lies estão, na Inglaterra, na posição que estavam os Klaxons há um ano atrás, e os Arctic Monkeys, há dois: o de banda nova a tomar de assalto as paradas de sucesso, a ser comentada de um lado a outra da ilha, a despertar amor e ódio. Enfim, um verdadeiro e autêntico hype.

Seu álbum de estréia, To Lose My Life, lançado em 19 de janeiro, foi direto para o topo das vendagens, impulsionado por uma sucessão de ótimos singles, que deixaram o público esperando impaciente o longa-duração, e pela própria qualidade do álbum, que não se limita a encher linguiça para os hits anteriores. É um grande disco, um dos melhores dos últimos tempos, sem a menor dúvida.

No entanto, os ouvintes, inclusive este que lhes escreve, são tomados por sentimentos ambivalentes. Se é indubitável o carisma do vocalista, e a qualidade das canções e dos poderosos arranjos de guitarras, há quase um consenso de que nada daquilo é original, e todo o som é decalcado de épocas anteriores.

Imagine que Ian Curtis era jovem na virada do século e ouvia The Cult o dia todo, a ponto de querer ser Ian Astbury. E que, em vez de decorar sua poesia desesperançada com um instrumental esparso, resolveu meter guitarras até o talo, e refrões ganchudos para deleite do público.

Assim nascia mais um herói do rock. Depois da profunda decepção que foi o terceiro disco do Interpol, os White Lies salvam a pátria pós-punk. Ou melhor, não salvam porra nenhuma, mas pelo menos divertem, e me permitem, nesse invernico tropical que estamos tendo aqui, tirar o casaco preto do armário sem parecer um maluco.

Abaixo, a faixa que abre o disco e foi o primeiro single. Clique para ouvir.

Death
(White Lies)

I love the feeling when we lift up
Watching the world so small below
I love the dreaming when I think of
The safety in the clouds out my window
I wonder what keeps us so high up
Could there be a love beneath these wings
If we suddenly fall should i scream out
Or keep very quite and cling
To my mouth as I’m crying
So frightened of dying
Relax yes I’m trying
This fears got a hold on me

Yes, this fears got a hold on me

I love the quite of the night time
When the sun in the deathly sea
I can feel my heart beating as I speed from
Then sense of time catching up with me
The sky set out like a pathway
But who decides which path we take
As people drift into a dream world
I close my eyes as my hands shake
And when I see a new day
Who’s driving this anyway
I picture my own grave
Cause fears got a hold on me

Yes, this fears got a hold on me

Floating neither up or down
I wonder when I’ll hit the ground
Well the earth beneath my body shake
And cast your sleeping hearts awake
Could it tremble stars from moon light skies
Could it drag a tear from your cold eyes
I live on the right side I sleep in the left
That’s why everything’s got to be love or death

Yes, this fears got a hold on me

fevereiro 17, 2009   3 Comments

Nobel para o Calypso – como se constrói um hoax

Banda Calypso

A notícia virou o principal tema de deboche na internet hoje: a banda Calypso teria sido indicada ao Prêmio Nobel da Paz, em solenidade realizada ontem em um hotel de Belém.

Segundo o Diário do Pará, maior jornal do Estado, a indicação foi feita pelo bispo João Pedro do Nascimento, presidente do Comitê da Paz, entidade “oriunda dos Boinas Azuis”, que ganharam eles próprios o Nobel da Paz de 1988. A justificativa foi o “relevante trabalho humanitário em prol dos carentes da região Norte”, promovido pela banda. No dia 15 (daqui a dois domingos) haveria um jogo de futebol e show beneficente do Calypso no Mangueirão.

Já trabalhei em um jornal diário de Belém. Há um ditado que diz que, se as pessoas soubessem como são feitas as leis e as salsichas, não consumiriam nem umas, nem outras. O mesmo pode ser dito das notícias apuradas pela imprensa paraense.

Não se sabe de que igreja é o “bispo” João Pedro do Nascimento. O que se sabe é que ele é um doido varrido com a cara do Muamar Kadafi, que usa até hoje uma boina azul, que é a lembrança de sua participação na campanha de paz da ONU em 1959 na Faixa de Gaza. Pelo menos é o que ele diz.

O fato de ter sido um dos soldados do contingente brasileiro que lá atuou, dá a esse megalômano o argumento de que o tal Comitê da Paz (ONG-de-um-homem-só) é “oriundo dos Boinas Verdes”, como se fosse herdeiro do Nobel de 1988. Note-se que ele não está entre os brasileiros agraciados com a medalha.

É possível que o coquetel no hotel Hilton, citado na matéria do Diário do Pará, tenha realmente acontecido. O problema é que o repórter do Diário apenas transcreveu os termos do release, sem fazer qualquer apuração. Não encontrou a própria banda Calypso, e não ligou para a Secretaria de Esportes ou para a Federação Paraense de Futebol para pedir informações sobre um jogo que se realizaria numa data tão próxima.

É evidente que a notícia é falsa. Mas, pelo inusitado da coisa, e usando os caminhos aos quais temos nos acostumado ultimamente, ela já correu a internet e assumiu ar de verdade.

fevereiro 3, 2009   11 Comments