O Radiohead anunciou em sua página oficial que contará em sua turnê latino-americana com o “apoio de convidados muito especiais”: a banda eletrônica alemã Kraftwerk.
Pra mim, já com ingresso comprado para os dois shows no Brasil (dia 20 de março, no Rio, e 22, em São Paulo), foi uma valorização inesperada da quantia (bem alta) que paguei pelos tickets. O Kraftwerk não é apenas uma das minhas bandas preferidas: é um dos artistas que abriu a minha mente para sons diferentes, ainda nos longínquos anos 80.
Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez em que coloquei o vinil de Radioactiviy pra tocar. Foi uma experiência indescritível; um mergulho num outro universo que eu nem sabia que existia; uma viagem semelhante à de uma droga. Fiquei estupefato com a utilização de sons de aparelhos de rádio, contadores geigers, interferências de ondas curtas, etc, a serviço de melodias perfeitas, econômicas, que têm uma aparência fria, mas emocionam.
Hoje o som do Kraftwerk pode parecer até manjado, de tanto que se incorporou ao synthpop e a vários estilos de música eletrônica. A própria fase atual do Radiohead seria impossível sem os alemães.
A vinda deles (terceira ao Brasil) pode reforçar a venda de ingressos para os shows, que anda bem fraca, apesar das sucessivas notíciasfalsas divulgadas na imprensa sobre uma suposta corrida aos tickets. Fãs do Radiohead chegaram a temer ficar sem ingresso, mas os preços estão muito altos, e os locais escolhidos são grandes demais para uma banda que é famosa na Europa e nos EUA, mas aqui só tocou no rádio com “Creep”, há quinze anos atrás. Aliás, “Creep” não foi tocada uma vez sequer na turnê In Rainbows, mas eu não duvido que eles façam uma supresa ao público brasileiro e a toquem aqui.
Em 1998 eu paguei apenas 25 reais para ver Cure, Smashing Pumpkins, Supergrass e White Zombie na mesmíssima Praça da Apoteose que vai receber o Radiohead. Agora tive que pagar 200. Resultado óbvio: fracasso nas vendas. Existe até um rumor de que a organização do show estaria negociando a volta dos Los Hermanos para tocar também. Parece ser a única banda nacional capaz de causar uma comoção que justificasse uma corrida às bilheterias, sem contar que têm grande simpatia entre os fãs do Radiohead.
Enquanto a organização não define as outras duas atrações dos shows, escutemos a faixa “dance” do Radioactivy, Airwaves. Amo essa música, cuja sonoridade já foi copiada ad infinitum por bandas de todos os quadrantes. Clique para ouvir.
O governo sueco desclassificou há alguns dias como transtornos mentais alguns comportamentos sexuais antes considerados “desviantes”. As autoridades consideraram que o sadomasoquismo, o fetichismo e o travestismo são preferências sexuais como outras quaisquer, e que mantê-los na lista de doenças era uma forma de discriminar e estigmatizar seus praticantes.
O país é o primeiro a atender às reivindicações do Revise F65, um movimento internacional que pede a retirada dessas três práticas do Catálogo Internacional de Doenças - CID. O CID é mantido pela Organização Mundial de Saúde e revisado periodicamente, e o Revise F65 luta especificamente contra os itens F65.0, F65.1, F65.5 e F65.6 do catálogo.
Com a adesão da Suécia, é provável que aconteça com o sadomasoquismo e demais fetiches o que aconteceu com a homossexualidade há algumas décadas atrás: o entendimento de que são apenas estilos de vida diferentes do habitual, que podem ser praticados de forma saudável, por pessoas perfeitamente integradas à sociedade.
O tema veio à baila na época em que a ONU estava fazendo inspeções no Iraque para verificar a existência de armas de destruição em massa. Um dos inspetores era integrante de um conhecido clube sadomasoquista de Washington, e foi muito criticado por setores da opinião pública por isso. Ele chegou a pedir demissão do cargo, mas o chefe da equipe, Hans Blix (coincidentemente, sueco), negou-lhe a dispensa, alegando que era um técnico competente e que seus gostos pessoais não tinham relevância no caso.
Os praticantes do sadomasoquismo garantem que a prática é saudável e segura. Afinal, é apenas um teatro, onde não há violência real ou coerção, e onde toda “submissão” é voluntária. Diz-se até que, na verdade, é o escravo que tem o controle da situação, porque toda vez em que achar que o mestre está indo longe demais, basta pronunciar a “senha de segurança” (safe word) que seu dominador é obrigado a interromper imediatamente o que estiver fazendo.
Para os interessados no assunto, eu indico o excelente filme alemão Verfolgt(Castigue-me), de 2006, que mostra uma relação sadomasoquista entre um jovem delinqüente e sua monitora de liberdade condicional, uma mulher de meia idade que tinha uma vida tranqüila, até que o jovem lhe pede que exerça sua autoridade de forma muito pouco convencional.
A carga emocional da relação entre os dois (onde não há sexo propriamente dito) é enorme, e transforma profundamente as suas vidas. É um filme brilhante, com uma fotografia espetacular em preto e branco, e que deve ser visto de mente aberta.
Atualização: o bug do Orkut foi corrigido, mas permanece em instalações do WordPress e Joomla.
O problema não é só no Orkut, mas também no Flickr e em sites que usam um código específico para envio de fotos, o SWFUpload — o que inclui todos os criados nas plataformas gratuitas WordPress e Joomla, inclusive este blog.
Esses sites usam uma combinação de JavaScript e Flash que permite enviar várias fotos ao mesmo tempo, selecionando-as de uma única vez no computador do usuário. O problema é que a versão 10 do Flash considera este código (usado por milhões de pessoas no mundo todo) um “problema de segurança” e o impede de funcionar.
Essa informação eu li no blog GeoWeb, e imediatamente percebi que se aplicava também ao Orkut. Nas comunidades de suporte técnico começou há pouco tempo uma choradeira imensa, uma sangria desatada pelo não funcionamento do envio de fotos, sem que ninguém soubesse exatamente por que ela funcionava com alguns usuários e não funcionava com outros.
Foi só eu fazer o que aconselhava o GeoWeb (desinstalar a versão 10 do Adobe Flash Player e voltar para a versão 9) que o problema acabou. Isto é, acabou pra mim; pra um monte de gente que não sabe disso, continua.
O que nos leva a uma discussão sobre “monopólio na internet”. Todo mundo reclama da Microsoft, do Google, mas o monopólio de fato é da Adobe, que detém poder sobre virtualmente 100% do que é produzido em Flash, o principal conteúdo multimídia da rede.
É absurdo que uma única empresa possa, de uma hora para a outra, fazer parar de funcionar milhares de sites ao mesmo tempo. Que não ofereça compatibilidade com o conteúdo já publicado. E que não avise aos desenvolvedores de mudanças importantes que virão.
Até o momento, a solução é puramente individual (voltar para a versão 9 do Flash). Não se sabe quando a Adobe ou os sites que estão tendo problemas farão algo por seus usuários.
Quem mora no Rio e em São Paulo deve estar atento. Amanhã de tarde acontecerá o primeiro flash mob pela liberdade na internet, promovido pelo Interney. O objetivo é chamar a atenção e pedir a rejeição do projeto, que segundo o blogueiro,
Implanta uma situação de vigilantismo, não impede a ação dos crackers, e abre espaço para violar direitos civis básicos, reduzir as possibilidades da inclusão digital, elevar o Custo Brasil de comunicação e transferir para toda a sociedade os custos de segurança que deveriam ser apenas dos bancos.
As mobilizações serão amanhã, sexta, dia 14 de novembro, às 18 horas. Em São Paulo, na Avenida Paulista, 900, em frente ao Objetivo, e no Rio, na Cinelândia, em frente à Câmara Municipal. Pede-se que as pessoas tragam uma folha de sulfite escrito NÃO AO PL AZEREDO.
O blog também pede a assinatura da petição online “Manifesto em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento na Internet Brasileira”, que já conta com 119 mil assinaturas.
Agora é oficial. A banda preferida deste blog anunciou em sua página a inclusão do Brasil em sua turnê 2009 — promessa feita no início deste ano, mas que ainda não tinha sido confirmada. Eles nunca tocaram em terras brasileiras.
Além de nós, Chile, Argentina e México farão parte da turnê latino-americana. Apenas o Chile já está com show marcado (27 de março, em Santiago) e com ingressos à venda, mas as demais datas serão anunciadas em breve. Especula-se que eles tragam a tiracolo, para abrir os shows, ninguém menos que o Sigur Rós, também uma das bandas que amo.
Não preciso nem falar do quanto gosto do Radiohead; basta consultar o arquivo do blog. Estarei, com certeza absoluta, em um, ou em todos os shows daqui. Será uma oportunidade também para rever amigos do Rio e de São Paulo, e para conhecer pessoalmente alguns grandes amigos virtuais. Aguardem, confirmarei tudo assim que as datas forem anunciadas.
Eu queria escolher uma música alegrinha pra esse post, o que exclui obrigatoriamente as dos últimos discos, hehehe. Acabei pensando nesta, Lift, que é daquele tipo candente e solar que Thom Yorke deixou de fazer há mais de dez anos. Esta música linda nunca foi lançada pela banda em nenhum de seus discos, nem como lado B de singles. Permanece “inédita”, a não ser por gravações ao vivo como essa, de 1996. Clique para ouvir.
Lift (Radiohead)
This is the place
Sit down, you’re safe now
You’ve been stuck in a lift
We’ve been trying to reach you, Thom
This is the place
It won’t hurt, it will not end
The smell of recognition
A face you barely loved
Empty all your pockets
Cause it’s time to come home
This is the place
Remember me?
I’m that face you always see
You’ve been stuck in a lift
In the belly of a whale
At the bottom of the ocean
Let it go
Let it go
Today is the first day
Of the rest of your days
So lighten up, squirt
Esse post foi publicado originalmente como parte de uma polêmica com o Alex, que disse certa vez que, por definição, nenhum monoglota é inteligente. A discussão é antiga e já não faz muito sentido, mas serviu pra que eu desencavasse um dos melhores textos de um monoglota genial.
Estou indo para a praia e ficarei longe da internet por vários dias. O blog entra em recesso mas os comentários dos leitores continuam muito bem vindos.
QUANDO TUDO COMEÇOU
Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943)
por Nelson Rodrigues
No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.
Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”
Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs. Continue lendo… →
Um dos parentes dos bebês retira da sacola um martelo e começa a abrir uma das caixas, com a perícia de quem já fez isso muitas vezes. Surge um embrulho. Sim, um pacote branco, que vai sendo aberto lentamente pelo homem do martelo. Um rostinho aparece, como uma flor, emoldurado pelo papel branco com o qual fora embalado.
O homem olha, respira fundo… Logo outras pessoas lhe pedem o martelo emprestado e, aos poucos, as caixinhas começam a ser abertas, uma a uma. Um jardim de pequeninos rostos inertes povoa o grande salão dos mortos. Todos, como em uma orquestra, começam a enfeitar seus filhos com flores azuis, algumas brancas, tudo igual.
Todas as caixas são reunidas em um carro de mão. Um funcionário grita: “Vamos, gente, vamos. Todo mundo já achou o seu? Então, vamos logo, temos que enterrar”. E toma a frente, empurrando o carro com as caixas de bebês empilhadas.
O cortejo segue pela alameda principal do cemitério. Depois de uns 15 minutos andando sob o sol escaldante, chega-se ao local onde as covas rasas já estão abertas. Uma grande fileira de buracos. Apressados, os coveiros vão retirando as caixas do carro de mão e colocando-as nos buracos, em seqüência: número 1, 2, 3… Epa! Alguém alerta: “Calma, calma, esse não é o 4, é o 5, é o meu filho!”
O blog Má Educação publica um relato corta-pulso escrito pela fotógrafa Paula Sampaio sobre um dos enterros coletivos dos bebês que morreram na Santa Casa, em Belém.
Eu nunca entendi direito a obsessão que alguns jornalistas-blogueiros têm pela figura do banqueiro Daniel Dantas (preso hoje em mais uma megaoperação da Polícia Federal). O “orelhudo” parecia ser o responsável por tudo de ruim que acontece nos porões da República. Marcos Matamoros já tinha reclamado que toda a história parecia nebulosa e chata.
E você, caro leitor, pensa a mesma coisa? Não entende o que é que o orelhudo tem? Não agüenta mais ler matérias sobre ele sem entender patavina? Acha tudo isso muito maçante? Seus problemas acabaram!
Bob Fernandes e Samuel Possebon começaram a publicar hoje na Terra Magazine uma fantástica série de reportagens sobre as aventuras de Daniel Dantas no maravilhoso mundo da fraude, sonegação, espionagem e tráfico de influência. O texto é saboroso, e você, que como eu não entende nada das complexas operações cruzadas do mundo dos negócios, ficará por dentro de por que Dantas puxa tantos cordões ocultos do submundo político e empresarial.
Vão lá, sigam os links e leiam tudo. Não vão encontrar nada parecido na cobertura dos jornalões. Tem cenas quase inacreditáveis, como os empregados de um banqueiro cantando a Marcha Imperial de Darth Vader pelas suas costas; um ex-prefeito chorando miséria; e um ex-presidente demitindo a cúpula de seus fundos de pensão depois de uma reunião com a pessoa que eles combatiam.
A PF e o Ministério Público, sabendo das costas larguíssimas que Dantas tem, deram uma tacada de gênio ao vazar para o Jornal Nacional o comentário do banqueiro, de que só precisava de ajuda na primeira instância da Justiça, já que no STJ e no STF ele “resolveria tudo com facilidade”.
Com isso, deixam numa saia justa o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, que, frise-se, é amigo e ex-subordinado de Fernando Henrique Cardoso, o tal presidente que mandou os fundos de pensão pararem de brigar com Dantas. Mendes fica numa situação delicada se der um habeas corpus ao banqueiro, até porque tem blogueiro fazendo até concurso pra saber quando o orelhudo será libertado.
Provavelmente assustado com a revelação do JN, o ministro ligou imediatamente para William Bonner para amenizar o tom de suas críticas à investigação da PF.
Aguardemos a continuação das reportagens da Terra Magazine. O que dá pra saber é que vem muita coisa ainda pela frente.
Atualização: como esperado, o amigo de Fernando Henrique não deixou Dantas e os diretores do Opportunity esquentarem na cela.
Atualização 2: e graças a uma estratégia muito bem montada pela Polícia Federal, o orelhudo está de volta à prisão.
[republicado] A notícia publicada pela BBC, de que a palavra saudade foi colocada em sétimo lugar numa lista das palavras mais difíceis de traduzir, em todas as línguas, repercutiu bastante nos blogs brasileiros. Dezenas deles republicaram o texto.
Como qualquer lista, esta pode ser questionada, mas o fato de chancelar uma antiga crença brasileira, de que temos uma palavra que é só de nossa língua “e de mais ninguém”, fez com que a notícia fosse aceita sem reservas.
Lembro de estar, há alguns anos, numa roda de amigos estrangeiros, alguns conhecedores do português, e citar essa questão da singularidade da palavra “saudade”. Para minha surpresa, a maioria achou que o sentido descrito por mim era comum a qualquer língua.
Algum tempo depois, a revista Bravo publicou um artigo de Sérgio Augusto, “Saudades do Brasil”, onde ele refuta categoricamente o que chamou de “nosso maior orgulho lexical”. Vale a pena ler o longo trecho abaixo.
Foi nas caravelas dos séculos 15 e 16 que a saudade (o sentimento, não a palavra) mais pegou carona; se bem que, em alguns périplos, tivesse outro nome, de origem grega: nostalgia, junção de dor (algia) com a distância da terra natal (nostos). Já no século seguinte, ela (a palavra, não o sentimento), ganharia seus primeiros exegetas, Duarte Nunes de Leão e dom Francisco Manoel de Melo. Se e quanto foram beber em Plotino, “o filósofo da pátria deixada”, talvez o primeiro a refletir sobre as inefáveis sensações ateadas pela nostalgia, não sei dizer. Continue lendo… →
Surgiu uma questão interessante a partir de um comentário que eu fiz neste post do Solon, onde ele falava do FriendFeed, um novo serviço que permite você reunir em um só lugar suas postagens em diversos sites diferentes (blogs, Flickr, StumbleUpon, etc).
Eu senti falta de uma explicação de por que o site é interessante, e ele respondeu que há muita informação sobre o assunto na internet.
É verdade, mas o barato dos blogs é se informar através deles, porque não temos tempo de ler tanta notícia e os blogs refinam isso. Faço um controle rigoroso dos feeds assinados no Google Reader, pra não ficar com coisa em excesso pra ler, e ter só os mais relevantes na lista.
Quando vou escrever, parto do princípio que uma parte dos assinantes do meu próprio feed não conhece ou não tem uma opinião sobre o assunto tratado, então sempre faço um lead ou um pequeno resumo introdutório.
O Solon admite que não gosta muito de fazer resumos (e ele tem todo o direito de não gostar), mas eu acho que é a partir deles que a gente consegue interessar o leitor. Se ele tiver que ler vários links para ficar minimamente informado, talvez simplesmente não tenha tempo pra isso.